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Tem Cunhas que vêm para o bem

7 de julho de 2016

por Talita Corrêa

O nosso direito de apego sentimental ao vilões das novelas e filmes é irrevogável. As histórias estão mesmo lotadas de malfeitores muito mais envolventes e interessantes que os mocinhos. Porcinas e Coringas estão aí para provar. O problema é que, na vida real, torcer pelo personagem sem escrúpulos, por mais sagaz que ele pareça, não é opção.

Hoje, quando Eduardo Cunha chorou ao renunciar à presidência da Câmara dos Deputados, nosso lado cidadão comemorou, já ansioso pelos capítulos que incluem celas, delações premiadas e confissão. Nosso lado espectador, aquele que assiste ao longo filme da política brasileira com pipoca na mão, quis lamentar, tal qual lamenta o fã de série ao ver seu antagonista favorito ser afastado da trama.

Não entendam mal. Cunha não é carismático. Não é exemplo. Não é inspiração. Mas precisamos reconhecer que aquele senhor de olhares sobre óculos nos rendeu momentos inesquecíveis de entretenimento crítico nos últimos tempos de “real Brasil Netflix”. Quando o País era um campo de batalha dividido entre vermelho e azul, ele era nosso ponto apaziguador de inserção. Quando os debates sobre esquerda e direita inflamavam as mesas de bar, ele era nosso inimigo em comum união. Cunha foi nosso pretinho básico. Aquele que todos nós tiramos do armário para atacar quando não sabíamos mais o que falar sobre toda essa confusão. Cunha foi como a previsão do tempo, nosso tema neutro de elevador. Aquele que figurou, em massa, faixas de protesto nas manifestações de todos os lados e partidos, com uma unanimidade que só um vilão clássico faz. Aquele que inspirou os melhores memes, feitos democraticamente para divertir todos os públicos, todos os gostos. Aquele que transformou “Fora Cunha” num refrão.

“Fora, Cunha!”. “Fora, Cunha!”. E quando achávamos que Cunha não tinha mais como se encardir em escândalos, ele aparecia no meio de outra sarjeta imunda, com um pombo de rua, de peito estufado e orgulho a arrulhar. O vilão mais negativamente fascinante. Aquele que finge que a gente não sabe que ele é vilão…  Ah, Cunha…

Jamais esqueceremos do seu semblante sereno quando a Câmara, em peso, aproveitou a votação do impeachment para chamá-lo de ladrão. Jamais esqueceremos do seu sorriso tranquilo, típico de quem paga a reforma da casa com cheque de um milhão. Jamais. Jamais.

O seu cinismo, a sua autoconfiança e a sua capacidade de fazer manobras no Congresso estarão pra sempre guardados com carinho em nossa memória, e você estará pra sempre brigando com o moralismo do nosso coração. Porque nós sabemos que sua roubalheira serviu para comprar bolsas de valores estratosféricos para sua esposa indiscreta enquanto dois milhões de brasileiros não têm onde morar. Nós sabemos porque você nos olha como quem quer nos contar. A cumplicidade e o segredo que fã e vilão compartilham quando todo resto da trama não pode provar.

Que outro anti-herói teria tantos poderes para paralisar o seu próprio processo por quebra de decoro parlamentar no Conselho de Ética da Câmara? Que outro anti-herói criaria tantos atalhos para surfar na onda absolvição? Que outro anti-herói imortalizaria a famosa “pedalada regimental” para aprovar a permissão de doações empresariais para campanhas políticas ou rever a votação da PEC para redução da maioridade penal? Que outro gêmeo mau atuaria com tanta desenvoltura nos papéis de  primeiro parlamentar réu na Lava Jato e de protetor supremo da família brasileira, da moral e dos bons costumes? Que outro?

Só você para embolsar R$ 900 mil por operações realizadas com fundos de investimento movimentados pelo fundo de pensão dos funcionários da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro. Ousado. Só você para abrir um empresa chamada  “Jesus.com” cujo patrimônio inclui um Porsche Cayenne S  avaliado em R$ 429 mil. Religioso. Só você para defender com tanto afinco a criação do dia inútil do orgulho hétero e a e criminalização do preconceito contra heterossexuais. Inovador. Só você para ensinar o brasileiro a olhar mais para dentro do seu próprio parlamento defeituoso. Visionário.

Para quem não conhecia o caminho de casa dos nossos deputados, você foi revelador. Lançou o holofote da avaliação popular onde antes pouco havia. Foi uma ponta famosa de um antigo iceberg sujo. É com esse seu tipinho Darth Vader inesquecível que nós vamos guardar você. Mas não esqueça: você não é mártir, é vilão. Pode ser risível, mas é sombrio. Poder ser esperto, mas é culpado. Pode ser icônico, mas não é amado. Você está do lado negro da força. Nós estamos contra a corrupção. Você está quase com o pé na cela. Nós estamos fora da prisão.

Imagens: reprodução

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