Elas por Elas

Outubro Rosa: e quando o câncer surge pela segunda vez?

9 de outubro de 2015

por Observadora

Eu estava lá no meio da floresta, feliz que só. Do nada, senti uma dor que não me deixava levantar, a pressão baixou, vomitei, um roxo apareceu na barriga, mas estava tudo bem. Horas depois, estava tudo igual, eu já estava pulando no rio de novo, a coisa estranha era minha menstruação que tinha vindo tão pouco e nem era lua cheia, eu já sabia…. Tinha algo errado ali.

Voltei para São Paulo, precisava lavar as roupas e preparar a mala de novo, planos dando certo, cabeça ocupada, não ia estacionar em São Paulo, estava indo pro mar. Tinha um compromisso de um mês com as baleias, minha nossa como esperei por esse momento: reencontrar as baleias, as pessoas todas que conheci naquele sul da Bahia.

Planejei dez dias em São Paulo para organizar tudo, tinha consulta com o médico da reconstrução plástica, a gente ia conversar sobre qual maneira colocar um silicone. Foda ficar com um peito só, é meu direito garantido pelo SUS… Ia rolar também um exame de sangue com a oncologista. Ela precisava me receitar mais três meses da hormonoterapia e tchau, consulta de novo com a oncologista só dali a três meses. Estava tudo tão bem, seria rapidinho e “tchau, hospital”, “tchau, São Paulo”, “tchau, medo”. Minha disposição era ótima, sem dores, sem problemas, nada. Precisava passar na zona cerealista para levar umas comidas pra viagem e, talvez, comprar uma papete nova para trilhas, eu ia de ônibus pra Bahia, 20 horas de viagem, sairia dia 6, ao meio-dia, reserva feita. Tudo certo!

Cheguei na sexta em Sampa, no sábado, encontrei a Amandinha, vi rapidinho as meninas da Marcha. No domingo, fui no Jazz com a Geinne, Aninha e Thatha, todo mundo com disposição de se abraçar de vibrar, eu tinha só 10 dias lá e precisava usar muito bem cada minuto. Mas senti algo de errado durante todo final de semana. No domingo, especialmente. Fui acordada pela dor, às 6h manhã, um calombo na minha barriga e doía, não conseguia me mexer, durou uns 30 minutos até meu corpo se acalmar e eu voltar para as atividades normais, mas o calombo ficou lá. Achei que era algo no útero, já era quase lua cheia a menstruação não dava sinais, aquele calombo estava estranho demais. Lá no Jazz do dia 23, um desconforto para andar, sentar, aquela dorzinha e aquele calombo. Saí do Ibirapuera antes das bandas terminarem, estava uma bagunça lá, tava ruim, muito barulho, galera mucho loca e eu cismada…

Acho que eram umas 19h e decidi ir pro hospital, começaram a injetar remédio de dor, antialérgico e os remédios para contornar os efeitos colaterais uns dos outros, comecei a ficar sonolenta, quase não consegui avisar minha mãe que saí para ir num show e iria ficar no hospital aquela noite, não me deixaram ir embora nem naquela nem nas outras sete noites que seguiram, me internaram lá e eu só pensava que precisava lavar roupa para poder viajar de novo.

Primeiro um ultrassom, depois raio x, tomografia, milhares de exames de sangue, 6 tipos de drogas na veia, dois via oral e uma injeção muscular, até que comecei a pensar e recusar… Decidiram a biópsia e me deram alta dois dias depois, no dia que Dona Luzia (a senhora que dividia quarto comigo) faleceu.

Eu tinha a consulta com a onco, lembra? Era só para me receitar o remédio para mais três meses, mas, agora, ela iria conversar sobre o resultado da biópsia também… Ela me disse que o resultado final ainda iria demorar uns dias mas tinha saído uma prévia:

– Mas, doutora, você não acha que pode ser verme? Estive andando descalça com as crianças …
– Sinto muito, não é verme.
– Um cisto? Endometriose? Apendicite? Uma inflamação? Gravidez tubária?
– Não, Ju, é uma massa se multiplicando e crescendo rapidamente…
– Tudo bem, tenho uma viagem marcada para a Bahia domingo, é um trabalho de um mês, então quando eu voltar…
– Ju, podemos começar a químio amanhã, tudo bem?

Ao que tudo indica, um carcinoma com origem ovariana com extensão para o peritônio. Ainda não sabem se é uma metástase da mama ou um novo tumor, mas a droga, segundo os médicos, é a mesma.

Fui pra químio como quem vai pro abate, aquela rotina de senha, o 11º andar, os protocolos, as enfermeiras, aqueles pacientes todos, pacientemente, aguardando sua vez. Em cada segundo, desde a voz da médica dizendo “podemos começar amanhã” até a hora que aquela químio entrou no meu corpo, eu tive vontade forte de recusar o tratamento convencional, eu só fazia chorar, só conseguia pensar que estava no lugar errado, fazendo a coisa errada, estava difícil demais raciocinar, tentei falar com algumas pessoas, pedir opiniões sobre alternativas de tratamento e sobre eu ir viajar mesmo doente porque a gente não sabe se vai conseguir superar o tratamento, mais uma vez.
Pode acontecer qualquer coisa, especialmente eu ficar louca.

Qualquer um sabe que morre-se mais da químio do que do câncer. Os efeitos colaterais dessas drogas podem levar até a falência de órgãos, é assustador.

Não tive coragem de recusar a químio, não tenho segurança que conseguirei fazer um tratamento que acredito muito profundamente e que é infinitamente menos tóxico. Mas, infelizmente, eu não tenho autonomia para decidir que tratamento eu quero, meu país não me dá esse direito, o Sistema Único de Saúde me dá duas opções ou o convencional ou esperar esse câncer tomar conta do meu corpo.

Eu tenho medo de morrer, tenho muito medo, não porque eu acho que vou pro inferno ou porque não sei o que vem depois. Eu só acho que queria fazer mais coisas aqui na Terra ainda, sabe? Ver mais coisas, coisas boas, só que tem um alien crescendo na minha barriga e acredito que a químio pode ser ineficaz e me causar muitos danos.
Acredito que outras drogas naturais possam me curar.

Acho que quem lê pode pensar que já estou maluca, irresponsável…. Só sei que, daqui a 15 dias, estarei careca de novo, estarei fraca, lutando para que minha imunidade resista, torcendo para que todos os efeitos colaterais não aconteçam porque me submeti a um tratamento indicado por protocolos padrões que sustentam uma indústria farmacêutica milionária e não estão dispostos a alternativas, não estão dispostos a questionar, a sair do padrão.

Aí, depois de toda minha desconfiança sobre o que acontece nos hospitais, os caras me mandam uma banana e tentam me fazer acreditar que é um mamão.

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Vamos lá, desistir nunca foi uma opção.

Imagem: arquivo pessoal

Juliana Molás é bióloga, teve câncer de mama e, atualmente, enfrenta o retorno da doença. Ela fala sobre suas angústias, anseios e esperançar no blog Cura

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