Elas por Elas

‘Assim como fui vítima, meus dois filhos também foram e, agora, estão me cuidando do céu’

18 de agosto de 2015

por Observadora

Em Novembro de 2013, fui vítima de um episódio que ficará marcado para sempre no coração de gaúchos e brasileiros – episódio, este, que, inclusive, teve repercussão fora de nosso país.

O imóvel onde eu estava pegou fogo. Mas não, não foi uma fatalidade; foi, na verdade, uma atrocidade cometida pelo meu ex-companheiro (João Moojen) e, sobretudo, pai de meus dois filhos (Isadora, de 2 anos e 7 meses, e João Henrique, de 3 meses) – que também se encontravam no local. Um idoso, que tentou ajudar no resgate, também não resistiu.

Fui agredida, fui queimada. Meu corpo foi tomado pelo álcool e, depois, pelas chamas. Fui jogada do terceiro andar. Mas a violência que sofri não foi apenas física: a dor que dilacera meu coração, até hoje e para sempre, é – e sempre será – a pior agressão que eu poderia sofrer, pois, assim como fui vítima, meus dois filhos também foram e, agora, estão me cuidando do céu.

João, o autor da barbárie, atualmente se encontra preso. Eu, por outro lado, carrego no corpo e na alma as marcas de um crime que não pode, e nem deve, ficar impune.

Após 38 dias na UTI e 4 meses, ao total, de internação no Hospital Cristo Redentor, posso afirmar, com toda certeza, que minha alta ocorreu graças às correntes de orações que foram dedicadas a mim, movidas por uma fé inabalável – e, também, por todo cuidando despendido pela equipe médica.

Ao total, quebrei os dois tornozelos e calcanhos, e um dedo do pé esquerdo; além disso, quebrei duas vértebras da coluna (L2 e L5, quase ficando paraplégica). O fêmur adentrou 2cm à bacia (que permanece lesionada) e ainda caminho com o auxilio de muletas. Tive 40% do corpo queimado. Fiz inúmeros enxertos. Perdi a orelha direita e parte da visão do olho direito (necessitando de transplante de córnea). Não tenho, e nem cresce, mais cabelo do lado direito da cabeça. E, ainda durante a internação, realizei uma cirurgia de fígado, em decorrência de infecção generalizada.

Tenho vivido, agora, uma nova etapa em minha vida: uma etapa onde enfrento uma batalha diária, compreendida entre as diversas sessões de fisioterapia e cirurgias plásticas reparadoras às quais preciso me submeter.

Não tem sido fácil. Contudo, tive a oportunidade de compartilhar parte de minha vivência na mídia e, em razão disso, tenho recebido um imenso apoio e um carinho imensurável daqueles que se sensibilizaram com meu caso – o que faz com que as minhas forças se renovem constantemente.

Ademais, tive a oportunidade de protagonizar uma grande marcha, realizada em Porto Alegre/RS, contra a violência doméstica. E esta, ressalte-se, tem sido a minha “bandeira” desde então: evitar que tantas outras mulheres vivam o que eu vivi e sintam a angústia corriqueira de quem pode tocar seus dois anjinhos, apenas, através do aconchego de um sonho.

Hoje eu coloco sorrisos no meu rosto tentando demonstrar estar tudo bem, mas por dentro estou destruída, seguro as lágrimas, e todos em minha volta não notam o que acontece de verdade. Vivo com vaidade pra tentar me sentir uma pessoa melhor, mais bonita e com isso, tento adquirir forças pra continuar e superar essa minha batalha tão difícil.

Em 7 de novembro de 2013, na cidade de Porto Alegre, João Guatimozin Moojen Netto ateou fogo na mulher, Barbara Penna, então com 21 anos, incendiou o apartamento em que viviam e jogou a vítima pela janela. Os dois filhos do casal, uma menina de dois anos e um menino de quatro meses, morreram sufocados pela fumaça. Um vizinho de 76 anos que tentou ajudar também não resistiu e morreu. Bárbara sobreviveu após permanecer quatro meses internada em estado gravíssimo.

Imagem: arquivo pessoal

Observe mais: O machismo fez mais uma vítima fatal… Até quando?

 

Siga o OF no Twitter e no Instagram e curta a nossa página no Facebook

 

Leia também:

Por Uma Felicidade Desobrigada
A gente casa pensando que felicidade é pra sempre. E se não for?
Os animais me ajudaram a superar a depressão

Pesquisar

Perfil

  • Ana Karla Gomes

    Editora Chefe

  • Rose Blanc

    Relações Públicas

  • Talita Corrêa

    Editora-Assistente

  • Estevão Soares

    Colunista

Arquivo

Assine nossa news e receba tudo em primeira mão

Observatório Feminino