Elas por Elas

Guarde um conselho velho: “sua vida (não) vai piorar”

5 de agosto de 2015

por Talita Corrêa

Um filme bom, de verdade, nos divide em dois sentimentos: o de realização, descoberto do comecinho ao meio da história, e o de tristeza, que geralmente aparece perto do fim. Um espectador empolgado tem com o final do filme a mesma relação vivida com a última garfada do melhor doce: melancolia, resistência e, depois, resignação.

É mania de gente madura nos fazer pensar que nossa vida também é assim: uma briga contra o caminho natural das coisas. Um desencantamento.

“Você acha que tem problemas com dinheiro hoje? Espera gastar todas as suas economias com uma casa própria, constituir família e tudo mais”.

“Você acha que não tem tempo pra nada? Espera ter filhos e descobrir que descanso e lazer nunca mais serão suas prioridades”.

“Você acha que essa dor nas costas te incomoda? Espera  a idade chegar e te ‘encurtar’ os ossos”.

“Você acha que está ruim? Sua vida só vai piorar”.

Quem, de verdade, vive feliz com o terrorismo da maturidade? Esse é o jeito certo de fazer as pessoas entenderem o fluxo da vida? Como quem caminha no sentindo da forca, e a cada passo descobre quantos minutos não tem mais?

É uma controvérsia sem tamanho. A gente passa anos tentando enganar o corpo e descobrir maneiras de esticar nossa passadinha no mundo. Gasta rios de dinheiro para usar a ciência a favor da longevidade. Teme a morte e se apega ao futuro com desespero. Para quê? Para guardar nossos dias como num frasco de perfume… Que perde o valor o quanto mais esvazia.

Tanto saudosismo para fantasiar a juventude é, além de inútil, nada saudável. Alimenta nas pessoas um motivo de depressão in vitro. Esse banzo da meia idade é, no fim das contas, um jeito muito triste de colocar no tempo a culpa pelos nossos vazios.

Quer dizer que as rugas e as responsabilidades do mundo não trazem nada de bom junto? Que não nos dão a oportunidade de ser mais seguros, mais pacíficos, mais cultos, mais reflexivos? Que não colecionamos mais amores, mais viagens, mais vitórias, mais livros? Quer dizer que não nos conhecemos melhor (de corpo e alma)? Que não nos sentimos mais à vontade com nós mesmos? Mais fortes? Mais flexíveis? Quer dizer que estacionar nos 20 seria o segredo da boa eternidade? E quem não morreria de tédio com isso?

Eu já enjoei dos meus 29, e espero, desejosa, pela chegada dos 30. Quero ver que nova marca no meu rosto vou achar. Que nova língua vou aprender, que novos amigos vou conhecer, e que outra parte de mim vai me maravilhar. Como uma criança de 5 anos costuma aguardar, ansiosa, pela chegada dos 10.  Como um pré-adolescente de 11 costuma sonhar, feliz, com a chegada dos 15. Como um jovem de 16 parece não conseguir dormir até completar 18.

Aquelas mudanças da mocidade nos prometem nova autonomia, nova independência, novos “eus”. O tempo passa e a gente esquece de aguardar, com alegria, pela autonomia emocional dos 30, pela independência sexual dos 40, pela liberdade e os novos “eus” dos 50. Pelas estradas dos 60… A gente esquece de se ver como a fruta, que fica menos verde e viçosa por fora para sugerir mais sabor e madureza lá dentro.

Deixamos de ser protagonistas de nossas própria histórias. Aceitamos essa teoria de que o tempo nos torna secundários no melhor da festa. Nos concentramos no bom da flor da idade e esquecemos de virar jardim. É um desperdício de gente feliz. E eu me recuso a plantar frustração assim.

 

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Imagens: reprodução

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