Elas por Elas

Com amor, para Monique e para o filho que veio para salvá-la

28 de maio de 2015

por Talita Corrêa

Parece que acordei, hoje, com um beijo de Francisco no meio da minha testa de tia. O filho da minha amiga de outras vidas e década, minha Xuxa, minha galega, minha irmã, virá ao mundo nos transformando e nos melhorando um pouco mais. Ao ler, nessa manhã, um texto lindo contando sua história, tive felicidade e precisei me perdoar por EU mesma não ter escrito aquilo. Eu não consegui, aliás.

moniqueA jornalista, nos últimos dias, virou só tia, apertou o coração e sentiu, junto, o medo da “só” amiga. Faltaram todas as palavras. Sobraram meias de pirata, fé e abraços silenciosos entre as duas notícias mais importantes dos últimos meses: Monique estava grávida. Monique estava com câncer.

Eu tinha medo de pegar o telefone e chorar. Terminava o trabalho  mais cedo e corria para dividir um pote de esperança com seus pais. Ao lado da dor deles, os dias ficaram mais longos e as noites mais cheias.

Hoje, uso esse espaço aqui para reObservar. E para convidá-los a fazer o mesmo. A mesma Monique, mãe de Francisco, contada por Silvia Bessa no Diário de Pernambuco, forte e serena, é aquela que, HÁ EXATOS 15 meses, falou ao OF sobre a dor de perder uma filha. De perder a nossa Letícia.

O recado fica para a vida: a dor é petulante. Desafiadora. Presunçosa. Ela volta, dá sustos, faz surpresas inesperadas. Ela cai como raios num mesmo amor de lugar. Às vezes, ela convoca o soldado mais corajoso para a guerra mais violenta. Mas ela passa. Para tudo e para todos.

Parabéns, minha amiga. Você é exemplo. É esse coração Dom Quixote, enfrentando os moinhos de vento. Passam as batalhas, passam os ataques, passam as dores, passam os meses, passam as palavras, passam os dedos em riste na sua direção… Passam outras pontes debaixo de tanta água. Você, de tanto passar, passa a parecer mais forte, mais linda, passa a reluzir mais para ficar.

E se isso não é ser mulher, eu não sei.

 

Abaixo, trechos da matéria do DP. Para conferir o texto na íntegra, clique aqui.

Francisco pode chegar a qualquer momento. De rosto desconhecido, o coração dele pulsa há 33 semanas na barriga de Monique Cabral. Será o nascimento dele e, finalmente, o renascimento de Monique – 29 anos, descendente de Parnamirim, Sertão de Pernambuco, e jornalista com carreira feita no Recife. Nesse dia, haverá exaltação da vida, da relação mãe e filho, da fé. No mundo, há na literatura apenas 16 relatos de mulheres grávidas operadas de câncer no rim. Monique é caso ‘raro, raríssimo’; e de sucesso.

Se o bebê que terá nome de santo não existisse, os médicos talvez demorassem a descobrir o tumor do tamanho de um tomate alojado no rim esquerdo dela. Quem sabe, sequer tivessem a chance de tratar o câncer ameaçador ou extirpá-lo, como aconteceu ao retirarem todo o rim esquerdo por um corte de 20 centímetros, hoje visto no alto da barriga grande e acetinada de Monique. ‘Francisco veio para me salvar’, resume ela, com fôlego curto, já sentindo as contrações de treinamento do parto que se avizinha. Convicta, espera o encontro com seu pequeno herói.

Pode demorar, mas o menininho fará sua própria versão. Saberá que a mãe teve coragem hercúlea para enfrentar o périplo e mantê-lo vivo, enquanto equipes de especialistas analisavam protocolos do Brasil e do exterior e decidiam por fazer a inusitada primeira cirurgia de retirada do rim de uma gestante.


Vivendo a maternidade do bebê com 20 semanas, cuidando de uma gravidez de risco que exigiu repouso desde o início do ano, Monique sentia incômodos. A obstetra, Eva Spinelli, pediu parecer de um urologista. Cogitava-se que era cálculo renal; ninguém imaginava no princípio que seria preciso uma intervenção. O experiente urologista Roberto Cohen – 35 anos de profissão – foi honesto. Alertou que não poderia demorar a tratar para não dar chances de ocorrer metástase. ‘É um quadro muito difícil’. E cirúrgico, pelo tamanho do tumor. ‘Como ela estava no segundo trimestre, o risco maior era de abortamento’, explicou-me ontem, antes de informar que publicará artigos sobre Monique em Congressos de Medicina nas áreas de Urologia e Ginecologia.


Foram três semanas entre diagnóstico e cirurgia. ‘Me disseram que, se eu não tivesse grávida, seria de um dia para o outro’. Neste meio tempo, Monique usava o tempo de angústia para conversar com Francisco. ‘Dizia: ‘Filho, é preciso ser forte’…’, contou a mãe.

(…)Narrou o medo que sentiu antes da cirurgia, as lágrimas que engoliu para suportar o momento, a tensão ao colocar a mão na barriga antes de saber se o filho estava vivo quando abriu os olhos no pós-cirúrgico. Contou das dores que nem as doses de morfina contiveram. Monique e Francisco resistiram juntos. ‘Até agora não consigo acreditar no que vivi’,  confessa ela, antes de dizer que só vai sossegar quando colocar Francisco no colo pela primeira vez. Francisco está com mais de 2,2 quilos, sadio. A cada sábado, dia da semana que marca as semanas no calendário do nascimento, há uma comemoração coletiva para a família. É muito para o que ela e o organismo dela passaram.
‘Tenho um tio, que é também meu padrinho, que me disse outro dia: ‘Minha filha, nunca esqueça que Francisco veio para salvar a vida da mãe dele. Daí para frente, terá outras missões’. Creio nisso'”.

 

 


Foto: Guilherme Verissimo/Esp DP/DA Press

 Observe mais: “Para Matheus e Francisco…” – No Dia da Mulher, uma homenagem a eles

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