Elas por Elas

No Dia das Mães, a realidade daquelas mulheres que não querem ter filhos

10 de maio de 2015

por Talita Corrêa

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Entreouvido dia desses, nas escadas da academia:

– Eu não quero ser mãe.

– Por que?

– Por que o que?

– Por que você não quer ser mãe?

– Porque não.

– Nem depois?

– Depois quando?

– Mais tarde.

– Mais tarde já é agora. E eu continuo sem querer ser mãe.

Não é um diálogo típico, mas que tampouco me assustou. Faço parte de uma geração de mulheres orientadas a trabalhar, estudar e juntar as cinzas dos seus sutiãs. Mulheres que cuidam do corpo, da saúde, do bom humor, e que fizeram dos seus 30 anos os novos 20. Dos 40 os novos 30. Dos 50 os novos 40. E da vida uma decisão própria.

Nesse grupo de moças bem resolvidas, a maternidade quase nunca cabe de forma mal planejada. Ela fica ali, bem calculada entre o mestrado e a fase dos melhores óvulos.

Minhas amigas, filhas de mulheres feitas para parir, ainda se esforçam para perdoar o próprio individualismo. O direito de dizer “por enquanto, não”. Muitas delas estão casadas, formadas, empregadas, felizes, mas precisam viver desviando de foguetes como “agora só falta um bebê”.

Olha, não falta nada. Essa história de achar que filho é a cereja no bolo de uma vida perfeita, o preenchimento de um vazio existencial ou a liga de um casamento problemático é furada. Filho pode ser, sim, plano, projeto, elaboração, estudo, etapa friamente analisada… Como todas as outras coisas na vida de uma mulher. Pode ser, até, um “nunca”. O jamais. A vontade que não vem.

NoMo, ou  “Not Mothers” são os termos atualmente usados para identificar a geração de mulheres que não querem ser mães. Foi para explicar esse “movimento” que a atriz Jennifer Aniston – 46 anos e sem filhos – saiu dia desses com uma declaração genial: “Sinto ter falhado em alguma parte do meu feminismo ou em ser mulher por que não pari. Eu pari muitas coisas. Sinto como se fosse mãe de muitas coisas, menos de um filho”.

No rodapé da matéria onde li isso, encontrei dois ou três comentários que culpavam o “desinteresse maternal” de Jennifer pelo fim do seu casamento com Brad Pitt, há dez anos. Hoje, o ator é casado com a atriz Angelina Jolie, com quem teve seis filhos, e com que construiu uma certa imagem de pais perfeitos.

É justamente esse preconceito de mães contra “no mothers” que embala o berço. Quando queremos um salário igual ao dos homens, nos unimos. Quando queremos votar, nos unimos. Quando queremos viver a tal nova revolução sexual, nos unimos. Mas nos estranhamos com duas espécies diferentes quando o assunto é não procriar. Parece que alguém está querendo quebrar a corrente mais antiga da natureza. Numa traição meio desumana, meio egoísta, meio absurda.

Apesar dessa resistência, a tendência das NoMos tem ficado tão forte que, nos Estados Unidos, Reino Unido e capa sem filhosCanadá, existem grupos de apoio para as mulheres que optam por não ter filhos. O “Gateway Women“, por exemplo, oferece palestras, workshops e encontros periódicos para discutir o tema. Nessa onda, o  antigo livro “Sem filhos: 40 razões para você não ter”, da escritora suíça Corinne Maier, ganhou novas edições e cada vez mais leitoras.

As apresentadoras Ellen Degeneres e Oprah Winfrey endossam a lista de famosas que dispensam o conhecido dom maternidade e encorajam outras mulheres a aceitar o mesmo.

Os motivos podem ser muitos, ou nenhum específico. Mais liberdade, tempo e tranquilidade financeira costumam ser alguns dos argumentos das novas NoMos. Essa pode parecer uma lista de sinceridade inaceitável, mas que se torna, para mim, extremamente plausível quando eu escuto o desenrolar de conversas como aquelas das escadas da academia:

– E você não ter medo de morrer sozinha?

– Não.

Pois é. Usar filhos como antídoto para solidão na velhice também não pode ser, nem de longe, o que leva um casal a colocar uma criança nesse mundo.

Que fique registrado nosso direito de escolher ser mãe. De forma tão simples e natural como escolhemos quem vamos amar, onde vamos viver, no que vamos trabalhar.

Eu hoje sou quase esposa. Amanhã vou ser mãe. Para sempre vou ser a filha da dona Josi, aquela que me ensinou a viver neste mundo da maneira que realmente me fizer feliz. E, sem julgamentos, sem pressões, sem preconceitos, essa máxima vale para nós todas.

Feliz dia!

E Feliz vida.

 

Jennifer Aniston

Jennifer Aniston

 

 

Oprah Winfrey

Oprah Winfrey

 

 

Ellen Degeneres

Ellen Degeneres

 

 

Imagens: reprodução

Observe mais: Mães, filhas e netas: o convívio entre mulheres de três gerações

E então você se torna mãe…

 

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