Elas por Elas

Fios de Cabelo

11 de setembro de 2013

por Observadora

Imagens: Reprodução

Por Angélica Alves

No ano de 1993, eu trabalhava em uma secretaria de um hospital, como recepcionista. O setor era o de emergência.

Certo dia recebi uma adolescente que usava um certo aparelho de metal na cabeça, na região do crânio. Aquela imagem me marcou muito. Soube depois, de modo indireto, que aquilo era um recurso médico para atender a um tratamento. Aquela adolescente fora vítima de um acidente, quando perdera os seus longos cabelos e essa perda atingira o couro cabeludo.

Impressionada, sensibilizada com aquela situação, na minha convivência com médicos, cheguei a perguntar sobre a possibilidade de um implante. A resposta veio um tanto confusa pra mim, pois, só havia a possibilidade de ser usado o tecido da própria pessoa para o enxerto do couro cabeludo, quanto ao implante capilar corria-se o risco de uma rejeição. Mesmo assim, no futuro, o uso de peruca ou chapéu, seria uma necessidade, sem falar no acompanhamento psicológico que o caso exigia.

Apeguei-me aquela paciente e esforcei-me para ajudá-la, transmitindo-lhe calor humano. Senti que meu esforço não atingia o objetivo, por mais que eu me dedicasse a isso. Acomodei-me com o conformismo de apenas acompanhá-la, com sorrisos e frases de estímulo, sem a diretividade de procedimento.

Anos depois, assistindo a um programa de televisão, tomei conhecimento de um caso semelhante ao daquela jovem. Numa das reportagens do referido programa havia o caso de uma jovem que tentara o suicídio por não ter os cabelos, havendo outro caso também em que a personagem, uma jovem, tinha como um sonho o ganhar de presente uma peruca. Na cidadezinha a que o fato se referia, existia um grupo de jovens, bonitas, conhecidas como escapelpeladas, consequência de acidentes no trabalho que realizavam em barcos, arriscando a própria vida. Algumas dessas jovens quando não perdiam alguma parte do seu corpo, sofriam a perda dos cabelos, o que lhes arrastava para a depressão.

Esses fatos me conduziram a uma reflexão: possuidora de longos cabelos, será que eu poderia ajudar numa doação a alguém, numa entidade que estivesse a precisar desses cabelos?

Parti para a ação. Tive o apoio da minha família. Algumas amigas, entretanto não entendiam o meu pretenso gesto, mas, mesmo assim, prossegui na minha intenção.

Encontrei graças a um companheiro de jornada que realiza trabalhos voluntários, uma pessoa que se dedica a levantar a autoestima de pacientes que se submetem à quimioterapia. O apoio foi muito legal para mim, era um reforço de alto valor, juntamente com a minha família. A confecção de uma peruca era uma das necessidades para a doação e foi aí que uma dificuldade de interpôs nessa trajetória. Não encontrei receptividade para a confecção de uma peruca, mesmo pagando pelo serviço, as artesãs somente queriam comprar os meus cabelos. Havia uma diferença: elas queriam comprar, eu simplesmente queria doar, num gesto que o meu coração exigia.

Nesse mesmo tempo eu tinha uma grande estima por uma vizinha que se encontrava hospitalizada, em fase terminal, com câncer. Dias antes de sua morte, fui, como de costume, visitá-la. Minha tristeza foi grande ao perceber que ela não me reconhecera , chegando a perguntar: – Quem é essa moça?

Essa senhora sabia da minha intenção de doar os meus cabelos e eu a considerava uma segunda mãe. Tive a inspiração de colocar uma das minhas tranças em sua mão e brinquei, como sempre o fazia, dizendo, carinhosamente: – Eu sou Rapunzel, não lembra?

De repente, ela não somente lembrou-se de mim, mas de toda a minha família e começou a falar como se despedindo, ainda mandando por mim, um recado para o meu irmão, para que ele fosse vê-la, pois ela logo iria viajar… e precisava conversar um pouco com ele, recado esse que ele atendeu. Dois dias depois de sua “partida”, eu não conseguia fazer tranças, nem ao menos dormir com elas.

No dia 04/04/08 cortei meus cabelos, “bem curtinho” e fui direto ao Hospital do Câncer, com fios e mais fios amarrados e dentro de uma caixinha de presente, para realizar um sonho que, para alguns fosse simples, mas que, para mim tinha um profundo significado pelo objetivo de amenizar a tristeza de alguém que não tinha mais os cabelos.

No caminho – trajeto para o hospital – , meditei ainda, por alguns momentos, se aquilo era de algum valor . A resposta veio clara: – Pensa na alegria que vais proporcionar a quem receber tão belo presente, partido das profundezas do teu coração…

Será que, devido à violência do cotidiano, o belo ato de doar os órgãos após a morte não está contido na falta de coragem de ajudar o próximo, quando, justamente, a essência da  vida está em nossas mãos? Ou a forma de doar é apenas uma opção?

 

 

 

 

Angélica Alves,

Voluntária.

 

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