Elas por Elas

A luta invisível das mães que desejam amamentar

10 de julho de 2017

por Observadora

Sempre ouvi de mulheres no consultório que a hora de deixar a criança sob os cuidados de uma outra pessoa e voltar ao trabalho é a mais angustiante, principalmente porque no Brasil temos ridículos 4 meses de licença maternidade. Isso significa que o mesmo Estado que te orienta a amamentar seu filho apenas com leite materno até os 6 meses também exige que você o deixe em casa ou em uma creche com 4 meses de vida e volte ao trabalho. Ou seja: ou alguém dá outra coisa pra essa criança comer ou ela vai morrer de fome até você chegar.

Considerando que com 38, 39 semanas de gestação já estamos exaustas e manter as atividades normais de trabalho se torna quase impossível. Que para garantir que a criança estará comendo outras coisas aos 4 meses os cuidadores precisam começar a dar outros alimentos 3 ou 4 semanas antes. Que, ao introduzir novos alimentos e ficar tanto tempo longe de casa, impossibilitada de amamentar, a chance da mãe não conseguir prosseguir com o aleitamento por muito mais tempo é gigantesca. Que a fabricante da fórmula de leite artificial é quem patrocina o congresso que trata da saúde da criança. Que essas fórmulas são vendidas livremente em qualquer farmácia sem necessidade de prescrição médica. Que a indústria massifica uma visão ultrassexualizada das mamas da mulher trazendo para muitas de nós grande constrangimento para amamentarmos em público. Considerando que a maior parte das empresas não reserva um lugar apropriado para que mulheres amamentem suas crias em intervalos no turno do trabalho. Que a indústria de alimentos, há décadas, vem convencendo mulheres a trocarem o peito por mamadeiras e nosso leite por fórmulas. Que o acesso à informação de qualidade sobre aleitamento é restrito para a maior parte das mulheres do nosso país.

Considerando tudo isso, o profissional que coloca a culpa do insucesso do aleitamento nas costas da mãe (que em muitos casos é uma adolescente, ou uma mulher em situação de violência doméstica, ou uma mulher analfabeta funcional, ou uma mulher que é responsável pelo sustento da sua família) é um cabra tosco, limitado e sem noção.

Texto originalmente publicado por Júlia Rocha, médica e mãe, em seu perfil do Facebook.

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