Elas por Elas

O surpreendente intercâmbio entre o silêncio de uma universidade parisiense e o barulho do morro do Vidigal

29 de janeiro de 2015

por Observadora

Eu tive a oportunidade de dar aulas de teatro em francês a um grupo de comediantes da escola “Nós do Morro”, no Vidigal, zona sul do Rio de Janeiro, uma vez por semana durante quatros meses. No início, a ideia veio da ONG « Passe-sport », uma instituição francesa cuja ambição é desenvolver a língua francesa nas favelas cariocas pelo meio de atividades artísticas e esportivas.

Sendo uma franco-brasileira criada em um ambiente sociocultural forte, esse projeto tinha tudo para me desafiar e muito para me surpreender. Eu estava longe do silêncio da minha escola parisiense e perto demais do barulho incessante da favela, que teria sido um problema onde me formei. Imagino meu professor, tão acadêmico, virando louco aos sons das buzinas, do funk e dos pedreiros falando alto enquanto bebiam chopes.

Estava bem surpresa como os alunos estavam cômodos com a situação, eles nem ligavam para tanto barulho, seguiam as aulas sem prestar atenção para isso. Parei para pensar que sempre fui acostumada com meu conforto sonoro, mas tive que colocar de lado minhas exigências parisienses para ficar focada no meu papel de professora. Os estudantes sequer chegavam na hora, porém iam com o jeitinho carioca e, também, se esforçavam para respeitar minhas regras.

Eu pude dividir minha experiência com Caroline Lefer, outra franco-brasileira que virou carioca da gema e acompanhou o projeto para um documentário. Estávamos felizes por trabalhar em um lugar tão encantador, pela beleza e a vista incrível do casarão, mas, sobretudo, pelos alunos tão dedicados e animados com o que tínhamos a oferecer. Todos sonham em, um dia, passear nas ruas parisienses, quem sabe atuar em um filme francês. Porém, para que isso aconteça, precisaria de mais tempo e orçamento.

Infelizmente uma vez por semana é muito pouco para que eles se tornem fluentes em francês. Uma aula de francês, teatro e de vida. Desde já, estou muito impressionada e orgulhosa com o desempenho deles. Conseguimos combinar o ensino teórico do francês na prática teatral. Sempre iniciamos as sessões com duas horas de francês e emendamos com duas outras horas de teatro, relacionadas aos precedentes assuntos.

Como era muito cedo para jogá-los em improvisações de autores contemporâneos, trabalhamos em cenas da vida quotidiana: como encontro romântico, divórcio, briga e outros momentos universais. Os alunos demonstraram gostar muito desse intercâmbio cultural, descobrir uma mentalidade diferente e confrontar-se com uma outra filosofia de vida. Com o curso, houve uma melhoria nos seus currículos e sonhos de outros horizontes. No final dessa aventura humana, tanto nós quanto eles queríamos mais.

Mais conhecimento de cada cultura, mais abertura ao mundo, ideias e esperanças. Essa aventura só nos fez crescer e nos deu mais vontade de ir além. Descobri que a gana está em cada um de nós, só faltam os instrumentos para continuar: tempo e material.

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ndm (570x428)Imagens: arquivo pessoal

 Marion Marquer é francesa e graduada na tradicional Universidade de Paris-Sorbonne

 

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