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Por que estas mulheres protestaram pela retirada da estátua do “pai da ginecologia moderna” no Central Park?

21 de agosto de 2017

por Observatório Feminino

Foto: DailyNews

Neste fim de semana, mulheres negras e ativistas de Nova York foram às ruas protestar pela retirada da estátua do médico J. Marion Sims. Localizada no Central Park, o monumento homenageia o homem que foi considerado “pai da ginecologia moderna” e atuou nos EUA na metade do século XIX. O problema é que Sims realizava seus experimentos científicos com mulheres negras escravizadas, usadas como “cobaias” de suas experiências médicas – sem consentimento e sem anestesia.

De acordo com o Núcleo de Direitos Humanos da Unisinos, a cirurgia de reparação de fístula urogenital criada por Sims foi “testada” em escravas que sofriam da doença:

“Os procedimentos eram brutais e doloridos. O médico operou mulheres negras por mais de quatro anos sem a utilização de anestesia, em um ambiente com condições anti-sépticas inadequadas. Uma destas mulheres foi operada pelo menos trinta vezes, todas sem a utilização de qualquer método que inibisse a dor, muito embora este tipo de medicação já existisse na época.” 

Seshat Mack, uma das manifestantes presentes no ato do domingo, relatou ao Daily News que “na melhor das hipóteses, J. Marion Sims era um homem racista que explorou a instituição do racismo para seu próprio ganho”. Rossana Mercedes, outra ativista da manifestação, defende que a ideia de materializar imperialistas donos de escravos, assassinos e torturadores é uma forma de supremacia branca, e não uma “homenagem”.

As verdadeiras mães da ginecologia moderna

Ilustração do Dr. J. Marion Sims com Anarcha, por Robert Thom. (Pearson Museum, Southern Illinois University School of Medicine)

Vanessa Gamble, historiadora da Universidade George Washington (USA), acredita o médico contribuiu para que a cirurgia de reparação da fístula urogenital ajudasse mulheres hoje em dia, mas a forma com que ele praticou essa técnica não pode ser ignorada ou esquecida. “É parte do problema ele ser lembrado pela sua contribuição, mas não ser falado como ela aconteceu”, disse Gamble no podcast Hidden Brain.

Hoje, ela tenta resgatar a história de Anarcha, Lucy e Betsey, três das mulheres negras escravizadas e operadas por Sims (as únicas que ele registrou os nomes em seus escritos). “Essas mulheres eram vistas como propriedade. Elas não podiam consentir”, conta Gamble.

Na entrevista, a pesquisadora conta que Anarcha tinha 17 anos e havia passado por um parto muito traumático. Algumas fontes dizem que ela passou três dias em trabalho de parto. Mesmo assim, chegou a ser operada 30 vezes por Sims. Segundo Vanessa, Sims relatou em seus escritos como Lucy quase morreu e chorava de dor por conta das cirurgias, que eram feitas sem anestesia. “A dor delas era ignorada, por se acreditar que elas eram mais resistentes”, diz Vanessa. Ela também lembra que as mulheres brancas que eram tratadas por Sims recebiam anestesia.

A historiadora relata como essa prática do passado acarretou em consequências no presente: até hoje, pessoas negras (em especial mulheres) recebem menos anestesia em comparação às pessoas brancas, pois ainda há quem acredite que elas possuem mais resistência à dor. No Brasil, não é diferente: Lúcia Xavier, da ONG Crioula, relatou ao Núcleo de Direitos Humanos da Unisinos que as mulheres negras daqui também não estão sendo acolhidas corretamente pela medicina, e que muitas relatam como os médicos sequer lhes tocam – o que atrapalha na prevenção de doenças como câncer:

“Elas acabam recebendo menos anestesia, porque se acredita que as mulheres negras seguram mais a dor. Então, a seleção de quem vai receber uma medicação, independente de ser uma prescrição, tem a ver também com o olhar que se tem sobre a mulher negra. […] Os exames que são necessários acabam não acontecendo, porque há nojo e desprezo pela pessoa”, conta Lúcia.

Sobre os monumentos que homenageiam o médico ao redor dos EUA, Gamble enfatiza: “Quando vejo essas estátuas e memoriais do Sims, o que eu realmente enxergo é o que não foi contado”, relembrando que além da estátua do Central Park, Sims também é homenageado no Alabama e na Carolina do Sul – enquanto nada é falado sobre Anarcha, Lucy e Betsey. “As vozes dessas mulheres estão em falta na história”, ressalta a historiadora.

Texto escrito por Lara Ximenes com informações traduzidas livremente do podcast Hidden Brain, da Daily News e da matéria (In)Visibilidade Negra, escrita por Ana Patrícia Wisniewski, do Núcleo de Direitos Humanos da Unisinos (Universidade do Vale do Rio Sinos).

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