Elas por Elas

A Força da Mulher

22 de outubro de 2012

por Observadora

Por Antenor Lino

“Dizem que a mulher é o sexo frágil / Mas que mentira absurda / Eu que faço parte da rotina de uma delas / Sei que a força está com elas…”

(Erasmo Carlos)

Poucos meses após eu sofrer um acidente de carro, visivelmente nos encontrávamos – eu e Sol – com um futuro incerto. As perspectivas não apontavam para um “céu de brigadeiro”, nem mesmo para o “topo do arco-íris”, pelo contrário, eu já estava com 70% do corpo paralisado.

As nossas reservas econômicas e as da empresa estavam se esvaindo. Na cabeça da minha esposa Sol, continuar exercendo a minha profissão – vendas de imóveis – também era improvável, devido ao preconceito. Sem que eu soubesse, ela escreveu uma carta à Universidade Católica de Pernambuco, solicitando meu reingresso para que eu pudesse concluir o curso de Direito, que havia abandonado bem antes do acidente. Enquanto isso nos contentava o fato de eu já não correr mais risco de vida, mesmo ainda sendo necessários cuidados especiais com minhas condições físicas e orgânicas. Naquela noite, estávamos deitados em nossa cama, quando o telefone tocou (eram aproximadamente 22hs). Sol correu para atendê-lo na sala próxima ao quarto. Poucos minutos depois, ela adentra ao quarto e, pulando – pulando de alegria! – e chorando – lágrimas de contentamento – grita: “ Conseguimos! Conseguimos!” e, me abraçando, diz: “O Conselho da Universidade Católica acabou de se reunir e nos ligaram dizendo que você foi readmitido no curso de Direito! Finalmente! Finalmente, uma boa notícia!”.

Deslumbrada – bem diferente dos ares preocupantes que antes a acometiam – transbordando uma alegria incontida, ela dizia: “Você vai se formar em Direito e poderá, se quiser ,exercer a profissão de advogado”. Ora ela me abraçava, ora pulava de alegria…

Essa notícia nos deu um novo ânimo, e eu, já tão contente quanto ela, perguntei por que eles me concederam essa oportunidade, essa chance. Ela, emocionada, olha para mim e relata: “Eu escrevi uma carta. Sabia que seria difícil o seu retorno, por ter passado mais de dois anos do fechamento da sua última matrícula. Você havia sido jubilado”! Achando que tinha acontecido um milagre, perguntei qual teria sido o argumento decisivo para isso acontecer. Ela, ainda radiante, explicou: “Na carta contei tudo! Tudo o que tinha acontecido: o seu sonho de menino humilde de vencer na vida. Enumerei os seus valores, entre tantos, o de ser trabalhador, bom esposo e amar a família. Ah, sim! Relatei o acidente e a sua bravura na luta pela vida. Por fim, pedi a todos que fizessem parte daquele conselho que, ao julgarem, pensassem, pensassem muito, pois aquela decisão poderia ser motivo de ânimo para uma vida, e que, por favor, não esquecessem (não esquecessem mesmo!) de se colocarem no lugar do meu marido. Então, falei que a decisão era deles, mas estava com muita fé que o desfecho seria positivo”.

Eu, quase incrédulo, falei a ela: “Foi isso! Foi isso, que ajudou na decisão”! E… De onde veio a inspiração? Ela prontamente respondeu: “Nos momentos mais difíceis, eu nunca perdi a fé, nunca imaginei que não ia dar para seguir em frente. Sempre acreditei, sentindo uma grande força no meu interior”.

No início da semana seguinte, após cumprirmos a etapa burocrática da matrícula, dirigi-me orgulhoso e confiante, para assistir a primeira aula depois de tantos anos… O horário do curso era das 7 às 12 horas. Por causa disso, passei a acordar todos os dias, às 5 horas da manhã, pois levo muito tempo para me arrumar, devido às limitações físicas. Mesmo assim, sempre era o primeiro a chegar e o último a sair da sala de aula. Eu sabia da importância de se praticar um esforço a mais. Sabia também que isso faria uma grande diferença. Aliás, tinha uma convicção: um esforço a mais na vida de qualquer um de nós, faria mesmo uma grande diferença! Fiz disso um hábito, que também passou a ser uma maneira de compensar as minhas limitações, diminuindo – com isso – as dificuldades para se competir no mundo dos negócios e na vida.

Voltando ao relato daquele primeiro dia de aula, lembro-me bem que não havia estacionamento destinado a portadores de deficiência física (hoje tem); e o jeito era parar o carro na rua, tirar a cadeira de rodas e só depois, me colocar nela. Eu fiquei ali, ao lado de outros carros, esperando pacientemente que Sol estacionasse numa daquelas ruas transversais. Depois de algum tempo, ela voltou e solicitou a ajuda de três ou quatro pessoas, para subirmos da rua para a calçada, e só depois disso, conseguimos entrar na universidade. Na sala de aula, entramos (eu e Sol). O professor chegou minutos depois, e, ao fazer a chamada do meu nome, disse: ” O aluno é você, não ela”. Sol se antecipou e falou que eu tinha sofrido um acidente e não conseguia escrever, e logo perguntou se poderia gravar a aula e escrever para mim. O professor concordou, e outros, ao longo do curso, também, apenas um colega não era a favor (um desembargador). Até hoje não entendemos a razão daquela discordância. O fato é que, ao final da graduação, a decana Miriam Sá Leitão, ao anunciar a conclusão do meu curso de Direito, se expressou assim: “Antenor Lino hoje se forma de fato e de direito neste curso superior. Mas, a sua esforçada esposa, se forma também, de fato. Ela, persistentemente, todos os dias, assistiu, copiou e gravou todas as aulas do curso”.

Agradeço a Deus ter escolhido – a dedo – Sol para mim. Agradeço a ela, a força que lhe sobra e me tem emprestado. Em homenagem à força da mulher – todas elas – a maioria dos prédios que construímos, levam o nome “Lady”.

Quando o homem e a mulher somam esforços, ambos crescem e triunfam.

Eu aprendi e agora sei o valor da força da mulher. Ela é a fiel companheira de todos os momentos. Sábio é o homem que se liberta dos grilhões machistas e apóia, estimula, enaltece a sua parceira. Feliz é o homem que tem a seu favor a força da mulher. É, certamente, imprescindível na vitória de qualquer um deles.

Aliás, isso me faz lembrar a música do cantor e compositor Erasmo Carlos:

Mulher, Mulher…

Na escola em que você foi ensinada

Jamais tirei um dez

Sou forte

Mas não chego aos seus pés”

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