Elas por Elas

O Desafio de ser mulher e negra no Brasil

20 de novembro de 2012

por Observadora

Imagem: reprodução

Por Shirley Barreto

Apesar das transformações nas condições de vida e papel das mulheres em todo o mundo, em especial a partir dos anos de 1960, a mulher negra continua vivendo uma situação marcada pela dupla discriminação: ser mulher em uma sociedade machista, e ser negra numa sociedade racista.” (MUNANGA, 2006, p. 133).

Historicamente em nossa sociedade a mulher sempre foi vista como um ser frágil e dependente do seu companheiro, onde o gênero feminino, continua até os dias de hoje, sendo discriminado, independemente de sua cor. Reflexo de um período no qual os homens sempre estiveram no poder, dominando e liderando, restando às mulheres a obrigação de atentar para os afazeres domésticos, geração e cuidados com os filhos. A partir desse papel feminino, é necessário discutir, mais especificamente, a mulher negra na sociedade brasileira. Pois a situação da mulher negra é marcada por um contexto histórico de exploração sexual, violência e não permissão do exercício de sua liberdade plena. Os anos passaram, mas a submissão ainda existe e relega seu papel a empregos desvalorizados, altos índices de prostituição, condições precárias de saúde e educação.

Verifica-se na história do Brasil, que a mulher negra escrava, quando não trabalhava nos serviços braçais ao lado dos homens, dedicava-se aos serviços domésticos, também braçais, na casa dos seus patrões, além de ocupar-se, muitas vezes, com a tarefa de ser mãe de leite, tendo que amamentar o filho alheio. Percebe-se, dessa forma, que a mulher negra desempenhava um papel preponderante na história da sociedade brasileira, mas, mesmo assim, não era reconhecida pelos seus serviços, pois não pertencia à uma classe dirigente e dominante.

A história nos mostra que a mulher negra ficou com  a responsabilidade de cuidar da casa e dos filhos de outras mulheres para que elas, as mães do lar, pudessem cumprir uma jornada de trabalho fora de casa. Sendo assim, quando se fala que a mulher moderna tem como uma das suas características a saída do espaço doméstico para ganhar o espaço público,  é preciso ponderar que na vida e na história da mulher negra, o trabalho fora de casa já é uma realidade muito antiga (MUNANGA, 2006).

A mulher negra, simplesmente por ser mulher, já não tinha os mesmos direitos que os homens, esses evidentemente homens branco. Além disso, também não possuía os mesmos direitos que a mulher branca, e por ser negra, conforme o discurso das classes dominantes, pertencia a uma categoria que não merecia tanto destaque na sociedade.

A maioria das mulheres, incluindo a mulher negra, conquistou a “liberdade” após anos e anos de submissão. Atualmente a mulher chefia mais da metade dos lares brasileiros. Ela está livre do trabalho nas casas dos senhores do café e da cana-de-açúcar, mas muitas delas estão vinculadas aos serviços informais nas casas dos grandes empresários. Contudo, vale enfatizar, que a mulher apesar de assumir hoje, cargos que só os homens angariavam há algum tempo, tem o seu salário incompatível com a posição ocupada, na maioria das vezes. Entende-se dessa forma, que as mulheres, principalmente as negras e pobres, são as mais prejudicadas em todo esse processo excludente de formação da sociedade brasileira, ao passo que a oportunidade de ascender socialmente (e se afastar do subemprego) está intimamente ligada ao cenário social, que hoje impede grande parte da população de viver um pleno desenvolvimento.

As mulheres negras que conquistam melhores cargos no mercado de trabalho despendem uma força fora do comum, sendo que algumas, provavelmente, pagam um preço alto pela conquista, muitas vezes, abdicando do lazer, da realização da maternidade, do namoro ou casamento. Pois, além da necessidade de comprovar a competência profissional, têm de lidar com o preconceito e a discriminação racial, que lhes exigem maiores esforços para a conquista do ideal pretendido. A questão de gênero é, em si, um complicador, mas, quando somada à da raça, aumenta ainda mais o grau de dificuldade entre as suas agentes.

Ou seja, quem teve maiores oportunidades no processo de formação da sociedade brasileira, terá maiores chances de galgar cargos e empregos melhores. Nesse sentido, se grande parte das mulheres negras do Brasil são pobres, elas não estão numa posição social equivalente a da minoria branca dominante. Até porque essa minoria branca sempre esteve respaldada por outra minoria branca que historicamente se perpetuou como classe dominante do Brasil.
Mesmo com todas as conquistas delas, como o direito moral de sair às ruas e protestar, o de exercer a cidadania através do voto, o de concorrer a cargos políticos, etc.,  a mulher ainda é vista como um ser frágil a ser conquistado, e um fetiche para a sociedade machista. A imagem feminina é utilizada como instrumento para o comércio, servindo apenas para fortalecer o papel de domínio do homem sobre a mulher, contribuindo para o aumento dos índices de  violência doméstica.

O gênero feminino pode ser considerado um dos grandes exemplos de superação para algumas categorias de classe que lutam por direitos. Por isso se a mulher estiver representando uma categoria, e essa categoria for negra, pode-se dizer que elas são exemplo de luta. As mulheres são tão capazes de participar das decisões de interesse coletivo, quanto os homens.

Não se pode tratar a questão racial como elemento secundário, destacando apenas a problemática econômica. A posição social do negro não se baseia somente na possibilidade de aquisição ou consumo de bens. Ainda há uma grande dificuldade da sociedade brasileira em assumir a questão racial como algo que precisa ser enfrentado. Enquanto esse processo de enfrentamento não ocorrer, as desigualdades sociais continuarão, e com tendência ao acirramento, ainda mais quando se trata de igualdade de oportunidades em todos os aspectos da sociedade.

A discriminação racial na vida das mulheres negras é uma constante; a despeito disto, muitas constituíram suas próprias estratégias para superar as dificuldades e vencer na vida.

 

 

 

 

 

 

Shirlei Barreto é negra, Bacharel em Direito, Doutoranda em Direito Civil pela Universidad de Buenos Aires, Professora Universitária e Coordenadora de Educação Ambiental do Município de Jaboatão dos Guararapes-PE.

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