Elas por Elas

– Marido, tô pensando em fazer uma viagem para o Marrocos…

9 de outubro de 2016

por Talita Corrêa

– Sozinha?!!!—

– Chefe, tô pensando em fazer uma viagem para o Marrocos.
– Vá com o seu marido.

– Amigas, tô pensando em fazer uma viagem para o Marrocos.
– Sozinha?!!! Vá com o seu marido.

– Mãe, tô pensando em fazer uma viagem para o Marrocos.
– Que bom, filha. Ué, vai sozinha mesmo…

É por isso que eu ainda vou tatuar a primeira letra do nome dela no meu braço. Pra lembrar de quando eu decidi estudar uns meses em Londres, e ela perguntou “Mas você conhece alguém lá?” . Eu disse  “Os Beatles”. E ela sossegou.

E de quando eu avisei que ia morar uns anos sozinha, no Rio, para trabalhar, e ela disse “Oba. Já sei onde vou passar as férias”.

E de quando eu falei que ia pro Japão, pro Uruguai, pra Porto, pra Salvador, pro Chile, pra França, pro parque da Jaqueira, pra Toritama, e ela disse “Tá. Tire muitas fotos”.

Mainha é assim. Um coruja com coragem.

Quando eu era adolescente, alguns parentes diziam que ela me criava solta demais. Mal sabiam que, bem desse jeito, eu ficava eternamente presa ao amor dela.

“Mãe, vou pintar o cabelo, vou fazer outra faculdade, vou sair de casa, vou fazer ioga, vou aprender chinês, vou casar, vou tocar violão, vou comprar um bagre”.

“Sim, vá”.  Mesmo detestando avião e preferindo a cama de casa, ela me dizia para ganhar o mundo.

Por isso mesmo que, pra mim, seu “não” era raro, mas sempre incontestável. Ela tinha medo, por exemplo, de me ver dirigir. Numa época em que perdi dois colegas em acidentes na estrada e sofri dois assaltos na faculdade e na porta de casa. Eu aceitei. E entendi.

Ela nunca disse uma palavra negativa sobre a escolha da minha profissão, nunca falou nada desanimador sobre meus namoros, cursos, amizades. Ao contrário. Sua reação era sempre “Tente”. “Você merece”. “Você pode”. “Estamos juntas”. “Você sabe”.

Ela respeitou cada “eu” que nasceu de mim ao longo dessa vida.

Me fez entender que não fui filha única, nem rica, nem poupada de todos os problemas da família. Não fui, portanto, mimada. Mas fui amada. E de um jeito encorajador.

Por causa dela, não tenho medo de nada. Nem de falir, de investir, de abrir, de fechar, de juntar, separar, de parir, de existir,  de estudar, de inventar, de mudar, de recomeçar, de falhar… Nem de viajar sozinha por aí.

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