Elas por Elas

A maternidade é minha

3 de novembro de 2016

por Talita Corrêa

liliana-beatriz

Filho, parabéns. Você acaba de chegar ao mundo. Não tenha medo. O mundo não é tão perfeito quanto as paredes do seu quarto sugerem, mas também não é tão feio quanto os noticiários da TV.

O mundo é legal. E bem grande. No dia do seu nascimento, mais umas 200 mil crianças saíram das barrigas de suas mães. O que faz de você um bebê muito amado, mas nada especial.

Dois dias antes de parir, estive num supermercado, onde encontrei mais quatro grávidas na fila prioritária. Uma delas mal tinha barriga e eu fiquei pensando em como as pessoas são egoístas. Essa raiva me deu soluço. Desculpe se incomodei você.

Fiquei mesmo meio mal humorada com esse barrigão, já que não conseguia mais usar sapato e sentia tanto sono que demorava horas para concluir sua lista de possíveis nomes.

Eu queria pensar num nome e sentir você chutar, ou sonhar com um nome, ou saber um nome perfeito lá no meu coração… Mas isso de lance transcendental não rolou.   A coisa mais mágica que aconteceu comigo nesses noves meses foi o crescimento dos meus peitos numa proporção sobre-humana.

Engravidar não é tão bacana. Me fez lembrar da cachorrinha da sua bisavó, que engravidou do cachorro do vizinho na década de 80 e não conseguia buscar as bolinhas que eu jogava sem rolar com aquela barriga gigante de nove filhotinhos.

Sim, antigamente, cachorro e gente tinham muitos filhos. Hoje, todo mundo meio que se contenta com um.

Filho é caro. Eu penso em como vou sustentar você e me dá vontade de começar a fazer arte com miçangas ou aprender a dar aulas de culinária. Eu odeio cozinha e me dei conta que não faço ideia de como se faz purê de neném.  Preciso de uma centrífuga?

Preciso de férias. Até você fazer 21 anos.  Tô achando um saco não poder fazer maratona de Netflix, porque você só chora. Queria comer duas barras de chocolate no banheiro, mas tenho medo que passe pro leite. Queria tomar um banho demorado, mas não consigo passar xampu no cabelo, porque isso significa fechar os olhos e acredito que nesse meio segundo você pode ser sequestrado.

A gente tá sempre rodeado e sempre sozinho. Ouvindo esse bando de conselho chato que não nos serve. Parecemos uma obra de domínio público. Protegidos e invadidos, como se estivéssemos em extinção.

Eu sou uma merda comum de mãe. Ontem só levantei da cama quando você gritou pela terceira vez. Coloquei em você um apelido mental que ninguém pode saber. Às vezes, tenho vontade de morder seus dedinhos de tão lindos que são, e às vezes acho que você parece com uma tia do seu pai.

Eu sou uma mulher, filho. Uma humana. Ou esse potinho de comida, conforto e mamilo ferido  que só você enxerga. Tenho consciência de que criar você não será fácil, e que ser mãe não é só incrível.

Sei disso desde o primeiro segundo, quando vomitei um misto quente pela janela do carro, às sete horas manhã, e me dei conta que precisava de um Beta HCG.

Desculpa , filho. Isso vai contra as coisas lindas que eu devia te contar até a próxima década, com seu pedacinho de cabelo na mão. Maternidade é foda. Mas acho que não quero falar “foda” na sua frente por enquanto.

Por enquanto é foda ter hemorroidas. E ter aquele cabelo oleoso que não é meu. Foi foda acordar com dor de barriga num domingo e perceber que não era dor de barriga, mas início do trabalho de parto. Foi foda fazer tanta força que parecia conseguir afundar todos os dentes molares da minha boca. E aí eu fiz cocô. Na sua frente, na frente do médico, da enfermeira, da sua avó, do seu pai. Mas foda-se. Eu sou mãe, poxa.

Filho, é sério: prefiro que você não fale muito palavrão. As pessoas não são legais com quem fala muito palavrão e usa tatuagens. Ou com quem namora gente do mesmo sexo. Mas se quiser falar, foda-se. Vou amar você mesmo assim, moleque.

Vou amar você mesmo em mim, quando meu umbigo ficou deformado e dormir de bruços pareceu luxo. Vou amar você mesmo quando, mesmo se, mesmo sempre, mesmo por onde seu caminho for. Me sinto um bicho. Uma vaca. Uma leoa. A cachorrinha da sua bisavó. Estou pronta pra tudo. Braba com tudo. Cansada de tudo. Mas tenho você. Isso é massa. Isso acalma.

E isso também enlouquece. Tenho medo do que vai ser. De você morrer com a explosão de uma chupeta, com um vírus secreto, com uma friagem, com mau olhado. Asfixiado sei lá com o quê.

Tenho medo de ter te metido numa fria. Num mundo doido, preconceituoso. Tenho medo de mim, quando não durmo mais que quatro horas seguidas e medo que percebam que sou uma funcionária dispensável no próximo mês. Tenho medo de ir embora de casa para trabalhar quando você deixar. Medo de bater na próxima pessoa que questione meu peso e medo de comer comida intoxicada e não poder te amamentar.

Tenho medo de tudo, filho. Queria um colo, dormir até meio dia e arrumar a sala de casa. Mas você me suga, me cobra, me usa, me extrapola, me sobrecarrega, me dá olheiras. E a gente segue bem. A gente se inteira. Eu sou um projeto torto de você e você é um projeto lindo de mim. A natureza fez a gente. A gente fez um ao outro e todo esse amor talvez faça do mundo um lugar melhor… Parecido com aquele das paredes do seu quarto… Que eu até hoje eu não pintei.

* Esse texto texto contém cinco mães. Minhas amigas mães. Todas mães e donas de suas próprias maternidades. Todas mães e donas de suas próprias verdades. Todas para cada uma. Uma para cada todas.

Foto: lilianabeatriz.com.

Leia também:

Dia dos Pais OF: "A última filha"
A outra
Pelo direito de desistir do que não faz mais sentido

Pesquisar

Perfil

  • Ana Karla Gomes

    Editora Chefe

  • Rose Blanc

    Relações Públicas

  • Talita Corrêa

    Editora-Assistente

  • Estevão Soares

    Colunista

Arquivo

Assine nossa news e receba tudo em primeira mão

Observatório Feminino