Bem Estar

A Gordofobia em Nós – Do Comentário Aparentemente Inofensivo até as Telas do Cinema

18 de julho de 2017

por Observadora

A maioria de nós acredita que é impossível ser bonita e saudável sem ser magra.

Créditos: 20th Century Fox

Faz algum tempo que o tema Gordofobia vem habitando minha vontade de escrever. Na verdade, ele nunca esteve distante de mim já que, como uma pessoa gorda eu sempre tive que lidar com os comentários e olhares das pessoas que me julgavam em todas as esferas (de família e amigos, até estranhos na rua).

“Ah, Maiara, mas você não é gorda, imagina, é até bonita!”

Em primeiro lugar, ser bonita não tem nada a ver com ser gorda ou não. Essa é uma ideia que injetam na nossa cabeça desde muito cedo para aniquilar nossa auto-estima e para vender produtos nessa ditadura da beleza magra na qual vivemos.

O entretenimento e a mídia reforçam essa lógica diariamente, fazendo com que, cedo ou tarde, passemos a acreditar ser impossível ser bonita sem ser magra. No filme Nunca Fui Beijada, por exemplo, uma das ‘meninas más’ chega a sentir inveja de um esqueleto.

“Certo, é isso. Só água e laxante até a formatura.”

“Ah claro, pessoas gordas podem ser bonitas, mas é que você não é gorda”

Em muitos contextos sei que sou vista como uma pessoa gorda. Uma reflexão que tenho feito é que eu talvez esteja em um lugar de passagem. Não sou e nunca serei magra, mas não chego a ser gorda como outras pessoas que sofrem muito mais com a discriminação e a violência do que eu. Mesmo assim, ouvi ofensas e comentários gordofóbicos a vida inteira. Uma discussão muito bacana sobre isso está no vídeo “Nem gorda, nem magra” do Canal das Bee com a participação da Hel Mother (se não viram esse vídeo, assistam!).

O importante é que hoje eu entendo que sempre serei assim e TUDO BEM.

“Grande e no comando, como posso te ajudar?”

“Ah, mas não é Gordofobia, é só uma questão de saúde! Estamos preocupadas com você.”

Vamos lá: ser gordo não é igual a ser doente. Precisamos parar de fazer essa associação grosseira. Muita gente magra se alimenta mal, não se exercita, tem problemas sérios de saúde e ninguém fala nada. Poucos apontam o amiguinho por estar bebendo demais, fumando demais, comendo pouco ou por ser sedentário. Mas basta ver uma pessoa gorda comendo que começa o julgamento. Ah… os fiscais de prato! Cuidado, eles estão por todas as partes.

Além das pessoas comuns, a gordofobia também é reforçada pela medicina moderna. Todas as vezes que entrei num consultório médico na vida, de ortopedista à otorrino, ouvi que precisava perder peso. Mesmo antes de fazer qualquer exame que comprovasse alguma irregularidade com a minha saúde. Ouvi também de professores de Educação Física que eu precisava emagrecer para ter um melhor desempenho. Mesmo assim, sempre fui bem nos esportes, contrariando o que me diziam ser possível.

Então que tal sermos sinceros? A maioria das pessoas odeia os gordos, principalmente as mulheres gordas. E é claro que seria mesmo pior para mulheres, já que a cobrança sobre nós, especialmente em relação a aparência, é sempre maior. A busca da ‘perfeição’ estética faz parte de uma lógica que coloca os corpos das mulheres como objetos para apreciação masculina, o que, além de tudo, heteronormatiza as nossas relações.

Me vem à cabeça neste momento aquele filme descabido chamado ‘O Amor é Cego’, no qual Jack Black é consagrado como herói por escolher ficar com uma mulher, mesmo ela sendo gorda.

gordofobiaLembrando que ele só se interessa por ela inicialmente porque está enfeitiçado para ver apenas a beleza interior das pessoas, o que por si só já é um problema [pois a “beleza interior” é representada pela loira-magra-padrão].

Essa história representa muito bem alguns aspectos importantes da gordofobia. Primeiro: mesmo o personagem do Jack sendo gordo, ele só se relaciona com mulheres magras. Porque um homem ser gordo é aceitável se ele for legal e engraçado, por exemplo. Já a mulher não tem essa permissão em nenhuma circunstância.

Em segundo lugar, na trama a personagem Rosemary (a mulher gorda com quem Jack Black se envolve) é colocada em situações caricatas, quebrando até uma cadeira ao sentar, além de ser vista como totalmente descontrolada na hora de comer.

Infelizmente, isso não é exclusividade de O Amor é Cego. Os personagens gordos em filmes ou séries são, em geral, os fracos, bobos, compulsivos, sem vida sexual e representados de maneira caricata/degradante.

‘Você não sentou no meu kit kat, sentou?’

Em contraponto, a divinização da magreza seqüestra das pessoas qualquer chance de individualidade, nos dizendo que só existe um jeito de ser bonita e aceita: sendo  magra (além de branca e heterossexual, claro).

gordofobia

Para resumir: ninguém deixa de ser bonita, saudável ou desejável por ser gorda. Ninguém perde a capacidade de ser esportista, de ir para as baladas, de gostar de salada ou pegar várias pessoas. Está mais do que na hora de rompermos com essa lógica gordofóbica e todos podem ajudar nesse processo!

Então aí vão algumas dicas do bem para melhorar a própria gordofobia.

– Parar de julgar o que amiguinho come.

– Parar de falar coisas como ‘gordice’, como uma associação a coisas gordurosas ou calóricas. Alguém fala ‘vou fazer uma magrice’ quando vai comer salada? Gordos comem coisas calóricas e coisas não calóricas assim como os magros. Essa associação não é produtiva e pode ser muito ofensiva.

– Amigas magras: não falar – ‘nossa, to muito gorda’, pois não é verdade. Se colocar nesse lugar sendo que não sofrem essa opressão na pele é um tanto desrespeitoso. Vocês podem estar mexendo nas feridas das amigas gordas sem perceber.

‘Estou a uma gripe estomacal de distância da minha meta de peso’

Ninguém nasce pronto e estamos sempre sujeitos a ofender os outros, mesmo tomando cuidado. O importante é repensar as atitudes que se tornaram tão naturais para que possamos chegar numa sociedade menos violenta. Chega de gordofobia!

Texto originalmente publicado por Maiara Beckrich no site Nó De Oito

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