Somam-se a esse cenário desemprego galopante, colapso na saúde, na educação, falta de moradia digna e, como consequência derradeira disso tudo, um aumento substancial da violência.

Abrir os jornais pela manhã ou assistir ao noticiário da TV antes de deitar é reviver um 7 x 1 da Alemanha diário.

Por tudo isso, educar um filho nesse cenário pouco ou nada otimista, já seria um desafio por si só.

Agora imagine educar esse mesmo filho com a ajuda intromissão de pessoas que nada têm a ver com isso.

Pois é, acontece. E como acontece.

Veja só a mensagem que recebi ontem por WhatsApp sobre o filme Procurando Dory, da Disney, que estreia no Brasil em 30 de junho. O que deveria ser um oceano de fofura – um peixe azul que fala e que ainda por cima tem problemas de perda de memória recente – transformou-se em mais uma saraivada de inferências sobre “moralidade”, gênero e “bons costumes”:

A birra se refere a um suposto casal de lésbicas que aparece por alguns segundos no segundo trailer do filme. Os cabelos curtos (???) de uma das personagens, que, aliás, só terá essa participação mesmo na trama, angariou a fúria dos abobados de plantão.

Confesso que, no início, me espantei com a mensagem. Depois, ponderando um pouco mais, celebrei. Primeiro, por não ter sido assinada por um conhecido meu (amigos pessoais jamais pensariam nem repassariam uma tolice dessas).

Depois, celebrei por não ter em meu convívio nem no da minha família pessoas com mentalidade tão tacanha.

E, por fim, celebrei por não precisar ficar trancado duas horas em uma sala de cinema com essa fauna deseducada.

A tal corrente me fez refletir também. Me questionei, primeiro, sobre qual a legitimidade desse pai ou mãe que covardemente se esconde atrás de uma mensagem de WhatsApp para sugerir aos meus filhos não irem ao cinema.

E sobre que pessoa insensível é essa que pega carona num boato sem o menor fundamento ­– boato esse, aliás, negado amplamente pela Disney e pelo elenco – na mesma semana em que outras 50 famílias, destroçadas pelas fúria de um atirador, choram por seus filhos crivados de balas em Orlando, Estados Unidos, simplesmente por serem gays – ou por estar na hora errada no local em que julgavam certo.

Como pai de uma linda menina de 2,5 anos e de um lindo menino de 3 meses, me pergunto em quais cores esse “papai” ou “mamãe”, que nem a gramática respeita, está pintando o Brasil e o mundo para seus filhos.

E se quem repassa uma mensagem vazia dessas parou para se perguntar qual tipo de ser humano está formando. Será aquele que doará cobertores no frio, ignorará ou ateará fogo em moradores de rua? Será aquele que apontará e rirá do portador de deficiência ou ajudará a integrá-lo? Será aquele que atacará, verbal e fisicamente, as minorias, ou as defenderá das injustiças?

Quem educa uma criança educa um país inteiro. Mas quem cria ou repassa uma corrente dessas se esquece que crianças crescem. Terão necessidades, desejos, vontades. Num mundo com fronteiras cada vez mais aproximadas pela tecnologia, poderão querer estudar, trabalhar ou até se divertir em uma boate gay de Orlando – mesmo não sendo gays.

Se você, papai e mamãe, acha que irá controlar isso, meus sentimentos.

Terrorismo para crianças

Nasci em 1973. Naquele tempo, a convenção era simples: havia assuntos de criança e assuntos de adulto. Fazer uma separação cirúrgica dessas, hoje, é quase que impossível. A TV está presente em 100% dos lares, vomitando assuntos e imagens catastróficas geradas de todas as partes do planeta.

A Internet marcha para o mesmo caminho e temas como Estado Islâmico, sexualidade, crise financeira, Dilma, Eduardo Cunha e bullying, entre outros, estão literalmente na palma da mão.

E quando esses temas surgirem na mesa de jantar, certamente, não será apontando seu dedo preconceituoso para homossexuais, portadores de deficiência, gordos, estrangeiros, brancos, negros, coxinhas ou petralhas que a conversa terá fim – muito menos o fim que você espera.

No Guia Dory Para Fazer Novos Amigos da Disney, o peixinho azul, em nove simples lições, diz como toda criança pode conquistar 1 milhão de amigos. Uma delas me chamou a atenção:

“Quando se trata de fazer novas amizades, aceite todas as espécies de braços abertos.”

Lendo esse fofíssimo Guia aos meus filhos, ontem, cheguei à conclusão de que feliz mesmo é a Dory que, mesmo navegando nesse mar de intolerância, logo logo se esquecerá de tudo isso.

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Marc Tawil é sócio-diretor na Tawil Comunicação.

Imagens: reprodução

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