Elas por Elas

Carta para minha filha negra

19 de abril de 2016

por Observadora

Querida,

Há de se investigar mesmo a fonte e a justificativa para todo esse amor que te tenho mesmo antes da vontade de querer tê-la.
Fora isso, quero registrar algumas dicas, conselhos e impressões enquanto mulher negra que muito provavelmente você – se vier a ser – será. Dividimos o mesmo lugar de fala e quero ter o registro fresco desse testemunho que pode se cansar, se perder ou esquecer de te ajudar como acho que deve.

Filha,

Começa tirando da cabeça que “é fácil”. Na verdade, me policiarei para usar o termo “facilidade” com você. Não quero te estimular a buscar ou a esperar essa facilidade. Viva como se isso não existisse e se/quando surgirem tempos fáceis por aí, você certamente irá – além de se surpreender – aproveitar da forma mais genuína possível.

Mas, sejamos mais específicas a respeito de nós, filhas pretas.

Minha boneca, que coragem!

Dá pra ver pela sua pele. Seja qualquer que tenha sido o motivo da sua escolha de vir assim e para mim, presumo que carregue com você a bandeira que quis defender. Existe em algum nível da sua consciência a noção dos inconvenientes – não de ser negra – mas de sê-la nessa sociedade. Que acredite, já foi bem mais resistente a nós.

Não vou me estender muito para te mostrar ou convencer de que você trouxe força necessária – e extra – para passar por aqui. Está tudo aí dentro, acessível e quanto antes você souber disso, menos vai se frustrar ao não encontrar isso fora. Isso não quer dizer, absolutamente, que não possa viver sua fraqueza quando ela precisar existir. E este é mais um tema.

É comum que exijam de nós, mulheres fortes que somos, que sejamos assim sempre. A qualquer tempo e circunstância. Isso diminui, por vezes, o cuidado que costumam (e costumamos) ter conosco. Venho legitimar aqui seu direito de ser guerreira e não querer guerra. E mesmo que não dê para fugir dela, você pode sim se cansar, descansar e respeitar seu tempo e limitações. É importante que se diga “temos nosso próprio tempo” e, sim, temos limitações como todo ser que vive e respira.

Durante muito tempo fomos meros instrumentos que viabilizavam a vida dos outros. Algum tempo se passou, mas por qualquer descuido, vivemos flashes de um déja vu desagradável da época que a avó da sua avó só servia para servir. Isso acabou. Por mais que tentem, sutilmente, nos confundir com versões atualizadas da chibata, é importante que fique claro: acabou.
Só cuidado para que isso não te leve para o outro, e falacioso, extremo que diz: “Isso acabou, não existe herança da escravidão, racismo e preconceito é coisa do passado, já passou, não se faça de vitima, é tudo lindo, todos iguais!”.

Veja: quando eu digo: “isso acabou”, quero te deixar alerta para que não se sujeite, que exija respeito e todos os direitos que conseguimos a duríssimas penas. Quando dizem por aí “isso acabou”, querem acabar mesmo é com qualquer discussão, diminuir a luta e parar o progresso. Como se estivesse tudo ótimo assim, tudo resolvido.

Não está.

Pode até ser que esteja melhor, mas nosso referencial de ruim é tão péssimo que seria até engraçado – se não fosse verdade, pensar que devíamos estar satisfeitos por não estarmos mais apanhando no tronco uma hora dessas.
Não estamos satisfeitos.
Não esteja.

E também não perca muito tempo tentando explicar isso. Muitos não entendem e poderiam defender seus lugares e privilégios valendo-se da meritocracia. Falando nisso, você pode até agir como se ela realmente existisse e tudo dependesse só de você mesmo. Mas, siga lutando para que ela exista de verdade, um dia.

Meu bem, queria poder garantir um lugar mais justo e confortável para você. Queria ter a tranquilidade de te arrumar para a escola sem o medo de pensar nos apelidos que pode ouvir e nas situações que pode passar, por conta da sua cor, do seu cabelo, nariz ou qualquer outra característica diferente da maioria. (Me lembre de discutir com você os conceitos de maioria e minoria que me refiro aqui).

Meu medo maior não é que passe por situações desagradáveis. Até porque isso é inevitável. Meu pânico é de você achar que tem algo errado com você, por conta da sua linda, inegável e indisfarçável aparência negra. Nem sei o que sinto quando penso que tão logo você comece a se perceber como ser independente de mim e inicie sua socialização, tenha que lidar com conflitos que eu hoje, aos 26 anos, ainda não sei resolver bem.  Por isso vou usar do caps lock aqui para dizer que NÃO HÁ PROBLEMA COM A SUA COR, SEU CABELO, SEU NARIZ. O problema é de quem acha que isso é um problema. Por favor, você já vai ter vários obstáculos para passar nesse mundo. Não se culpe pela dificuldade dos outros. Deixe que eles se resolvam enquanto desrespeitamos o que eles pensam que é regra.

Permita-me corrigir a afirmação de que você tem uma cor, um cabelo ou um nariz diferente. A palavra diferente exige um referencial e nós não precisamos ter isso. Você é diferente dele/dela, assim como ele/ela é diferente de você.

Espero amenizar a sensação de “estranha no ninho” sendo referência estética do que (também) existe por aí. Por mais que a apresentadora do seu programa favorito, a protagonista do seu filme predileto, grande parte dos seus brinquedos, professores e médicos não sejam capazes de revelar isso: somos maioria! (Aqui rediscutimos novos conceitos de maioria e minoria).

Filha, não precisa saber cantar nem sambar, assim como seu irmão não precisa jogar futebol. Tá tudo bem se você escolher o que quiser e o que gostar. Temos grandes referências de negros nessas áreas, mas não temos obrigação nenhuma de nos contentar com só esse pedacinho do bolo. A torta toda é nossa também. Pegue a fatia que lhe apetecer. E por favor, livre-se da obrigação de ser a “mulata gostosa e boa de cama”. Conversaremos mais até lá, mas adianto que isso não valoriza a gente como fazem parecer.

Aconselho não alisar seus cabelos, mas isso você também vai poder decidir. Eu precisei viver uma transição capilar (e de identidade) para entender muito do que estou tentando de explicar aqui. Não quero me projetar em você e é indispensável que tenha, escolha e viva sua própria trajetória. Só peço que lembre-se todos os dias – ao  dormir e ao acordar – de se respeitar e não decidir nada por vontades externas. Busque, ao máximo, se aproximar da pessoa que “nasceu para ser”. Você saberá entender isso. Só você, no caso.

Na vida amorosa, veja bem: AMOROSA, as pessoas que nos chegam já passam por um filtro, na minha percepção, favorável.
Quem escolhe estar com a gente (estar ? transar), escolhe colocar um pezinho junto na luta. Em geral, não existe muita conveniência nessa escolha e isso diminui, consideravelmente, companhias por conveniência. Sem contar que parceiros que tenham a mínima noção do que é ser uma mulher negra com suas implicações sociais e permitem-se apaixonar-se por uma, são, incrivelmente, mais interessantes do que aqueles que se interessaram por você, mas não foram firmes no contra-fluxo. Tem também aqueles que em um nível menos consciente, se podaram ao pensar que “tinha alguma coisa errada” sem nem mesmo refletir sobre. – Não queira quem não reflita sobre.

Não quero te estimular a nutrir sentimentos ruins ou a desprezar ~certas pessoas ~. Entenda que eles não fazem por mal. Fazem pro bem. Deles mesmos. E não é bom que tenha ao seu lado alguém que só quer e pensa no seu próprio bem, né? Não sofra por quem só sofre por si mesmo. E nem inveje quem quer que seja que ~ certas pessoas ~ escolham ou assumam para um relacionamento. Acredite: essa pessoa está fazendo isso mais por si do que por quem quer que seja. ? Que sorte a nossa! ?

Filha, temos conteúdo para uma carta de rolo maior do que a paciência que precisará ter com quem vier te questionar sobre ~~ Racismo Reverso ~~.

Mas, vou ficando por aqui.

Nathalia CruzNathalia Cruz tem 26 anos, formou-se publicitária pela Universidade de Brasília e atriz pelo Tablado. Atualmente vive no Distrito Federal, onde trabalha, estuda, samba, escreve e apaga diariamente.
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