Elas por Elas

‘Desejo um neto a cada pessoa que me lê’

14 de outubro de 2014

por Observadora

Foram quase sete anos de espera, quase sete anos de um sonho que finalmente irá se realizar: meu filho e minha nora esperam meu primeiro netinho. Vou ser avó! E como eles bem diziam: “Tudo tem sua hora. Não é no tempo que queremos, é no tempo de Deus!”. Ele já é muito amado, tanto quanto desejado! Não importa se será menino ou menina, mas Deus permita que Mateus ou Beatriz venha com muita saúde!

Confesso que “morria de inveja” das minhas amigas avós! Queria sentir a mesma cumplicidade que elas compartilham e que as faz especiais nesse papel de serem mães outra vez, mas com menos responsabilidade e bem mais prazer. Também “morria de medo” de morrer sem ter tido a bênção de ser uma vovó alegre, brincalhona, carinhosa, participativa… Às vezes ficava olhando as vitrines das lojas, e imaginando o dia em que poderia comprar aquelas roupinhas tão lindas!

Confesso que no primeiro dia em que me contaram que seria vovó, saí para comprar seu primeiro presentinho. Não consegui conter o desejo de fazê-lo. Lógico que comprei uma roupinha neutra, pois ainda não sabemos o sexo, mas não dava para adiar esse sonho de consumo tão esperado! Quando escolhi a roupinha, pensei: “meu netinho vai ficar lindo”! Se pudesse teria comprado a loja inteirinha! Terei que me controlar muito! Já estou até pensando na festinha de aniversário dele! Parece que estou ouvindo meu filho dizer: “Eita, babona!”.

Antigamente, as mulheres ficavam apavoradas com a perspectiva de serem avós. Para muitas, isso significava que estavam ficando velhas. Nem sei se isso mudou, mas para mim a perspectiva é de ser mais feliz! Afinal, ficar velha nem é tão ruim quando se é avó! Certa vez, Carlos Drummond de Andrade disse: “Desejo um neto a cada pessoa que me lê”. Em outras palavras ele disse que desejava a todos essa sensação de encantamento e alegria que estou vivendo. É um amor doce e profundo que comecei a sentir desde que fiquei sabendo que meu neto está a caminho. Não vejo a hora de tê-lo em meus braços… Já estou transbordando de amor pelo meu querido, tão querido quanto foi Luis Maurício pelo seu vovó poeta.

 

  A Luis Mauricio, Infante (Carlos Drummond de Andrade)

“Acorda, Luis Mauricio. Vou te mostrar o mundo,
se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo.

Despertando, Luis Mauricio, não chores mais que um tiquinho.
Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho?

Que seria de ti, Luis Mauricio, pranteando mais que o necessário?
Os olhos se inflamam depressa, e do mundo o espetáculo é vário

e pede ser visto e amado. É tão pouco, cinco sentidos.
Pois que sejam lépidos, Luis Mauricio, que sejam novos e comovidos.

E como há tempo para viver, Luis Mauricio, podes gastá-lo à janela
que dá para a “Justicia del Trabajo”, onde a imaginosa linha da hera

tenazmente compõe seu desenho, recobrindo o que é feio, formal e triste.
Sucede que chegou a primavera, menino, e o muro já não existe.

Admito que amo nos vegetais a carga de silêncio, Luis Mauricio.
Mas há que tentar o diálogo quando a solidão é vício.

E agora, começa a crescer. Em poucas semanas um homem
Se manifesta na boca, nos rins, na medalhinha do nome.

Já te vejo na proporção da cidade, dessa caminha em que dormes.
Dir-se-ia que só o anão de Harrods, hoje velho, entre garotos enormes,

conserva o disfarce da infância, como, na sua imobilidade,
à esquina de Córdoba e Florida, só aquele velho pendido e sentado,

de luvas e sobretudo, vê passar (é cego) o tempo que não enxergamos,
o tempo irreversível, o tempo estático, espaço vazio entre ramos.

O tempo – que fazer dele? Como adivinhar, Luis Mauricio,
o que cada hora traz em si de plenitude e sacrifício?

Hás de aprender o tempo, Luis Mauricio. E há de ser tua ciência
uma tão íntima conexão de ti mesmo e tua existência,

que ninguém suspeitará nada. E teu primeiro segredo
seja antes de alegria subterrânea que de soturno medo.

Aprenderás muitas leis, Luis Mauricio. Mas se as esqueceres depressa,
Outras mais altas descobrirás, e é então que a vida começa,

e recomeça, e a todo instante é outra: tudo é distinto de tudo,
e anda o silêncio, e fala o nevoento horizonte; e sabe guiar-nos o mundo.

Pois a linguagem planta suas árvores no homem e quer vê-las cobertas
de folhas, de signos, de obscuros sentimentos, e avenidas desertas

são apenas as que vemos sem ver, há pelo menos formigas
atarefadas, e pedras felizes ao sol, e projetos e cantigas

que alguém um dia cantará, Luis Mauricio. Procura deslindar o canto.
Ou antes, não procures. Ele se oferecerá sob forma de pranto

ou de riso.E te acompanhará, Luis Mauricio. E as palavras serão servas
de estranha majestade. É tudo estranho. Medita por, exemplo, as ervas,

enquanto és pequeno e teu instinto, solerte, festivamente se aventura
até o âmago das coisas. A que veio, que pode, quanto dura

essa discreta forma verde, entre formas? E imagina ser pensado,
pela erva que pensas. Imagina um elo, uma afeição surda, um passado

articulando os bichos e suas visões, o mundo e seus problemas;
imagina o rei com suas angústias, o pobre com seus diademas,

imagina uma ordem nova; ainda que uma nova desordem, não será bela?
Imagina tudo: o povo,com sua música; o passarinho, com sua donzela;

o namorado com seu espelho mágico; a namorada, com seu mistério;
a casa, com seu calor próprio; a despedida, com seu rosto sério;

o físico, o viajante, o afiador de facas, o italiano das sortes e seu realejo;
o poeta sempre meio complicado; o perfume nativo das coisas e seu arpejo;

o menino que é teu irmão, e sua estouvada ciência
de olhos líquidos e azuis, feita de maliciosa inocência,

que ora viaja enigmas extraordinários; por tua vez, a pesquisa
há de solicitar-te um dia, mensagem perturbadora na brisa.

É preciso criar de novo, Luis Mauricio. Reinventar nagôs e latinos,
E as mais severas inscrições, e quantos ensinamentos e os modelos mais finos,

de tal maneira a vida nos excede e temos de enfrentá-la com poderosos recursos.
Mas seja humilde tua valentia. Repara que há veludo nos ursos.

Inconformados  e prisioneiros, em Palermo, eles procuram o outro lado,
E na sua faminta inquietação, algo se liberta da jaula e seu quadrado.

Detém-te. A grande flor do hipopótamo brota da água – nenúfar!
E dos dejetos do rinoceronte se alimentam os pássaros. E o açúcar

que dás na palma da mão à língua terna do cão adoça todos os animais.
Repara que autênticos, que fiéis a um estatuto sereno, e como são naturais.

É meio-dia, Luís Maurício, hora belíssima entre todas,
pois, unindo e separando os crepúsculos, à sua luz se consumam as bodas

do vivo com o que já viveu ou vai viver, e a seu puríssimo raio
entre repuxos, os “chicos” e as “palomas” confraternizam na “Plaza de Mayo”.

Aqui me despeço e tenho por plenamente ensinado o teu ofício,
que de ti mesmo e em púrpura o aprendeste ao nascer, meu netinho Luis Mauricio“.

Imagem: reprodução

Josilene Corrêa  é jornalista e já escreveu para o OF artigos como Depois dos “enta”…

 

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