Elas por Elas

Eu não amo ser mãe todo dia

8 de maio de 2017

por Observadora

 

Vez ou outra eu sinto falta de mim, do que eu era antes deles.

Sinto falta das unhas sempre feitas. Sinto falta de desfrutar a comida quente assim que está pronta. Sinto falta de comer porcaria sem precisar me esconder. Sinto falta de lavar o cabelo com calma.

Sinto falta de acordar a hora que eu quiser. E dormir sem sobressaltos. Na verdade, sinto falta simplesmente de dormir. Sinto falta de vestir uma roupa sem pensar se é boa pra amamentar. De abrir a geladeira sem pensar se as verduras e frutas deles estão em dia. Sinto falta da minha casa organizada, sem estar constantemente sentando em um pedaço de massinha ou pisando em um dinossauro.

Sinto falta dos armários sem travas. Sinto falta de sair sem hora pra voltar. Sinto falta de beber uma cerveja sem me preocupar em metabolizar o álcool a tempo da próxima mamada.

Sinto falta de aparecer nas fotos, e não estar constantemente atrás da câmera. Sinto falta de pensar só em mim. Sinto falta de terminar uma temporada inteira da série em uma madrugada.

Sinto falta de dormir quando a chuva cai lá fora, só porque é gostoso. Já disse que eu sinto falta de dormir? Sim, definitivamente, dormir é uma das coisas que mais sinto falta. E sinto falta de não me preocupar com identidade de gênero, o preço do feijão, a violência, a variação do tempo e o novo calendário de vacinas do governo.

O dia passa e eles finalmente adormecem. Só que aí eu sinto falta DELES.

Sinto falta da risada que enche a casa de alegria. Do “ai mamãe!” disparado a cada novidade. Sinto falta do encantamento nos olhinhos quando eu seguro uma centopeia na palma da mão. Dos gritinhos de euforia quando eu digo “bom diiiiiiaaaa!”. Dos chinelos espalhados pela sala. Do barulhinho dos pezinhos que correm ao meu encontro. E de todo aquele amor que só vem deles.

Sinto falta de ser o abraço seguro. De ter o beijo que cura o dodói. Sinto falta de ser quem sabe consertar tudo – mesmo que isso seja verdade apenas aos olhinhos deles. Sinto falta do quão incrível eles acham que eu sou.

Então eu lembro que tem uma coisa que eu só ganhei depois deles: amor. Daquele tipo incondicional, que se mantém quando você não merece nada. Eles me amam quando eu não quero brincar. Me amam quando eu não tenho paciência na hora de dormir. Me amam quando eu não faço nada de bonito por eles. Para além das condições, eles sempre ME AMAM.

É, eu não amo ser mãe todo dia. Mas toda noite eu durmo agradecendo por ser.

Bruna Estrela é doula, consultora em amamentação e educadora perinatal.

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Edição: Josilene Corrêa

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