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Paula Berlowitz: ela ainda tem muito a falar

29 de março de 2013

por Ana Karla Gomes

Este post é a continuação da entrevista que publicamos ontem com a blogueira gaúcha Paula Berlowitz. Na pauta: as motivações da incentivadora do movimento Marcha das Vadias, os desafios da mulher moderna e a legalização da prostituição. Confira!

OF – “Nem Santa, Nem Puta: Mulher!” é a frase que move o cérebro do Marcha das Vadias, mas quais os grandes desafios de desenhar novas páginas na história da mulher, dentro dessa sociedade machista?

PB –  Eu, para o meu modus vivendi, sempre parto do princípio de que devemos medir nossas atitudes baseados naquilo que nós sentimos: o que nos deixa felizes, desde que isso não seja em detrimento de outrem, e não venha com a preocupação do que “os outros vão pensar”. Afinal, se sempre fizermos o que “os outros” acham que é certo, acabaremos, invariavelmente, não sendo nós mesmos. E o resultado disso, com certeza, é a infelicidade. A auto-anulação. Então, em primeiro lugar, que doa se for preciso, a mulher deve fazer uma auto-análise do que a faz feliz, do que a faz sentir-se satisfeita com ela mesma. E agir o mais de acordo possível com isso. Claro que ela sempre correrá o risco de ser “mal vista” e “mal falada”, mas isso é realmente importante? Pra quem? Pra mim não é. O que importa mais pra mim? A minha  felicidade ou o preconceito/machismo dos outros? Nem preciso dizer, né?! Ela gosta de sexo? Eu gosto! Isso é feio de se assumir? Não deveria ser. Deveria ser natural. Mas para a mulher não é. A não ser para aquelas que pensam de forma similar a minha: eu acredito em amor, em liberdade, em humildade, em respeito e não em ódio, vergonha e orgulho. O que é natural não é vergonhoso. É belo. E assim deveria ser visto. E quem se ofende com a sexualidade alheia, com certeza está muito preocupado com vergonha e orgulho. E está mais preocupado em censurar os outros do que em experienciar a própria felicidade. E isto é até triste… Estão presos no túmulo que é a própria mente maliciosa e perversa. Outra coisa: uma mulher gostar de sexo não quer dizer que ela quer “sair dando pra todo mundo”. Quer dizer que ela é uma pessoa saudável e normal. Afinal, sexo é bom! Não gostar de sexo me parece tão estranho quanto alguém não gostar de comer ou de respirar (risos), pois são coisas naturais. Mas, em geral, a mulher que se assume sexualmente ativa é vista com maus olhos por muita gente! É taxada de “puta” a torto e a direito! E isso ainda é resquício da cultura de que “mulher direita”, “mulher pra casar” não é assim. O que é bem estranho. Não é absurdo que os homens tivessem suas esposas, com as quais apenas “procriavam”, e o sexo “por esporte”, por prazer, fizessem com as prostitutas?! Perdiam eles, por não estabelecerem um nível maior de intimidade com suas próprias esposas, e elas perdiam ainda mais, que para serem vistas como “boas moças” abdicavam do seu próprio prazer físico “em nome da moral e dos bons costumes”! Que tempos aqueles, hein?! E nem faz tanto tempo assim! Tanto que estamos aqui falando sobre isso! Mas que tanto essa gente quer dar pitaco em nosso corpo! E quanto assunto que dá uma vagina! Céus! Então é isso: Nem santas – como nossas pobres bisavós tinham de fingir que eram, pela honra de seus maridos, no fim das contas – Nem putas – como muitas optam por ser, em servidão ao homem, mais uma vez. Apenas mulheres, saudáveis e felizes, que não tem vergonha do próprio corpo e usufruem do prazer que ele pode lhes proporcionar, com toda liberdade que temos direito! Inclusive a liberdade de NÃO querer sexo, mesmo estando de minissaia – que, por sinal, não entendo o que uma coisa tem a ver com a outra…(risos)

OF – A legalização da prostituição também é uma questão polêmica, mas a profissionalização dessa atividade envolve a “ruptura” de uma série de estigmas moralistas, reforçados pelos conceitos patriarcais a qual estamos submetidos. O que a Marcha das Vadias propõe nesse embate?

PB – Neste ponto, e uma vez que a Marcha das Vadias é um movimento horizontal, no qual não existem líderes ou representantes propriamente ditas, darei minha opinião pessoal, e não a opinião “da Marcha” sobre o assunto. Também sei que esta é a opinião de outras participantes da Marcha, embora provavelmente não de todas, visto que a Marcha das Vadias é muito plural. Então, sobre a Prostituição, assim como no assunto “drogas”, assim como no assunto “aborto”, defendo não a legalização, mas sim, a sua descriminalização. Parece a mesma coisa, mas não é. “Legalizar” é tornar aquilo parte da Lei, ao par que “descriminalizar” é não submeter seus praticantes à sanções da Lei. Acredito que legalizar a prostituição daria margens ainda maiores à exploração sexual e à consequente submissão e violação do corpo de quem se prostitui, nas mãos de quem lucra em cima disso. Eu não sou a favor da prostituição em si, pois uma vez que defendo a desobjetificação do corpo, apoiar “alugá-lo”, seria contraditório. Aqui, mais uma vez, e embora hoje em dia também exista a prostituição masculina e mulheres também paguem por sexo, temos a imposição da vontade do homem sobre o corpo da mulher. Só se vende algo porque existe um comprador. E em geral, a prostituição é uma “saída”, e não uma opção. Já conheci diversas (os profissionais do sexo e tenho, inclusive, quatro amigas que já foram. Uma delas, “ocasionalmente” ainda é) prostitutas e conversei abertamente com muitas delas sobre o assunto. Com minhas amigas, obviamente, ainda mais. E as respostas mais comuns sobre o porquê de ter optado pela prostituição é: “Porque precisava de dinheiro”, “Porque ganho em uma semana o que ganhava em um mês no meu emprego formal”, “Porque eu queria ter coisas que meus pais/meu salário não podiam dar”, etc. Ainda não conheci uma pessoa que me dissesse: “Eu sempre sonhei em ser prostituta. Desde pequena, sempre quis! Era o sonho da minha vida!”. E aí eu penso no outro lado: quem paga por sexo? E ninguém me convence que é um sujeito normal, gente fina, são e feliz. Eu considero o sexo como a máxima expressão de carinho que uma pessoa pode dar a outra. Em minha opinião, sexo nunca deveria ser vendido. O melhor ainda é o feito com amor. Mas ainda que não haja amor, deveria ser feito por vontade, desejo, tesão de ambas – ou mais – partes envolvidas. Do contrário, uma das partes estará sendo mera mercadoria. E isso é objetificar o ser humano. Quem compra sexo, vê o sexo ou como algo sujo/vergonhoso, e na dificuldade de se relacionar saudavelmente com alguém – ou “alguéns”, seja como for – opta por pagar por ele; ou como mera mercadoria, mero ato mecânico e necessidade fisiológica, assim como ir ao banheiro: está no meio do Centro, dá vontade de ir ao banheiro, paga e usa o banheiro público. Não consigo achar natural o corpo de uma pessoa ser usado como uma privada de banheiro público para outra! Mas ok, se a pessoa opta por vender seus préstimos sexuais aos outros, o corpo é seu, e acredito que todo ser humano deva ter direito sobre seu corpo. Então, sou a favor da descriminalização da prostituição, embora seja ainda mais a favor de que todas as pessoas tivessem a oportunidade de receber uma educação familiar e escolar adequadas, de forma que elas pudessem se tornar aquilo que sonham, aquilo que têm vontade, e não o que a necessidade de ganhar dinheiro lhes impõe.

OF – São várias as mulheres que gostariam de lutar de alguma forma, por alguma coisa que seja do seu direito, mas não sabem nem por onde começar. Penso que o Brasil promove um debate rico, com pilares divergentes. A Marcha das Vadias, por sua vez, propõe uma luta justa, uma reação à altura dos absurdos que somos obrigadas a ver todos os dias. O que te instiga a fazer parte de um grupo que traz motivações tão fortes e é capaz de influenciar tantas mulheres?

PB – Sou participante e incentivadora da Marcha das vadias em Porto Alegre. Há, em diversas cidades do Brasil, grupos de mulheres que se reúnem para tratar de assuntos pertinentes à Marcha das Vadias, bem como planejar a sua organização. Então, eu sou uma das participantes da Marcha das Vadias, em Porto Alegre, e ativista e incentivadora da Marcha em todo o Brasil. Sou uma blogueira feminista. Escrevo o site pró-empoderamento feminino CromossomoX.com.br, que é o meu site oficial. E foi através dele que recebi o convite para divulgar e participar da Marcha das Vadias de 2012, da minha cidade. Como trabalho com internet e vi que os sites referentes à Marcha das Vadias eram bastante descentralizados e não tinham um registro de domínio próprio que trouxesse uma unidade maior à causa, idealizei o Marcha dasVadias.org, no qual reúno informações sobre as marcha das Vadias de todo o país em um só lugar. O site não tem fins comerciais e é aberto a qualquer participante ou simpatizante da causa, seja homem ou mulher, que deseje contribuir com ele, enviando vídeos, fotos, denúncias, textos, convites para eventos sobre alguma causa feminina, etc. para o email liberdade@marchadasvadias.org. Todos os emails são respondidos e todo material pertinente à causa é publicado no site. Bem, dada a minha breve explicação, vamos à pergunta: o que me instiga a ser uma ativista do feminismo é que sempre fui “alérgica” ao sexismo, mesmo antes de saber que esta palavra existia e o que ela significava. Quando criança, chegava a ser implicância minha. Começou nas aulas de Educação Física, na 1ª série, eu tinha 6 anos, quando o professor dividia a turma: meninas jogariam vôlei, meninos jogariam futebol. E lá ia a Paulinha: “Por quê? E se eu quiser jogar futebol? Eu não gosto de vôlei.”. Por sinal eu era muito descoordenada para o vôlei, mas era boa no chute e melhor ainda como goleira, no futebol. Aí chamavam minha mãe, que advogava sempre em minha defesa! E no início, eu era a única menina jogando futebol com os guris, na Educação Física, no Instituto de Educação. Tanto insisti, que lá pela 4ª série chegamos a ter um torneio de futebol com times mistos e os meninos também passaram a jogar vôlei. E assim foi a minha vida inteira, até hoje, nos mais variados assuntos nos quais o “é coisa de homem” ou “é coisa de mulher” são meras convenções sociais. Ok, fazer xixi de pé é coisa de homem, menstruar é coisa de mulher. A biologia assim impõe. Mas de resto, pouca coisa existe que seja “de homem” ou “de mulher” que não tenha sido inventado pela sociedade ou pelas religiões. E isso nos oprime e nos limita. Especificamente sobre a Marcha das Vadias, o que me levou a abraçar a causa foi o fato de eu ter sido vítima de violência doméstica e estupro marital. Casei, aos 22 anos com um maluco pelo qual fui chamada de vadia, vagabunda, imunda, sendo que fui fiel e monogâmica durante todo o casamento, além de ter sido espancada e forçada a transar com ele quando já não o queria mais, mas não conseguia tirá-lo de minha casa, no início por apego emocional, depois por pena, e mais adiante, por medo. Um inferno que me levou à depressão e à uma grave desestrutura de vida, da qual ainda estou me recompondo, pois as sequelas que algo assim deixa são inúmeras. Sou um exemplo vivo do quanto mal esse machismo que existe incrustado em nossa sociedade pode fazer à uma mulher e do quanto esse machismo não escolhe suas vítimas nem por cor, nem por classe social, nem por nível cultural, nem por nada: pode acontecer com qualquer uma de nós! Basta ser mulher. Eu, como mãe, não quero que minhas filhas sejam vítimas dele, nem quero que meus filhos sejam seus perpretores. Sendo assim, decidi me dedicar à causa feminista, e em especial a Marcha das Vadias, para ter a oportunidade de dividir minhas experiências e conclusões sobre elas com o maior número de pessoas que seja possível, em especial com as mulheres, para dar a minha contribuição na reeducação e no restabelecimento desta nossa sociedade que está carente de educação e doente. Eu sou apenas uma. Mas se eu conscientizar 100, e cada uma destas 100 conscientizarem outras 100, já seremos 1 milhão! E é isso é que me instiga: a REAL possibilidade de contribuir com essa mudança e assistir minhas filhas e meus filhos se tornarem adultos em um mundo livre do machismo.

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