Bem Estar

Como resgatar relacionamentos desgastados pelo ciúme?

8 de abril de 2016

por Talita Corrêa

 

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Marina tem 17 anos e é virgem. Namora há um ano com um vizinho e vive sonhando – literalmente – que ele arranjou uma moça mais experiente no sexo. Diz que, muitas vezes, vai dormir trocando mensagens carinhosas com o namorado e, no outro dia, logo cedo, está distribuindo farpas e com uma raiva injustificada do rapaz, que pula a cerca nos seus pesadelos.

André tem 57 anos e é casado há 20. Já traiu a mulher duas vezes e foi descoberto nas duas, quando os filhos ainda eram pequenos. A esposa perdoou e nunca mais falou no assunto, mas ele tem certeza que a serenidade dela esconde um motivo: vingança. André acredita que já foi ou vai ser traído de volta e, por isso, não desgruda da mulher, nem  passa muito tempo fora de casa. Virou um verdadeiro cão de guarda.

Luciana tem 29 anos. É noiva. Descobriu que existe um programa capaz de ”xeretar” as conversas de whatsapp de outra pessoa.  Resolveu vigiar o noivo e não demorou até encontrar umas conversas dele com uma ex-colega da faculdade. Resultado: botou o moço contra a parede e contou a verdade sobre sua tática de guerra. O rapaz, irritado, disse que ela viu coisa onde não tinha, ficou transtornado com a invasão de privacidade a la CSI e terminou tudo. Luciana anda arrependida.

Heitor tem 37 anos. É agora separado. Casou aos 26 com uma mulher maravilhosa, ótima mãe, ótima profissional, ótima companheira. Na época, ele pesava 45 quilos a mais. Há cinco anos ele perdeu o pai, que infartou. Heitor resolveu emagrecer e ter uma vida mais saudável. Ficou com o corpo atlético e passou a participar de corridas. Ano retrasado, brigou com a mulher porque decidiu participar de uma meia maratona noturna. Depois, brigaram porque ele foi marcado numa foto com outras corredoras da academia. No último ano, brigaram quase todos os dias. Sempre por ciúmes. Heitor disse que chorou duas noites seguidas quando saiu de casa e precisou se distanciar fisicamente do filho de três anos e meio, mas não aguentava mais tanta cobrança e neurose. Não aguentava mais ver a marcação cerrada da mulher sendo piada no grupo de amigos e familiares.

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As histórias de observadores que são vítimas ou algozes do ciúme chegam todos os dias por aqui. Elas não escolhem sexo, faixa etária, nem o status de relacionamento. Afinal, não há nada tão democrático quanto o ciúme. E também não há nada tão devastador.

Embora ele possa ser, para muitos, uma pitada na relação, com caráter divertido e quase folclórico, para a maioria o ciúme estraga, destrói e desanda o que podia ser bom. Em alguns casos, envolve questões tão graves de domínio e obsessão que acaba virando caso de polícia. Para Tatiana Leite, terapeuta de casal e família, com especialização em Sexualidade Humana, o ciúme, apesar de tudo, é quase inevitável… Pelo menos uma vez na vida.

“O ciúme é um sentimento que, em maior ou menor intensidade, todos nós já experimentamos um dia.  Se por um lado, para muitos, o ciúme representa uma manifestação de amor, para outros ele também pode ser considerado um sentimento que produz angústia. De uma maneira ampla, podemos também considerá-lo como uma manifestação normal das pessoas em relação às outras. Ou seja, assim como é comum sentir inveja, medo, luto, alegria, raiva e saudade. O ciúme faz parte das reações humanas”.

Mas, mesmo sendo tão comum e humano, o ciúme não é algo fácil de ser entendido e explicado.

“Para provocar uma reflexão sobre o tema, gostaria de propor alguns questionamentos. Se esse sentimento é comum nas relações humanas, por que os casais  brigam em decorrência do ciúme?Por que se separam por causa dele? Entender e responder essas perguntas é mais complexo do que se imagina. Nas relações contemporâneas, onde se busca a liberdade, independência, satisfação pessoal e individualidade, a ausência de ciúmes desponta como o novo ideal de amor. No entanto, no nosso conceito antigo de amor, temos elementos como: a promessa de fidelidade, total entrega do outro e submissão dos desejos. No momento em que esses dois mundos colidem, as regras se tornam contraditórias e impossíveis de serem gerenciadas” sugere Tatiana.

Para Marina, André, Luciana, Heitor, você ou eu, o ciúme é, de um modo geral, uma falha de conectividade entre os parceiros. Muitas vezes, ele não é ajustado com a maturidade das partes, com a conversa, com o crescimento do amor. Em alguns casos, o problema exige realmente uma ajuda de um profissional, capaz de tratar a insegurança de quem está levando o sentimento do outro por água abaixo. É nesse momento que especialistas como Tatiana podem entrar em cena, para nos motivar a encontrar o equilíbrio ou as respostas que não estamos encontrando sozinhos:

“O ciúme nasce quando sentimos que nosso parceiro não está conectado como gostaríamos. Esse sentimento de apreensão, relacionado à possibilidade eminente de sermos abandonados, rejeitados ou ainda traídos, faz com que o relacionamento pareça ameaçado pela entrada de um terceiro, um rival. Esse medo, real ou imaginário, é frequentemente alimentado pela insegurança de que irá aparecer outra pessoa mais atraente e interessante a qualquer momento. As pessoas ciumentas apresentam-se nos relacionamentos de forma ambivalente, entre um misto de amor e desconfiança do seu parceiro. Elas tornam-se perturbadas e obcecadas na busca por descobrir a infidelidade. Não constatando a traição sofrem, colocando em dúvida suas próprias percepções da realidade. É nesse momento que devemos avaliar alguns traços de personalidade comuns nas pessoas ciumentas, como a timidez e a baixa autoestima. Essas características podem influenciar a maneira que o indivíduo ciumento enxerga determinados acontecimentos, criando em sua cabeça uma ameaça real de perder seu parceiro. Para ajudar essas pessoas e, consequentemente, resgatar um relacionamento desgastado, é importante trabalharmos a questão da autoestima e a valorização do eu. Pois, a pessoa que não consegue dar valor a si mesmo, desenvolve um sentimento forte de que é possível que ela seja traída e abandonada a qualquer momento. Em outras palavras, o ciumento começa a duvidar de si mesmo e como o ciúme reside na dúvida, o paciente passa a alimentar outros sentimentos perigosos para a saúde. Entre eles; o medo constante, a insegurança, a raiva, desespero e, até mesmo, a depressão. Esse quadro de insegurança excessiva provoca um significativo prejuízo para o relacionamento amoroso, levando a inúmeras brigas, discussões e acusações. Elementos que desgastam a relação e que podem levar ao término do relacionamento. É claro que não podemos esquecer que, muitas vezes, o ciúme pode estar captando sinais de que a relação não está indo bem, ou seja, que está prestes a fracassar. Em alguns casos, quando não encontramos os traços de personalidade ligados à baixa autoestima e insegurança, o ciúme pode representar um sistema de defesa onde o parceiro realmente está descompromissado com a relação. Nesses casos, sempre avalio o ciúme nas relações como um sinal de alerta, ou seja, uma possibilidade de reflexão para recuperação do relacionamento, que pode estar esgotado”.

Se perguntar se sua relação é saudável, já é um primeiro passo. Se a resposta for não, vale avaliar se o que a estraga é uma questão de insegurança, de autoestima, de desequilíbrio emocional ou até mesmo de manipulação e abuso do outro.

 

Observe mais: Uma dose de relacionamento abusivo e outra de detox sentimental

Imagens: reprodução

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