Cultura

No Dia Do Rock, uma ode às mulheres

13 de julho de 2017

por Observadora

O lugar da mulher na música foi por muito tempo o da beleza. Um belo rosto para vender belas canções. Eram bibelôs do palco para entreter e a parte técnica, o tocar de instrumentos e a produção backstage ficavam a cargo dos homens, afinal, eles “que entendem” de negócios, da técnica, da parte racional. Sempre havia um agente, pai ou marido para ditar como a cantora devia se vestir, agir, cantar e principalmente para controlar seu dinheiro.

Quando a mulher estava no universo musical como namorada de cantores e artistas, a situação piorava. Ou era logo taxada de “groupie” ou “destruidora de bandas”, como aconteceu com Yoko Ono e Courtney Love.

Essa realidade claramente seria contestada por várias mulheres ao longo do tempo, como Nina Simone, Joan Jett, Debbie Harry, Rita Lee e as próprias Yoko e Courtney. Não faltam exemplos de musicistas que foram além do que lhes era designado, pegando em instrumentos, fazendo produção, tomando as rédeas do palco e da vida.

Com o avanço da internet, a possibilidade de fazer música sem a necessidade de gravadoras ou agentes fez aparecer uma cena musical forte e independente – principalmente no Brasil. Claro que a primavera das mulheres estaria presente nessa nova era. Nesse Dia do Rock, conheça algumas mulheres brasileiras que estão revolucionando a forma de fazer música dentro e fora dos palcos:

PROJETOS


– O selo PWR

Foto: instagram.com/pwrrecords

Produção de shows, turnês, newsletter, zine, oficinas e uma lojinha com bonés, camisas, ecobags: não tem quase nada que as meninas do PWR, selo musical criado em Recife, não façam. Hannah e Letícia estão dando suporte à bandas que tenham no mínimo 1 integrante mulher na formação, ajudando no lançamento, venda e na visibilidade das turnês. No hall de artistas da PWR, se encontram 12 bandas em menos de um ano de selo (Papisa, In Venus, Miêta, Katze, Cora, My Magical Glowing Lens, Walkstones, Six Kicks, Musa Hibrida, Ema Stoned, Lari Pádua e Winter). Você pode ouvi-las no bandcamp do selo (https://pwrrecords.bandcamp.com/).

Do site da PWR:

“PWR Records é um selo sobre representatividade. Diante de um cenário musical no qual muito se fala sobre a inclusão feminina e onde, por muitas vezes, o discurso não corresponde a ação, Hannah Carvalho (19) e Letícia Tomas (20), meninas que têm movimentado intensamente a cena nordestina, decidiram criar, no Recife, um selo no qual as mulheres podem reforçar seu poder de protagonismo na música em todo país.

O ponto de partida foi mapear as bandas independentes do Brasil com ao menos uma mulher na formação, sem recorte de gênero musical. Letícia e Hannah, junto a Nanda Loureiro, do selo cearense Banana Records, construíram uma lista colaborativa online. Entre os meses de julho e setembro de 2016, foram registrados 310 grupos com ao menos uma integrante. Dentre esses, 44 são exclusivamente de meninas ou projetos solo. 9 são de Recife e a cidade mais citada é São Paulo, com 83. Um número ainda pequeno diante do tamanho de uma cena cada vez mais extensa e plural.

Com os dados nas mãos, decidiram que era hora de estimular as mulheres a ocupar esse espaço historicamente masculino. Para isso, criaram o selo PWR Records, que pretende dar suporte nos lançamentos, além de ajudar na venda e criação de merchs. Para um trabalho sair através do label, é necessário que a banda tenha ao menos uma mulher na formação. Desta forma, a ideia é mostrar que o papel feminino na arte é sim de inovar e transgredir. E, com isso, pretendem ampliar a visibilidade nos festivais e eventos musicais. O futuro é feminino.”

– O projeto multimídia WE ARE (NOT WITH) THE BAND

Foto: instagram.com/wearenotwiththeband

Nós somos a banda. Nós não estamos com a banda. Esta é ideia principal do projeto multimídia WE ARE (NOT WITH) THE BAND, que visa desmistificar a ideia que mulheres são apenas namoradas, acompanhantes, fãs/groupies dos elementos de uma banda. No site do WA(NW)TB, a missão é alargar, arquivar, divulgar e empoderar as mulheres na música. Lá é possível ler entrevistas de profundidade com artistas nacionais. No Instagram e Facebook do projeto, são exibidos vídeos, coberturas fotográficas de shows e eventos. As colaboradoras são Clara do Prado, Daniele Rodrigues e Filipa Aurélio.

Do site:

“Sentiu-se a necessidade de criar um espaço onde essas mulheres, de vários cantos do país, diferentes gêneros musicais e vivências, pudessem falar sobre suas dificuldades/lutas e vitórias no meio musical.

Através de retratos, entrevistas e vídeos, queremos apoiar cada vez mais quem muitas vezes se esconde na sombra de um mundo, ainda, majoritariamente masculino.”

– A página Quase Todo Dia Uma Banda De Mina Diferente

Créditos: Tuesday Bassen

Com objetivo parecido do We Are Not With The Band, a Quase Todo Dia Uma Banda De Mina Diferente utiliza a rede social mais famosa do mundo para postar, quase diariamente, músicas, vídeos, fotos, lançamentos e eventos de bandas e projetos independentes que tenham pelo menos uma mulher em sua composição. Com mais de 3mil curtidas, a intenção é mapear, fortalecer e divulgar a cena musical feminina.

– A iniciativa Girls Rock Camp

O Girls Rock Camp surgiu em Portland, nos Estados Unidos, em 2001. Até hoje, são realizadas dezenas de edições nos Estados Unidos, Europa e América Latina, desenvolvendo modelos de conduta positivos, espírito de colaboração e liderança. A iniciativa consiste num acampamento de férias diurno, onde durante uma semana meninas com idades de 7 a 17 anos são convidadas a ter uma experiência empoderadora, divertida e completa no mundo da música. Em meio a atividades de fortalecimento de autoestima, desinibição, trabalho em grupo, elas aprendem a tocar um instrumento, formam uma banda, fazem uma composição inédita e uma apresentação ao vivo, aberta para os pais, familiares, amigos e  toda a comunidade. Chegou ao Brasil pela primeira vez em Sorocaba, no ano de 2013, e este ano aconteceu em janeiro, em Porto Alegre, contando com uma rede de voluntárias envolvidas com música e empoderamento.

BANDAS


Sugestão de três bandas para ouvir no dia de hoje (e sempre):

– Rakta

Juntas, as paulistanas Carla Boregas (baixo), Paula Rebellato (voz e teclas) e Nathalia Viccari (bateria) têm uma sonoridade ímpar, que engloba uma batida psicodélica com traços de punk e letras ligadas ao universo feminista. Tudo a ver com o nome da banda, que é uma derivação da palavra sânscrita RAJAS – o componente energia, que produz movimento, força e expansão. Já fizeram turnê nacional e pelos EUA, Canadá e Japão. Seu segundo e mais novo disco, “III”, marca uma nova fase da banda, que agora estreia em estúdio como um trio sem guitarra. O lançamento está disponível no Spotify e Bandcamp.

– Bertha Lutz

Atualmente formada por Gabi (guitarra), Rafa (baixo), Carol (bateria) e Báh Lutz (vocais), Bertha Lutz é uma banda feminista de hardcore formada em 2006, envolvida desde então na construção de espaços feministas e autogestionados em Belo Horizonte. Além de levantar a bandeira antimachismo, o grupo também é um dos poucos com uma front woman negra no cenário do rock independente nacional, resistindo também contra o racismo. Inspirada pelo movimento riot grrrl, o som da BerthaLutz une hardcore e militância feminista em seus shows, e atualmente conta com um financiamento coletivo para gravar o novo EP da banda. O trabalho delas pode ser ouvido no canal delas no YouTube.

– Oldscratch

“Não, não me diga mais o que fazer
Desde pequena fui manipulada por você,
sociedade que só me dava boneca pra brincar,
pra aprender a ser uma boa mãe e dona do lar”

Assim começa a letra de “Dona do Lar”, a primeira faixa do álbum “Padrões de Conserva”, álbum mais recente da banda alagoana Oldscratch. É formada por Melinna Guedes (guitarra e voz principal), Julie Moura (baixo e voz) e Gabriela Santos (bateria e voz), que buscam sempre fazer shows e eventos em espaços públicos e abertos ao público. Numa banda onde literalmente todas as integrantes têm voz, as meninas exploram uma batida que mistura grunge e punk com uma pegada riot grrrl. Você pode ouvir o disco no bandcamp da banda.

Para conhecer mais bandas de mulheres (não apenas de rock), confira a lista Girl Bands BR, e fique por dentro dos mais de 300 projetos mapeados.

Lara Ximenes é estudante de jornalismo da UFPE, heavy user de redes sociais e apaixonada por cultura e inovação digital.

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