Elas por Elas

Especial OF: mães não são perfeitas, pessoas não são eternas e amores não são implícitos

11 de maio de 2014

por Talita Corrêa

Essa publicação faz parte da série especial do OF que homenageia as observadoras mais importantes das nossas  vidas: as mães. 

 

‘Jamais me abati por ser cadeirante. Namorei, vivi… E fui mãe’

 Compartilhado mais de 86 mil vezes, vídeo de parto humanizado ilustra a força das mães que dão à luz em casa

Entre gratidão de filho e amor de mãe, 365 dias de saudade

O texto que encerraria o especial do OF em homenagem ao dia das mães seria outro. Acontece que vivi este domingo, 11, de um jeito tão triste e pesado que pedi a permissão autocentrada de escrever em primeira pessoa.

Depois de constatar que todos os restaurantes de Recife estavam isuportavelmente lotados, o almoço da minha família foi na praça de alimentação de um home center.  O menu pouco sofisticado e os pratos executivos servidos numa bandeja não tinham cara de data especial. Mas estávamos juntos como há muito tempo não acontecia. Isso já era comemorar a felicidade.

Durante o almoço, um movimento na mesa ao lado nos chamou a atenção. Um senhor de idade parecia ter desmaiado após um mal-estar repentino. O filho, desesperado, chamava pelo pai, sem saber o que fazer. Os netos – crianças e adolescentes – começaram a correr entre as mesas, pedindo que alguém os ajudasse. Fui até lá, mesmo sem saber exatamente o que poderia fazer. No chão, de olhos abertos e fixos, o senhor já parecia apresentar baixa ou inexistente frequência cardíaca. A primeira impressão leiga é de que ele havia sofrido um infarto fulminante. A esposa dele chorava compulsivamente. A filha reclamava da demora das ambulâncias, da demora na chegada do desfibrilador. As pessoas, chocadas, formavam uma roda, lamentavam. A massagem cardíaca foi feita por mais de cinquenta minutos sem que houvesse resposta. Outro familiar se aproximou, sentiu a temperatura do senhor, já baixa, depois olhou para os pés, que começavam a ganhar outra cor.

Que aviso duro e urgente trazia aquela cena em pleno dia das mães… A vida – que não nos dá  outra escolha, a não ser viver – só é menos imediata que a morte. E nenhuma das duas aceita pendências. Tive medo. Lembrei das muitas vezes que, pequena,  me aproximei da minha mãe enquanto ela cochilava e tentei sentir sua respiração. Das vezes que pensei: “Não tenho medo da morte, mas morro de medo de morrer e matar minha mãe de tristeza”. Adulta, e vivendo muito tempo longe dela, eu descobri o jeito de amainar esses temores infantis: dizer repetidamente que eu a amava. Dizer onde errei, onde ela acertou, e no orgulho imenso de ser sua filha. Quando nos separarmos, portanto, saberemos que o amor revelado nos manterá para sempre juntas, como a corrente elétrica que faz a luz ser visível dentro de uma lâmpada acesa.

O amor é, mas não gosta de ser implícito. A sinceridade amorosa que, um domingo por ano, acomete os filhos, precisa, por tudo isso que vi e senti hoje, ser mais vulgar, diligente, amiúde. É ela que quita nossas dívidas e nos dá crédito. Ninguém sabe o amanhã. E se não houver tanta gratidão para ser dita, que sejam ditas também as dores, as faltas, sem tantos arrodeios e procrastinação. Até a mãe natureza falha, afinal. Ela alimenta seus filhos com a mesma força que os castiga. No outro dia, cega de amor, amanhace linda, como se nada de errado tivesse feito. Algumas mães, portanto, relegam por achar que a independência é melhor professora do que elas. Algumas sufocam por não confiar no mundo, ou por não saber viver outro papel que não seja o de mãe. Algumas confundem e mentem para supostamente orientar. Algumas são todas essas algumas em uma vida só.

Nos meus primeiros meses de vida, tive a melhor mãe do mundo. Instintivamente dedicada, carinhosa e cuidadosa. Noves meses depois ela precisou se descobrir forte para nos criar e juntar os cacos de um divórcio difícil. O mito inútil e comum da mãe perfeita foi substituído. Eu descobri que tinha, na verdade, a referência, o exemplo e mulher perfeita ao meu lado.  Uma mulher corajosa, passional, com um coração bondoso, inacreditavelmente altruísta, paciente, humilde e desejoso de crescimento constante. Foi, no meio das contas, o caráter da mulher e o amor da mãe que me fizeram a filha sortuda que eu sou.

Então, nesse domingo triste e de quase medo, mãe, eu te agradeço, mais uma vez, por você ter sido a leoa que defendeu a mim e ao meu irmão do mundo. Te agradeço por ter sofrido ao não conseguir me amamentar (Não devia. Você sabe que me deu absolutamente tudo que precisei até aqui). Eu te agradeço por ter me passado, em cada ml de sangue, a paixão pelas palavras. Te agradeço por sentir falta de ar nas minhas crises de asma e por intuir o que eu sinto até hoje.

Nos outros 52 domingos, 52 sábados, oito feriados nacionais e dias úteis desse ano, eu te agradeço, Dona Josi, pela mulher que nos ensinou a desejar o bem. Que me disse que mágoa faz mal ao coração. Agradeço por sempre ter me dito “Não te desejo um cara bonito ou bem-sucedido, com um bom carro ou futuro promissor. Só te desejo encontrar alguém que te ame como você merece, e isso me deixará tranquila”. Eu te agradeço pelas tantas horas de trabalho para que eu pudesse ter vestidinhos tirados das capas de revistas de manequim. Por fazer papa de chocolate, me deixar criar um calango, por guardar os livros do Sidney Sheldon e tratar meus amigos tão bem. Agradeço por me ensinar a sentir pena e a não sofrer tanto quando alguém me maldiz ou é injusto comigo. Te agradeço por me fazer sorrir e adiar suas necessidades. Te agradeço por confiar na minha palavra sobre todas as coisas, por sempre acreditar em mim. Isso me ensinou que o mundo tem que fazer  igual.

Te agradeço por me fazer rica ao entender que dinheiro só compra coisas. Agradeço pelos cachorros que você adotou, pelos conselhos, pela abertura e pela amizade. Te agradeço por ser humilde e carinhosa com todo mundo que conhece. Por me buscar longe. Por me deixar ir. Por me ouvir e chorar comigo. Por me escolher para também desabafar. Por não me deixar esmorecer, nem deixar de sonhar. Por se emocionar quando fiquei mocinha, por falar sobre sexo com humor. Pela dedicação naquela minha festinha que tinha um bolo marrom… E os bonequinhos João e Maria. Por encher a boca pra falar meu nome. Por olhar a vida com tanto otimismo. Por me ajudar a fazer aquelas gincanas do colégio e por colocar aquelas fronhas com álcool no meu pescoço febril. Pelos paninhos de cozinha que leva para minha casa. Por me atender, me ligar, me escrever cartinhas, me esperar na saída da aula, torcer pelo meu sucesso, ter orgulho do que eu faço, por ser honesta, por gargalhar, por ser assim, tão evoluída e boa, que jamais me prendeu ou me desencorajou no aconchego das suas enormes asas.

Por tirar meu medo.

Que mulher é você…

A melhor do mundo.

 

Imagens: arquivo pessoal

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