Água na boca

Especial cultura vegana: empreendedorismo, consumo e ideologia – Parte I

19 de julho de 2017

por Observadora

Por Lara Ximenes

(Foto: Freepik)

Só neste mês, Recife já recebeu dois festivais de comida vegana: a 3ª edição do Festival Vegano e o VEG Ciência. Ambos eventos contaram com demonstração e apresentação de pratos e receitas de origem vegetal, sem nenhum tipo de carne ou produto de origem animal. Há alguns anos atrás, essas iniciativas não seriam comuns na cidade – é o que afirma Luana Antero, 28, vegana desde 2013, e que trabalha com a confecção de desodorantes naturais na sua marca artesanal Doula Vegana.

“Logo que virei vegana comecei a buscar alternativas para todos os produtos que eu usava que tinham origem animal ou eram testados em animais. Um desses produtos era o desodorante”, afirma Luana. “Como transpiramos para liberar toxinas, afinal, o suor também é um produto do nosso sistema excretor, o principal problema dos desodorantes tradicionais é que eles são antitranspirantes”, conta.

Segundo Luana, a axila tem muitos gânglios que precisam liberar toxinas, e o desodorante antitranspirante impede essa liberação. “Além da alta quantidades de alumínio, que não é algo bom de estar circulando pelo nosso corpo, você lê o rótulo de um desodorante comum e não sabe nem exatamente quantos químicos estão presentes. Já no rótulo do desodorante natural temos apenas óleo de coco, bicarbonato e polvilho”, afirma a empreendedora.

Luana no Cais do Parto, um dos lugares onde revende seu desodorante vegano (Foto: Lara Ximenes)

Dados

No Brasil, 8% da população se considera vegetariana, segundo o Target Group Index, do IBOPE. Apesar de parecer baixa, a porcentagem representava aproximadamente 15 milhões de pessoas na época – número que já está ultrapassado, pois a pesquisa foi divulgada em outubro de 2012. Os dados também não distinguem vegetarianos de veganos (vegetarianos não comem nenhum tipo de carne enquanto os veganos não consomem nada de origem animal).

Apesar disso, a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) estima um crescimento de mercado significativo: de Janeiro de 2012 a Julho de 2016, o volume de buscas pelo termo “vegano” cresceu 1000% (mil por cento) no Brasil.

Fonte/Gráfico: Sociedade Vegetariana Brasileira

Do site da SBV:

“Já existem, no Brasil, cerca de 240 restaurantes vegetarianos e veganos, além de um boom de lançamentos de pratos e lanches veganos em restaurantes e lanchonetes não-vegetarianas. O crescimento do mercado brasileiro reflete tendências mundiais: no Reino Unido, houve crescimento de 360% no número de veganos no país na ultima década (2005-2015). Nos Estados Unidos, o número de veganos dobrou em 6 anos (2009-2015).”

Veganismo e consumo: do alimento aos produtos de beleza

A jornalista e blogueira Nicoly Monteiro, 25, é uma das consumidoras do desodorante natural que Luana produz. Vegana há quase um ano, Nicoly desde criança questionava a violência contra os animais. “Vi um porco sendo caçado para ser cozinhado uma vez quando e desde então nunca mais comi. Sequer lembro o gosto. Mesmo eu tendo gostado do sabor das carnes um dia, não é um sacrifício pra mim deixar de consumir carnes, porque não consigo dissociar a violência que os animais sofrem do gosto daquilo que estou comendo”, afirma Nicoly.

Assim como Luana, ela também precisou revolucionar a forma que consumia não só alimentos, mas artigos de beleza, roupas e até o seu hobby por velas, que são majoritariamente produzidas com cera de abelha. A partir dessas reflexões, criou o blog Minha Janela, onde aborda questões sobre beleza natural e veganismo.

O blog Minha Janela também tem um canal no YouTube, onde Nicoly fala de consumo consciente e recomenda produtos (Foto: Reprodução/YouTube)

Pesquisando para o blog, Nicoly descobriu que um estudo do Journal of Inorganic Biochemistry (disponível, em inglês, nesse link) indicava que o alumínio, quando absorvido pela pele, poderia causar efeitos similares aos do estrogênio, hormônio com habilidade de causar o crescimento de células cancerígenas. O estudo não comprova uma relação definitiva entre o uso de alumínio e essas consequências, mas sim indica essa possibilidade – o que bastou para Nicoly. “Usar ou não esse tipo de desodorante é uma opção completamente individual. Eu escolhi não usar, porque sei que há interesses de muitas empresas de que esse assunto siga sem maiores pesquisas. No final das contas, é o meu corpo e a minha saúde que está em jogo, e prefiro não correr riscos”, disse neste post.

Beleza natural, cruelty free e vegana: semelhanças e diferenças

Quando Nicoly virou vegana, o Minha Janela também entrou na onda – desde então ela só posta sobre produtos veganos. Mas quando o blog começou, ela ainda era vegetariana, ou seja, consumia e postava sobre alguns produtos que eram naturais e cruelty free [sem crueldade], mas nem sempre eram veganos. Mas quais são as diferenças entre esses produtos?

Os desodorantes de Luana, que são naturais, veganos e cruelty free (Foto: Acervo Pessoal de Luana)

Produtos veganos, além de não testarem em animais, não têm nenhum elemento de origem animal.

Já o produto Cruelty Free é aquele que não foi e nem teve seus ingredientes testados em animais, mas apesar disso podem conter material de origem animal, como leite, carmim, glicerina e cera de abelha – logo, não são necessariamente veganos. Geralmente esses produtos são identificados com uma pequena logo de um coelhinho no rótulo. Algumas marcas nacionais conhecidas que são cruelty free: O Boticário, Granado, Phytoervas e Contém 1g.

Os logos oficiais de coelho que identificam produtos que não testam em animais.

As marcas naturais são aquelas que fabricam produtos sem ingredientes e químicos agressivos para a saúde e para o meio ambiente. Elas são cruelty free e usam ingredientes que provém da natureza (que não necessariamente foram cultivados livres de agrotóxicos).

As marcas orgânicas são parecidas com as naturais, exceto que os ingredientes são 95% orgânicos, ou seja, foram cultivados respeitando o meio ambiente, sem a ação de agrotóxicos e insumos químicos prejudiciais à saúde – além disso, são cruelty free e veganas.

“Para mim, a beleza natural veio até antes do veganismo. É meio que um divisor de águas quando você começa a prestar atenção nos rótulos dos produtos. Por exemplo, um hidratante, a maioria deles quase não tem ingredientes que realmente hidratem a pele, principalmente nas grandes marcas e nos produtos mais baratos, infelizmente. Eles possuem ingrediente químico para dar cor, textura, cheiro, mas que realmente hidrate, quase não tem. O que eu acho mais legal dos produtos da beleza natural é que tudo que está no rótulo é realmente direcionado para a função que você quer”, alerta Nicoly.

“Sem dúvida nenhuma, os melhores produtos que eu já testei, principalmente os de cuidados com a pele, são os naturais. Vale lembrar que consumindo produtos desse tipo 100% do seu dinheiro está indo em benefícios para você, em ingredientes que são bons para seu corpo, e para o meio ambiente, enquanto que na cosmética tradicional tem muito ingrediente que pode trazer malefício e alergia”, defende a jornalista.

Consumo Sustentável, Consciente e Responsável

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, o consumo consciente é uma nuance do consumo sustentável. O indivíduo que consome conscientemente sabe de onde vêm os seus produtos e prioriza as empresas éticas e responsáveis nessa produção, “mandando um recado” para o setor produtivo para que sejam ofertados produtos que tragam benefícios e menos impacto para o meio ambiente. Para Nicoly, o consumo responsável é quando essa consciência é colocada em prática – e é o que ela aos poucos está fazendo, a sua maneira e como pode.

“O veganismo mudou minha relação com o consumo. Me fez ser mais consciente não só no que diz respeito a crueldade animal, mas ao meio ambiente como um tudo. Muitas vezes a loja nem pratica crueldade com animais, mas com seres humanos através do trabalho escravo, como a maioria das fast fashion. Essas marcas quase sempre monopolizam o mercado”, afirma a jornalista.

Outro benefício que Nicoly vê no veganismo é direcionar seu apoio e dinheiro para empresas que ela acredita. “Mudei meus hábitos de consumo quando vi que estava enriquecendo empresas que não têm nada a ver comigo. Porém essa parte é muito difícil e até mesmo impossível em lugares com pouca opção, como por exemplo onde não se pode comprar frutas orgânicas pois só há supermercados grandes por perto. Acho que a questão é fazer o seu melhor todos os dias, não se sentir culpado ou policiar e julgar os outros, mas tentar consumir alinhado com as causas que você acredita. Muita coisa tem um preço baixo mas o custo alto. E normalmente esse custo se resume ao sofrimento de alguém. Seja um animal ou uma pessoa. E no caso das comidas, o custo da nossa saúde”, lembra Nicoly.

Veganismo e o empreendedor local

(Foto: Acervo Pessoal de Rodrigo)

“Embora quatro anos não seja muito tempo, Recife teve uma mudança bem expressiva no cenário vegetariano desde que virei vegana”, afirma Luana. Uma dessas mudanças é graças à produção de produtos artesanais veganos e vegetarianos produzidos por negócios locais. Produtos industrializados não fazem parte da vida da doula e empreendedora graças a esta mudança. “O veganismo também é uma libertação dessa dependência com a indústria”, afirma Luana.

Um espaço que recebe essa produção local é a Vegaria, primeiro empório totalmente vegano do nordeste. O empreendimento fica localizado em Boa Viagem, no Recife, e é comandado pelo casal Rodrigo Pedrosa e Juliana Moura. “Começamos com uma loja de produtos naturais e, como 50% do público fiel era vegano, investimos totalmente nesse ramo. Mudamos de nome e de local e assim surgiu a Vegaria”, conta Pedrosa.

Rodrigo Pedrosa e Juliana Moura, a dupla por trás do primeiro empório vegano do Nordeste (Foto: André Nery/JC Imagem)

A loja funciona desde fevereiro de 2016 e, um ano depois, já teve crescimento de 60% nos lucros. Um dos grandes diferenciais é abrir as portas para parcerias com fornecedores de produtos locais, como Luana e seus desodorantes. “Nossa intenção não é sermos exclusivos, mas vender algo que siga nossa filosofia de vida”, diz Rodrigo.

Outra iniciativa são eventos temáticos com comidas veganas nos finais de semana, onde levam pizzas, feijoadas, hambúrgueres e salgados sem nenhum ingrediente de origem animal ao público. Nesses eventos, existem parcerias com produtoras locais de alimentos, como a Frutteto e a Juju Vegan, ambas comandadas por mulheres. A Frutteto inclusive foi responsável por levar comida vegana pela primeira vez para a Fenearte (maior feira de artesanato da América Latina) em 18 edições.

“Os eventos da Vegaria são divulgados virtualmente e nosso público frequenta em peso. Creio que rola essa identificação com a loja não só por falta de outras opções, mas porque acreditamos na causa vegana e levantamos essa bandeira”, diz o empreendedor.

Por enquanto, a Vegaria não pretende abrir franquias ou expandir, mas está com um projeto paralelo para ser lançado oficialmente em agosto, que é o Açougue Vegano Mock Club (o pré-lançamento aconteceu no 3º Festival Vegano mencionado no começo da matéria). O nome vem do termo “mock meat”, designado aos produtos análogos à carne, como insumos de tofu e soja. A proposta é que o açougue seja itinerante, participando de eventos físicos, e também virtual (e-commerce), servindo itens de origem vegetal como charque de casca de banana, linguiças e hambúrgueres de soja e muito mais. “É legal que as pessoas saibam que elas ainda podem experimentar todo tipo de sabor mesmo sendo veganas”, lembra Rodrigo.

Esta é a primeira parte da reportagem especial sobre veganismo do OF. Clique AQUI para ler a segunda.

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