Elas por Elas

Grata pelos nãos

26 de julho de 2017

por Observadora

Créditos: Freepik

Discurso de agradecimento: Oscar, Emmy, Jabuti, Nobel, tanto faz. Já iria preparada, lógico, papelzinho na mão pra não esquecer de ninguém. A estatueta meio trêmula numa mão, enquanto começaria a lista.

Obrigada a você que me disse não.

Você, meu primeiro crushzinho de colégio, que me disse não e me libertou de escrever seu nome dentro de coraçõezinhos em folhas de caderno e nas paredes da escola. Era um nome grande, chato de escrever, e a fila precisava andar.

A você, que recebeu meu currículo numa concessionária, num escritório, numa loja de shopping e em tantos outros lugares e me recusou uma vaga porque eu era inexperiente demais, jovem demais, embora cheia de energia porque desesperada para ganhar algum dinheiro. Se não fosse você me negando essa oportunidade, eu não teria criado o sangue nos olhos e o tempo livre para insistir na busca e entrar em empregos que tinham muito mais a ver comigo e me pagavam melhor.

Obrigada a você que me negou espaço pra crescer na sua empresa. Assim pude sair em busca de lugares com tetos mais altos, e, por que não, onde o limite ia além das nuvens.

A você que me subestimou, que achou que eu não ia a lugar algum porque “olha de onde ela VEIO, olha do que ela é FEITA”. Nada como um “você não pode, você não consegue” para me dar aquela vontade de realmente conseguir.

Obrigada a você que disse não à minha amizade. Assim me livrou de perder tempo com quem claramente não gosta de mim e me fez valorizar ainda mais as pessoas que tenho ao meu lado.

Obrigada a você que me fechou portas. A você que torceu contra. A você que virou as costas. A você que me barrou e me expulsou. A você que disse que o que eu fazia não tinha valor.

Feito Arya Stark, minha lista prosseguiria com o nome daqueles que me disseram não. Fácil lembrar, não por revanchismo, mas pela mais genuína gratidão.

Os nãos foram importantíssimos na minha jornada: me ajudaram a amadurecer, ao perceber que o mundo não está ao dispor das minhas vontades; me fizeram criativa, para buscar soluções onde não parece haver saída; me tornaram resistente, para seguir mesmo depois de bater a testa numa parede. Paredes, às vezes, estão ali para margear o caminho, não para sinalizar que ele acabou.

Os nãos que encontrei não me derrubaram. Afinal, já diria o poeta Mano Brown: “tô firmão, eis-me aqui”. Os nãos fizeram parte da sequência de eventos que me conduziram até esse momento, na exata medida de como as coisas deveriam ser.

Mesmo na minha fantasia mais megalomaníaca, no entanto, eu não teria tempo o suficiente para agradecer a todos os que me ofereceram buquês de nãos.

Acabaria lendo a lista mais curta, obrigada aos que me deram força, acreditem nos seus sonhos, etc, etc. Derramaria uma lágrima, solitária, no olho esquerdo. Thank you, thank you! Meu vestido um arraso. Palmas. Sou grata pelo não sobretudo quando aprendi a dizê-lo.

Não estou a fim de sair hoje, foi mal. Não estou disponível. Não vou poder fazer isso. Não quero. Não curto. Não me chame assim. Não me interrompa, não terminei de falar. Não sou obrigada. Não sei. Não.

O não protege meu tempo, o não me lembra quais são minhas prioridades, o não impede que pisem em mim.

Quando estava sendo alfabetizada, aprendi a escrever “não” antes do “sim”. Gostava do til. Uma palavra que equilibrava uma minhoquinha sobre a cabeça, claro que me interessei mais. Pena que demorei tantos anos para aprender a usar a palavra.

Sabe como é, mulher que diz “não” não é de bom tom.

Pra esses, tive que aprender outra palavra: foda-se.

Texto Originalmente publicado pela escritora Aline Valek na newsletter Uma Newstletter #8.

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