Elas por Elas

Entre animais, a amizade e o céu

25 de abril de 2014

por Observadora

 Nunca fui muito fã de gatos. Sempre achei os felinos um tanto quanto traiçoeiros, interesseiros e frios. Dizia pra todo mundo que lealdade mesmo era coisa de cachorro, que de carinho só os cães entendiam. Olhava meio torto para os gatos que minha mãe – uma apaixonada incondicional – trazia para casa e quase me implorava para amar. Ela tinha discursos variáveis na ponta da língua para me convencer, mas em anos nenhum deles adiantou.

Tivemos quatro gatos antes da Pipoca. Um atrás do outro, todos entraram e saíram da minha vida de forma calma e tranquila, com algumas lágrimas e nada mais. Até que um dia a Pipoca chegou… Pipoquinha estava numa gaiola de petshop quando minha mãe resolveu resgatá-la. Era mais um agosto gelado e inconveniente para aqueles que moram nas ruas, por isso os donos da loja resolveram colocar a bichana numa caixa de ferro na esperança que alguém se compadecesse da sua dor e feiura. Batata! Minha mãe não resistiu, deu meia volta, colocou a ratinha dentro do casaco e foi para casa.

Quase surtei quando soube da mais nova aquisição da casa. “Meu Deus, mais um gato? Mas pra quê?”. Ela, como sempre, ignorou tudo que falei e simplesmente colocou a gatinha no seu colo e a aninhou. Todos os dias elas dormiam juntas e depois da primeira vacina Pipoca foi conhecer os outros membros da família. A vira-latinha cresceu numa casa cheia de bicho, numa casa com mais animais do que humanos.

E eu, que nunca tinha gostado de gato, tive que me render. Ela foi o primeiro animal a subir na minha cama e a me encher de beijos. Ela dava beijinhos carinhosos, mordinhas que mostravam o quanto era grata. Ela também deixava pelo por onde passava. Ela foi a primeira e única a fazer isso tudo e ainda ter meu sorriso de volta. Na verdade, eu até a convidava para curtir as tardes de domingo num cinema improvisado no meu quarto. Ela fingia assistir ao filme, mas na verdade gostava mesmo de sonhar enquanto dormia na minha barriga.

Ela até começou a falar quando seus filhotes nasceram. Ninguém acredita, eu sei, mas ela falava, e como falava. Ô gatinha tagarela aquela. Do jeitinho dela, conseguia mostrar através de grunhidos quando estava triste, feliz ou insatisfeita. Pipoca reclamava quando era “esquecida” do lado de fora da casa, quando queria leite e quando todo mundo falava com seus filhotes e não lhe dava uma cotinha de cafuné. Falava feito matraca toda vez que os bebês resolviam explorar o quarto, ainda cambaleantes, e não voltavam para seu campo de visão.

Mas a parte mais linda da Pipoca era a quantidade de amor que tinha naquele coraçãozinho. Meu maior orgulho sempre foi contar aos quatro ventos o quanto ela amava minha cachorra. Nala e Pipoca eram melhores amigas. A cachorra resgatada da rua e a gata retirada de uma gaiola tinham na alma a história de amor mais linda que já vi na vida. Toda vez que as duas se esbarravam era a mesma coisa, todos os dias: Nala corria, Pipoca deitava e uma mordia a cabeça da outra. E ficavam naquela até cansar. E nem adiantava brigar, uma era da outra e ninguém podia se meter. Na hora de dormir Pipoca ia atrás e se aninhava nos braços de Nala, não sem antes dar um monte de beijos, mordidas e lambidas. E assim as duas ficavam, juntinhas, entrelaçadas, protegidas e cúmplices de um amor que os livros não ensinam.

Quando Pipoca ficou grávida, era Nala quem tomava conta dela e brigava todas as vezes que ela chegava tarde em casa. Quando os filhotes nasceram, era também ela quem ficava de prontidão na porta do quarto para que ninguém mais entrasse. Era Nala quem seguia os passos dos bebês que mal sabiam andar e enchia de lambidas sua amiga felina mesmo quando mais ninguém podia chegar perto.

Acho que por isso a parte mais dolorosa em receber a notícia da partida da Pipoca foi ouvir o choro da minha vira-lata ao olhar para a caixinha de papelão no chão da sala. Foi ver sua agonia presa à coleira, seu choro de desespero, seu olhar perdido. Nunca tinha ouvido Nala uivar. Sua melhor amiga estava ali e ela não podia brincar. É claro que ela não entendia o porquê.

Hoje temos três felinos órfãos pra cuidar, mamadeiras pra fazer e até bumbuns pra limpar. Eles ainda não sabem fazer suas necessidades sozinhos. Mas tá tudo caminhando… Não preciso nem dizer quem está ajudando nessa tarefa. Afoita e diria que até orgulhosa, Nala lambe um por um e eles não reclamam. Os danadinhos até já gostam de provocar a amiga que late, tal qual sua mãezinha fazia. Eles se embolam, se amam, se cuidam noite e dia, dia e noite. Nala, minha cachorra hiperativa, só descansa quando todos estão dormindo. Ela, que sempre foi medrosa, agora entrou numa de enfrentar todo e qualquer “perigo” para defender os sobrinhos. Eles, que não são bobos nem nada, ainda não entenderam que perderam a mãe, mas já perceberam que sempre tiveram uma anjinha da guarda danada de boa. Pena que não sai leite quando os três famintos tentam mamar em suas tetinhas caninas…

Pipoca sempre foi cercada de amor e dava amor em dobro pra todo mundo. Vai ver foi por isso que ela subestimou a presença do pitbull do vizinho. Vai ver por isso que ela jamais podia imaginar tamanha maldade no coração de alguém. Vai ver foi exatamente por isso que ela foi pega de surpresa quando uma voz ordenou que o grandalhão a pegasse. Espero que aquele único golpe tenha sido rápido e minha Pipoquinha tenha partido sem sentir dor. Medo, esse eu sei que ela não sentiu. Ela não sabia o que era maldade. Construímos seu mundo cor de rosa e ela viveu no nosso castelo de cristal. Partiu para outra como uma princesa.

Ela amou sem regras, sem preconceitos, sem exigências. Doou amor, recebeu amor, reciclou amor. Era só amor por todos os cantos. Quisera eu que o mundo soubesse o que é amar como minha gatinha vira-lata bem sabia. Quisera eu.

 

   Naiara Sobral é jornalista e autora do blog Cores da África

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 Imagens: arquivo pessoal

 

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