Elas por Elas

Elogie mais

16 de julho de 2017

por Observadora

Em um dia desses no metrô, graças à tatuagem de uma mulher sentada perto de mim, notei como estamos despreparados para receber elogios de pessoas estranhas. Isso porque a tatuagem dela, um manequim incrível cheio de detalhes, era igual a de um homem que vi no ano anterior também em um vagão de metrô. Eu achei o desenho tão lindo que decidi pará-lo para elogiar.

O homem estava distraído e eu coloquei a mão em seu braço para que ele me escutasse. É claro que a sua primeira reação foi um olhar bravo, desconfiado. Ninguém gosta de ser tocado de repente, até porque não sabemos a intenção alheia. Sua tatuagem é maravilhosa, eu disse. O olhar assustado, então, se transformou em um sorriso sem graça, que permaneceu com ele até o momento em que desceu na estação. E eu saí com a sensação de que fiz o dia de alguém mais leve.

Eu nunca me esqueço também do dia em que estava em uma loja qualquer no shopping e uma garota, que estava do lado de fora, entrou e me parou apenas para dizer o quanto tinha amado minha bota marrom de cano alto. Depois disso, eu passei a amar minha bota trinta vezes mais e elogiar os outros com frequência.

Devo admitir que tatuagens são o meu ponto fraco. Não posso ver uma bonita que quero elogiar. E já fiz isso repetidas vezes, recebendo em troca sorrisos sinceros de quem não esperava uma gentileza em plena correria paulistana. Ainda assim, quando vejo um sapato bonito, um batom incrível, o cabelo colorido maravilhoso de alguém ou um livro ótimo em mãos alheias, me contenho muito por receio de ser mal interpretada ou vista como invasiva.

É preciso ressaltar que não estamos falando aqui de assédio, mas, sim, de gentileza. E ser gentil é uma escolha altruísta. É querer deixar de ser indiferente para se identificar, sem esperar qualquer coisa em troca. É deixar de ter medo de externar sentimentos bons. É admitir que estamos ligados, que você se importa. É reparar o outro, no outro, devagar, uma vez que nessa vida, como diria Padre Fábio de Melo, muita gente já me olhou depressa demais.

Estamos tão armados contra a gentileza que qualquer iniciativa de contato humano torna-se um perigo. Tanto porque somos induzidos diariamente a se afastar, a criar padrões de comportamento destrutivos, quanto por não termos nenhuma referência em relação a isso. Ninguém faz, logo, as histórias que ouvimos sobre supostas (e falsas) gentilezas sempre acabam em algo ruim, novamente, fechando o ciclo.

Mas depois de ver um post no facebook da Clara, do blog amorzinho Declara, incentivando o elogio, decidi fazer esse post para me lembrar do quando isso pode transformar o dia de alguém. Mesmo que essa pessoa não aceite e saia andando. Sabe aquele gif do filme Waking Life que fala eu não quero ser uma formigaEntão, a ideia é exatamente essa: parar de esbarrarmos uns nos outros no piloto automático sem nada de verdadeiramente humano.

E não só elogiar estranhos, mas aqueles que convivem com você. Quantas vezes nossa humanidade se perde em relacionamentos rotineiros? Torne isso um hábito. Elogie a roupa, o cabelo, a mochila, o perfume, a personalidade, a inteligência, a curiosidade, as fotos, a risada. O que você sentir vontade, o que você realmente achar lindo na outra pessoa. Garanto que nada de negativo poderá sair dessa atitude, muito pelo contrário.

Da próxima vez que você ver algo que gosta em alguém, diga. Sem receios. Apenas olhe para a pessoa e fale em alto e bom som, sem medo da resposta. O que agrega, deve ser compartilhado. Eu aposto que por mais que a pessoa não espere, ela também se sentirá mais leve. Elogio sincero vai além da ideia de afagar o ego alheio. Um elogio espontâneo é um abraço quentinho em um dia de inverno, é compartilhar carinho. E nesse caminho, quanto mais damos, mais espaço criamos para receber. É recíproco.

E aí, quem você elogiou hoje?

Texto originalmente publicado por Luana Toro no blog Entre Anas

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