Elas por Elas

Há 360 horas sem açúcar

22 de abril de 2014

por Talita Corrêa

A conta é simples: 360 horas sem açúcar são 21.600 minutos sem açúcar. Esse é o tamanho do meu esforço. Para uma compulsiva por doces, não existe trégua. O café da manhã, o pós-almoço, o lanche, o jantar e os intervalos da insônia são pretextos de importância igual para uma sobremesa indecente.

Eu assumo: sofro de vício autocomplacente. Se o dia vai mal, eu me permito uma barra de chocolate. Se a boa notícia chegou, eu comemoro com sorvete liberado. Se as coisas estão incertas, eu me equilibro com um pedaço generoso de bolo… E é desse jeito que sigo as semanas, disfarçando, cheia de artifícios, minha própria dependência.  A mulher que nunca agiu assim, pelo menos uma vez na vida, que atire o primeiro muffin! Somos, no fim das contas, todas reféns de nós mesmas.

Acontece que, perto dos 30, metabolizar tanto açúcar vira missão mais difícil para o corpo. O sinal de alerta acende, nos fazendo parar e pensar: “Tá na hora de levar minha saúde a sério”. E, olha, sem hipocrisia? É claro que o culote, a celulite e aquela papada ajudam a gente a cair na real. A cair, a chorar as pitangas e a se levantar, porque a maturidade também ensina que a nossa beleza é só nossa, tem nossa identidade, carrega nossas imperfeições e não pode ser inventada e nem sugerida por ninguém.

Sou buchechuda, quartuda e de cintura fina. Já fiquei magrela, já fiquei fofinha, já fui a típica “mulher 38”. Já fiz dieta para engordar, já fiz dieta para emagrecer, já fui mais sedentária, ja fui mais ativa, já fui mais natureba. Tive um corpo ideal para cada Talita e para cada idade. Mas jamais vivi sem doce. Há 15 dias tive um insight.  Era quase madrugada quando saí de casa para comprar chocolate. Ou comia KitKat ou morria. No outro dia, sob argumento de forte TPM, comi um pote de Nutella sentada no sofá. Me perguntei se valia a pena esse negócio de ser escravo do que a gente quer.

Meu sistema límbico respondeu que não. Há outros meios mais felizes de estimular a produção de serotonina. Sexo e exercícios, por exemplo. Ao contrário do açúcar, nenhum dos dois pode causar disbiose intestinal, cansaço, sonolência e queda de energia, baixa resistência imunológica e obesidade central (e consequentemente possibilidade de hipertensão; resistência insulínica; diabetes tipo II e doenças cardiovasculares).

Ufa. Resolvi me testar. Apostei comigo que sobreviveria nesse mundo amargo com menos doce, com menos compulsões e com menos desculpas dramáticas para não me cuidar.  Hoje eu sonhei com brócolis. Brócolis ao alho e óleo num prato fundo de sopa. Dizem que quando um idioma novo finalmente “entra no seu cérebro”, você começa a sonhar com ele. Acho que a mesma regra vale para dietas. O problema é que a gente, sempre dependente autocomplacente, muitas vezes nem chega nessa fase, desistindo bem antes.

“Poxa, mas hoje eu mereço”. Não, não merece. Não, não precisa. Aos poucos, sua consciência deixa de ser carrasca e passa a ser amiga. Para alguém, como eu, dada a exageros, é somente esse o caminho.

Não é fácil. Mas fica menos difícil mudar qualquer coisa em nossa vida quando resolvemos criar, de fato, recursos para uma reabilitação. Comigo funcionou colocar uma “agenda de exercícios” na porta da geladeira. Funcionou ler muito sobre saúde, boa alimentação, benefícios dos chás e receitas saudáveis. Funcionou ir ao médico e receber a solicitação de uma pilha de exames para que eu “acordasse”. Funcinou admitir para a família e para os amigos que eu estava em processo de desintoxicação… Mesmo fazendo tudo isso com leveza, humor e sem neuras, parece que sou outra há meses, e não apenas há dias.

Depois de superar alucinações diante da despensa, de tentar chantagear um namorado médico incorruptível e de passar por duas crises de abstinência às vésperas da Páscoa, cortei os carboidratos refinados e mantive meu quase repúdio por refrigerante. Quando bate o desespero por leite condensado, um chá docinho de hortelã  faz a vontade passar. E o organismo entende o novo jogo, mudando gradativamente minha palatividade.

Pronto. Agora são 361 horas. Duas semanas se passaram. Tês quilos indesejáveis também.

Para as observadoras que estão encarando uma fase como essa, fica a dica: divida com outras pessoas. Dividir faz bem e não engorda. O email do OF está aqui para isso… A gente vai adorar compartilhar sua história.

 

 

Siga @ObsFeminino  no Twitter e curta a fanpage do Observatório Feminino no Facebook


 

Leia também:

Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher: 'Humilhar, ameaçar, subjugar e ofender...
- Prezada noiva, seu rim direito está sendo vendido à prestação.
Saudades do tempo em que meu tempo nem era meu #diadasmãesOF

Pesquisar

Perfil

  • Ana Karla Gomes

    Editora Chefe

  • Rose Blanc

    Relações Públicas

  • Talita Corrêa

    Editora-Assistente

  • Estevão Soares

    Colunista

Arquivo

Assine nossa news e receba tudo em primeira mão

Observatório Feminino