Elas por Elas

Pois mães com imaginação muito fértil sofrem mais…

17 de julho de 2015

por Talita Corrêa

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Fazer a unha no salão pode ser uma verdadeira experiência antropológica. Muitas mulheres reunidas, com tempo suficiente para discutir temas de interesse e intimidade comum. Idade, vaidade, trabalho, crise política, preocupação financeira, casa, férias, carro, pele, cabelo, cachorro, saúde. Tudo é assunto. Mas nada – nunca – é tão aglutinador quanto falar em filhos.

Duas crianças pulavam no sofá da recepção quando alguém resolveu chamar a gerente. Em cima da mesinha, do lado do sofá, havia um vaso… E na imaginação da cliente mais preocupada, aquelas duas meninas não iam demorar até fazer uma espécie de catapulta com a peça de vidro da decoração (se cortar inteiras). A gerente deu risada, agradeceu pelo aviso, mas não interrompeu a brincadeira. Jovem e sem filhos, foi rechaçada pelo grupo de mulheres tensas que faziam spa dos pés.

– Se tivesse filhos, estaria preocupada.

– É assim que as tragédias acontecem.

– Soube de um menino que perdeu um pedaço da mão ao se cortar numa mesinha de vidro de um consultório médico.

E a conversa de loucas obcecadas parecia não ter mais fim. Verdadeiro roteiro de um filme infantil de Hitchcock.

A manicure, primeira animada da fila, contou que o marido trabalha há muitos anos numa padaria pequena, dessas de bairro. Há cerca de um mês, ela foi lá buscar a chave de casa e levou o filho do casal junto. Estavam os dois conversando em um corredor quando a criança sumiu. O pai correu pra ver se o menino estava no balcão ou havia saído da loja. A mãe entrou na cozinha. Disse que, ao encontrar uma batedeira industrial ligada e ver o chão cheio de pedaços de massa crua, imaginou que o filho de dois anos havia pulado na caçarola gigante. Não tem certeza, mas acha que ouviu gritos. Correu pra cima da máquina e começou a bater desesperada nas hastes de metal. Então, ouviu o marido avisar que o menino estava lá fora, comendo um pão doce com o dono da padaria.

Eu ri alto. Fui olhada com o mesmo desprezo que recebeu a gerente sem filhos. Olhei com o canto  dos olhos e entendi que deveria ser somente solidária com o susto do grupo. Num silêncio dolorido, fingi um franzir de testa. Fui salva pela grávida que começou sua própria história e seguiu a fila:

A filha, então com quatro anos, havia acabado de tomar banho para dormir quando apareceu no quarto com uma massinha colorida no cabelo. Irritada, a mãe avisou que ela iria dormir daquele jeito. Botou a menina na cama e foi para o quarto. Tentou ler. Não conseguiu. Tentou ver televisão. Não conseguiu. Tentou dormir. Não conseguiu. Fechava os olhos e imaginava que a menina podia acabar comendo a massinha e morrer sufocada. Ou podia tentar arrancar o pedaço de cabelo com algo cortante que ela não podia imaginar o que era. Podia ficar intoxicada com o cheiro daquela massa colorida. Com medo de, no outro dia, encontrar a filha já sem respirar, a mãe levantou da cama e voltou no quarto da menina. Era quase uma hora da manhã. “Acorda. Vamo tomar banho!”, ordenou com a criança já no colo, desmaiada de sono, e sem entender nada.

Dessa vez podia ter rido, mas eu ainda estava meio por fora das regras maternas. Esperei outra mulher mais velha continuar:

Ligaram no celular dela dia desses e avisaram que seu filho havia sido sequestrado. Ela não tem filho. Só filhas. E as duas estavam em casa. Mesmo assim, disse que tremeu tanto que perdeu o chão, esqueceu o nome, e sentiu faltar o ar. Passou o dia agarrada nas filhas e, mesmo sabendo que aquele trote de presídio não tinha o menor cabimento, pediu que as duas não fossem à noite para a faculdade. “Sei lá… Aquilo podia ser um aviso espiritual”.

O epílogo daquelas mães quase escritoras veio antes da esmaltação: toda mãe é meio leoa e meio louca. Confere a respiração do filho no berço, tem medo que ele se afogue na banheira e que fale com estranhos. É a lei da sua selva, cheia de monstros e pântanos movediços. E, nesse cenário, ser mãe é paraíso tanto quanto hospício.

Cabeça de mãe é um mundo enorme, à parte, sem fim.

Quanto mais fértil for a imaginação da mãe, maior será seu sofrimento.

Eu já tenho medo.

Imagens: reprodução

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No Dia das Mães, a realidade daquelas mulheres que não querem ter filhos

 

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