Elas por Elas

Mais um ano sem ela

9 de abril de 2014

por Talita Corrêa

Quando a Habib’s lançou a esfiha em formato de coração no ano de 2005, a vida da minha avó ganhou novo sentido. Naquela altura de sua vida, aos 84 anos, seus desejos se resumiam a um Big Mac do ”Maque Ronald” nos domingos e a duas esfihas de coração no meio das tardes das segundas-feiras. “Meu amor, compra aquele lanchinho pra mim?”. Os pedidos manhosos eram feitos na surdina, exatamente como faria um ser humano com 74 anos a menos.

Com sérios problemas de audição e de memória, e dificuldades para andar, vovó já não tinha saúde para fazer seus bolos e picadinhos gostosos. Também não tinha mais condições de reforçar vestidos que se abriam, de catar fiapos pelo chão da casa, de dar carnes em segredo para o poodle ciumento, nem sequer tinha forças para relembrar que vovô “tinha uma tal”. Sobrou nos seus dias uma TV no volume máximo, muito sono, muitos cuidados médicos, muito do nosso amor, muitos pedidos e muitas perguntas. Quando se dirigia a um filho, a  um neto, era quase sempre para perguntar: ” Já almoçou?”. E a pergunta se repetia cinco ou dez vezes por dia.

Não vou mentir: adorava saber que o único nome jamais trocado era o meu. Talita era sempre Talita. A neta amada de outra vida. Mesmo sendo católica “de verdade”, era quase isso que ela me contava nas tardes em que eu me divertia esmaltando suas unhas tortas. Se ela se recusava a usar aparelho auditivo, somente eu a convencia. Se ela não queria tomar remédio, eu me fingia de magoada, e então ela se arrependia.

Vovó foi feliz como se nunca tivesse sofrido. Sempre que caía no banheiro, no chão do quarto, caía rindo. Chegava no hospital rindo. Voltava para casa achando graça do acidente e rindo. Quando eu viajei para Londres e passei meses sem vê-la, nós precisamos nos aproveitar da sua falta de memória para driblar a saudade. Ai que dó… Ela perguntava “Cadê minha netinha?”… E alguém respondia “Ué, ela veio aqui ontem”. Quando voltei da viagem, sedenta do seu cheirinho de lavanda, dei-lhe um abraço apertado, de tirar o fôlego que já nem era bom. Ela entendeu sem entender. Piscou o olho. E me amou com alívio inconsciente.

O fim da vida ensinou Dona Alice a ser feliz com pouco. Com quase nada. Com um docinho. Com um afago. Com um “Eu te amo”. Qualquer carinho na sua alma era capaz de fazer seus olhos cinzas revirarem como se fossem estrelinhas dançando numa cantiga infantil. Ela era um poço de ternura mesmo quando as pernas inchadas a impediam de sair da cama. Era um sorriso manso até quando o tal do câncer chegou e a deixou dormindo por muito tempo num hospital domiciliar. Naqueles dias, eu me sentia numa duradoura despedida. Tive a oportunidade de dizer insistentemente que eu a amava, e jamais carregarei a dúvida de ter dito o suficiente. Hoje, sigo a vida orgulhosa com a lembraça do seu amor… Com a sensação de que, para ela, eu era a pessoa mais bondosa, perfeita e amada em toda história deste planeta inteiro. Talvez, um dia, ela tenha uma bisneta com seu nome para prorrogar tanto sentimento.

Como diz minha mãe – que tem tanto, tanto, tanto, dela – , antes de ir embora vovó voltou a ser criança, no amor pelas pessoas e pelas guloseimas. Era bondade, somente. Pureza. Sobre ela, temos tantos causos, que vira e mexe nossas barrigas doem de tanto rir. Ela sofria porque não alimentávamos o passarinho de plástico da varanda. “O bichinho já nem se movimenta de tanta fome”. Ela conversava com a gravação da linha ocupada. “Oi moça, obrigada por sua atenção, eu volto a ligar”.  Ela jantava duas vezes porque se esquecia que havia acabado de jantar. Ela fazia todos os médicos novinhos se apaixonarem por ela, e obrigava estranhos a dizerem que eu era a moça mais linda que eles já tinham visto em toda a vida. “É porque você ainda não a viu de batom e com o cabelo penteado”. Ela me pedia para ir para o circo. E, meu Deus, que bom que eu a levei. Numa cadeira de rodas com direito a maçã do amor presa na dentadura.

Vovó me amou tanto uma vida inteira. Mais do que eu merecia. Me amou como se eu fosse uma princesa. A única princesa. No fim, eu a amei como se ela fosse um bebê do qual trocávamos as fraldas. Um bebê que gostava de dormir com joelhos dobrados e pés se encontrando, como se fossem asas. Por conta disso virou “minha borboleta”.

Minha borboleta voou há quatro anos. E eu ainda guardo sua aliança de casamento. Hoje, ao passar na frente de uma  Habib´s, resolvi entrar. Pedi uma esfiha de coração e descobri que elas já não existem mais. Comprei uma tradicional. Felicidade por R$ 0,69. Enquanto o garçom me assistia de longe naquele salão vazio, cortei parte da borda da  esfiha e fiz um coração. Observei aquilo por alguns minutos. Chorei por dentro. Não comi nada. E saí.

Mais um ano sem ela. Mais um dia com ela.

As únicas coisas que ela ainda não sabe: eu desisti da crisma e não sou católica. Eu também conquistei um médico gatinho. O resto eu disse.  E como é bom não se sentir em dívida com o amor.

 

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