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Notas sobre nostalgia

12 de julho de 2017

por Observadora

Eu sempre quis entender por que o ser humano é nostálgico. Ainda não sei. Não sei o que faz a gente procurar foto antiga de momentos que naquela época não pareciam tão incríveis como parecem hoje. O que faz a gente ouvir aquela música que hoje nem achamos tão boa, mas que mexe com a gente igual, mexe lá naquela memória que você faz questão de guardar por razão nenhuma.

Tipo o dia em que você chegou atrasada para a primeira aula do dia na escola e ficou aguardando a que viria em seguida, enquanto ouvia o The Family Jewels, primeiro álbum da Marina and The Diamonds, num iPod com os fones no volume máximo, de farda amassada e casaco desproporcional ao seu tamanho, cabelo propositalmente despenteado, deitada no banco frio de concreto que ficava em frente à sala de aula. Era horrível existir naquele momento. Eram 7:30 da manhã e ninguém é feliz às 7:30 da manhã. Era ano de vestibular e raramente se é feliz nessa época também, com todas as pressões, a ansiedade para sair da escola e conhecer o Centro de Artes e Comunicação da UFPE, os problemas de relacionamento interpessoal, o não entendimento de quem você é (não que hoje eu saiba, mas naquela época isso perturbava muito mais), as espinhas e os fantasmas da depressão.

Algumas memórias são muito cinzas, mas a nostalgia faz com que vejamos certa beleza nelas – uma beleza frívola, melancólica, mas ainda bela. Eu só não sei explicar porque eu me pego pensando nisso, se racionalmente está claro, claríssimo, que foi uma época difícil. A nostalgia tem poderes que eu desconheço. Mas toda vez que eu ouvir o disco The Family Jewels até o final, ou o one-hit wonder Gotye e sua “Somebody That I Used To Know” em algum shopping center, eu vou lembrar de 2012 com carinho e com uma beleza que talvez eu não fosse capaz de enxergar com 16 ou 17 anos.

Acho que crescer é ganhar também umas lentes especiais para justamente enxergar isso, as pequenas coisas que te levaram a ser quem você é. E por mais duras que sejam, essas memórias fazem parte de um processo de aprendizado que só você conhece. Creio que a beleza está aí. Em se reconhecer. Em se apropriar do processo de ser, de querer ser mais. E para ser mais, é preciso olhar para trás mesmo. É aí que a nostalgia me ganha: olhar para o passado com carinho é olhar para a menina frágil, medrosa e cheia de sonhos que eu deixei no passado. Olhar para ela com esse carinho é entender que eu a carrego dentro de mim, e que eu preciso ser gentil com ela porque ela faz parte de quem eu me tornei também. Afinal, se eu não tivesse passado pelo que ela passou, eu não ia ter a força, a coragem (médio, ainda tenho muitos medos) e os pés no chão que tenho hoje.

No fim das contas, creio que essa é a minha fascinação com a nostalgia: ela me ajuda a crescer.

Lara Ximenes é estudante de jornalismo da UFPE, heavy user de redes sociais e apaixonada por cultura e inovação digital.

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