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Pais separados, filhos problemáticos?

28 de abril de 2014

por Observadora

O casamento ainda faz parte dos sonhos de muitos casais, mas a incidência de divórcios é assustadora. E isso vem provocando uma mudança na vida dessas famílias, que mesmo sem querer, se tiverem filhos, continuarão  juntas, unidas pelos filhos que não têm culpa se o casamento dos pais não deu certo. Por mais que os pais sofram, são os filhos os grandes prejudicados.

E como ficam as cabecinhas das crianças que de uma hora para outra veem seus lares transformados em dois e suas famílias divididas em duas?

Segundo a psicóloga Ylia Nadine : “O divórcio parental vem se tornando prática comum em nossa sociedade; a tal ponto que podemos nos referir como vivenciando uma “cultura do divórcio” e, na grande maioria das vezes, se caracteriza como a primeira grande mudança na vida dos filhos  – mudança geradora de conflitos,  insegurança, medos  – é a ruptura do núcleo familiar. Associados ao divórcio parental estão os conflitos parentais  e estes, podem ser os grandes vilões que interferem no desenvolvimento e no bem-estar dos filhos”.

Para a psicóloga: “O divórcio mais que um fato isolado, é um longo processo de mudanças que exige uma série de adaptações ao longo do tempo, no entanto, será o comportamento dos cônjuges que irá determinar essas adaptações à nova realidade assim como, um desenvolvimento psicológico construtivo ou destrutivo. Não é a dissolução do núcleo familiar que determinará o desenvolvimento dos filhos, mas a redução do conflito entre os cônjuges de forma a gerar condições para  desenvolvimento de uma relação co-parental  positiva e o envolvimento de ambos no cuidado com os filhos e, dessa forma, permitindo que os laços de afetividade permaneçam firmes. Essa é uma necessidade tão imperiosa que nossa Legislação prevê a guarda compartilhada onde não há regulamentação de visitas nem limitações de acesso aos filhos.
Cabe assim, aos pais, unidos ou não, a responsabilidade da construção do perfil psicológico no desenvolvimento de seus filhos”.

Muitos refazem suas vidas e se casam novamente e aí vêm outros filhos ou são adicionados os dos parceiros. Mudanças dos tempos… Na verdade, nossos pais, muitas vezes se submetiam a viver juntos até o resto de suas vidas por comodismo, por tradição, por muitos outros motivos, mas poucas vezes por amor. Os casais de hoje, apesar de muitos serem impulsivos e não saberem viver com as adversidades, não aceitam o fato de continuar casados por conveniência. Preferem a separação, mesmo que isso signifique um recomeço difícil e traumático para os filhos.

Talvez o modernismo de hoje em dia atrapalhe os relacionamentos, talvez as traições de ambos os lados, as brigas, as dificuldades levem os casais a questionar se vale a pena continuar casado se a felicidade não é a mesma. Talvez seja mais conveniente chutar o balde e tentar um novo relacionamento, que também poderá não dar certo se os problemas anteriores forem levados junto. As pessoas não mudam, embora tentem se adaptar ao parceiro. Ocorre que no início tudo são flores e tentam esconder seus defeitos e se apresentam maravilhosos, quando na maioria das vezes não são. Tento entender essas mudanças, até porque também já passei por elas, mas é difícil. Só quem viveu uma experiência semelhante pode entender a razão que leva principalmente a mulher, a desistir dos seus sonhos de viver um “para sempre”, que muitas vezes dura bem menos que sete anos, a data perigosa em que muitos casamentos não conseguem chegar. As mulheres antigamente se submetiam a seus maridos porque não trabalhavam, porque não queriam perder seu padrão de vida, porque não queriam se transformar em mulheres separadas, tão marcadas pela sociedade da época. Hoje a história é outra. Hoje é bem mais comum a separação a pedido das próprias mulheres, quando se descobrem traídas, quando percebem que seu esperado príncipe encantado não passa de um homem comum e cheio de defeitos, ignorante, impaciente e muitas vezes, violento.

Outro dia uma amiga comentou comigo que o seu filhinho estranhou quando soube que um coleguinha morava com o pai e a mãe. Isso porque, a maioria tinha os pais separados e se dividia entre os dois. Mas o que será que isso representa na cabecinha das crianças? E, futuramente, restará algum trauma disso tudo? Acredito como bem disse a psicóloga Ylia Nadine, que se forem bem trabalhados psicologicamente, nem tanto. E se conviverem com harmonia, sem brigas, poderão se transformar em pessoas sem muitos problemas ou com os problemas que todos têm, sejam filhos de pais separados ou não.

Tive minha parcela de inconsequência e impulsividade que me renderam alguns atropelos na vida. Aos 30 anos, me vi divorciada e com dois filhos pequenos – um filho de quatro anos e outra de nove meses. E mesmo com a educação rigorosa que tive, enfrentei os preconceitos e a censura dos que não aceitavam o fim do meu casamento e preferiam que continuasse casada, mesmo infeliz.

Sofri muito mais pelos filhos que sentiam a ausência do pai do que por mim mesma. Enfrentei a todos com coragem e a certeza de que cabia a mim a decisão de continuar ou não um casamento que não tinha dado certo.  Os conselhos foram muitos, os exemplos também, mas a decisão estava tomada.

Assim, posso dizer o que a separação representou na vida dos meus filhos. Talvez, se fossem adolescentes na época, tivesse sido mais difícil. Muito embora, perceba neles, depois de crescidos, que ficou alguma coisa em seus comportamentos resultante dessa experiência, que se não foi traumática, certamente, não foi uma época legal. Afinal, por mais que tenha me desdobrado tentando compensar a ausência do pai, sei que nunca é suficiente. Mas tenho consciência de que amor não lhes faltou e que, apesar do declínio econômico, procurei dar o que me pediam, muitas vezes não tendo dinheiro suficiente para isso. Muitos foram os natais em que não tinha dinheiro para comprar roupas novas para mim, mas o Papai Noel não lhes faltou. Lembro-me disso sem tristeza, porque para mim o importante era que se sentissem felizes. E graças a Deus, tenho ótimos filhos, que são meus amigos, e essa é a minha maior recompensa.

Conheço casais que se separaram quando os filhos eram adolescentes e isso gerou muitos problemas. Eles são bem mais difíceis de entender uma separação. Cobram mais, exigem mais e não se conformam em ver os pais seguindo caminhos opostos. Como por si só, a adolescência já é uma época difícil, apresentam-se arredios e rebeldes ao ver os pais separados.  E a situação se complica, se os pais decidirem casar de novo. Geralmente implicam com o novo parceiro  e dificultam a engrenagem desse relacionamento. Mas essa não é a regra geral, pois também conheço casos em que os filhos convivem perfeitamente bem com essa nova realidade familiar. Tudo depende de como os pais lidam com essa mudança. Quando um dos cônjuges ainda tem interesse no parceiro, transfere isso para os filhos, que muitas vezes se transformam em aliados, na tentativa de “trazer” o pai/mãe de volta. Aí fazem chantagem e rejeitam quem acham que foi o culpado dessa ruptura.

Como se pode ver tudo pode acontecer quando se trata de uma vida a dois que se desfaz. Com muita sorte e jogo de cintura, se consegue refazer a vida, mas também é certo que quando os filhos não aceitam o novo parceiro dos pais, tudo se complica e, provavelmente, a tendência é que a relação termine ou que os filhos se afastem e queiram viver com os avós. Mas vale ressaltar que, cada caso é um caso. O importante é sentar, conversar e tentar mostrar aos filhos que tem direito de refazer sua vida e ser feliz. Eles também serão adultos e entenderão melhor o que é viver a dois.

 

Josilene Corrêa  é jornalista e já escreveu para o OF  artigos como:

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Imagem: reprodução

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