Cultura

Longa ‘O Abutre’ debate até que ponto vale a notícia

8 de outubro de 2017

por Observadora

Até que ponto vale a notícia? Onde termina a informação e começa o sensacionalismo? O preço de um furo de reportagem compra a ética de um jornalista?

Essas e outras questões que perpassam pela ambição corporativa, o narcisismo extremo e a indiferença à tragédia alheia dão o tom visceral ao longa-metragem O Abutre (2014). A sua denominação original – NightCrawler – já sinaliza o pano de fundo desse enredo que é um dos mais ardilosos e envolventes que já vi.

Longe do superficial, o roteirista Dan Gilroy marca a sua estreia na direção cinematográfica em parceria com o ator Jake Gyllenhaal. Como protagonista, na pele do cretino ladrão Lou Bloom, Jake consegue ser brilhante em sua atuação. Mas antes de falar na autenticidade do personagem, vamos à narrativa que deixa o espectador sem qualquer chance para break até os créditos do trhiller.

Bloom é bem mais que um ótimo leitor de cenários, é um aprendedor extremo. Ele busca informações na internet sobre todo o tipo de assunto e é capaz de absorver conhecimento por onde passa. Especialmente, porque o seu foco é subir na vida.

Insatisfeito com os pequenos resultados dos seus golpes criminosos executados em Los Angeles e claramente decidido a encontrar uma carreira que banque os seus desejos, Bloom fareja boas possibilidades para a sua ascensão ao cruzar com um acidente no meio da estrada. Lá, cinegrafistas sedentos pela captura de imagens exclusivas apresentam a ele o que seria o seu mais novo desafio profissional: a cobertura de crimes, acidentes e fatalidades.

Fascinado por todo aquele movimento, o então cinegrafista amador decide investir no negócio. Bloom compra equipamentos de ponta, adquire técnica e descobre outras habilidades que vão provocar a sua consolidação no segmento. E é nessa caminhada rumo ao sucesso desejado que o filme nos mostra, guardadas as devidas proporções, elementos comuns e sempre atuais no ambiente corporativo: o narcisismo desmedido, a “troca de favores’, a manipulação de fatos, a intolerância à concorrência e o desrespeito ao outro.

O enredo ainda revela níveis sombrios de negociação – sentimento ainda mais evidenciado pela Fotografia do filme, que nos apresenta sempre sequências noturnas e ambientes escuros – em todas as relações de Bloom, desde os acordos salariais firmados com o seu assistente Rick (Riz Ahmed) às contrapartidas exigidas à Nina (Rene Russo), a editora do noticiário que compra as suas imagens.

Por fim, mas não menos importante para a entrega de um produto cinematográfico tão contundente, destaco a caracterização do personagem como ponto marcante. Os trejeitos, o olhar e o andar de Bloom impressionam. A performance do ator é do tipo inesquecível e preciso dizer que bem antes da metade do filme, caiu a ficha: o ex-ladrão de meia tigela é um dos sociopatas mais carismáticos que a telona já viu.

Com um desfecho que pode até dar raiva, o longa chega aos créditos mostrando a que veio. Com perícia e sem exagero, O Abutre é a vida real que se esconde nos bastidores da jornada profissional, das gigantes multinacionais aos pequenos negócios. É o que está aí, mas muita gente não vê.

 

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