Elas por Elas

Parto normal: relato de uma experiência única

2 de setembro de 2015

por Observadora

A gravidez me caiu como uma luva. Tive meus enjoos no início e até um cálculo renal, que precisei retirar por cirurgia com apenas 12 semanas de gestação. Depois disso, meu corpo só aproveitou. Mesmo tendo problema de coluna, não tive dores, mesmo sendo sedentária há um bom tempo, não tive grandes indisposições. Dormi bem até o dia em que minha bolsa rompeu. Foi uma bênção. Só faltava uma coisa para o momento tão esperado de conhecer meu filho: o parto.

Eu me preparei o quanto pude. Mas, na verdade, nunca fiquei com paranoia por não poder ir às reuniões – em que experiências de partos e maternidade eram trocadas, eram muitas conversas enriquecedoras, com certeza. No fundo, eu entendia que era parte da minha natureza. Que, de alguma forma, estando cercada das pessoas certas para aquele momento, o parto não tinha muito segredo. Era mesmo uma coisa instintiva. E foi.

Eu estive calma e consciente durante boa parte do tempo. Até o momento em que não era mesmo para estar. Tinha ido dormir talvez mais relaxada do que nunca. Conversando com Arthur sobre o futuro, sobre o nosso filho, sobre o quanto nossas vidas mudariam, o quanto estávamos ansiosos por conhecer nosso Pedro. Havíamos sonhado com ele em noites recentes. Estávamos prontos, dispostos e unidos para o que viria a seguir, éramos família.

No meio da noite, acordei sentindo um pouco de líquido. Estranhei a quantidade. Muito pouco para ser todo o conteúdo da bolsa, mas sabia que poderia sair de uma vez ou aos poucos. 1:30 da manhã. Achei melhor avisar a Arthur, mesmo ele tendo o sono mais pesado do mundo. “Arthur, minha bolsa rompeu. Saiu pouco, mas tenho certeza”. “Tá certo, Déa” – e volta a dormir. 2:15 eu sinto uma dorzinha, ainda fraca, mas sabia que era o prenúncio do parto. Que Pedrinho chegaria naquele dia, no mais tardar no dia seguinte. Tentei falar de novo com Arthur: “Amor, você entendeu quando eu disse que minha bolsa rompeu, né?”. Arthur abriu os olhos e quase deu um salto da cama: “Não!!” Eu disse: “foi, mas as contrações estão muito fracas, espaçadas e irregulares ainda. Vamos voltar a dormir, né?” Ele se acalmou. Sorriu. “Pedrinho tá chegando” – concordamos. “É, vamos dormir”. Mandei uma mensagem para Drica, minha doula. Que logo respondeu: “Isso, flor, dorme, descansa e bebe bastante água”.

5h30: acordo com algumas contrações ainda fracas. Arthur acorda comigo. Ele tem muita energia. Quem conhece sabe. Disse a ele que fosse correr, que eu tava bem. Que tinha falado com Diana – minha irmã que estaria presente no parto – e Drica. Que logo elas estariam aqui por casa. Ele perguntou se eu tinha certeza. Eu disse que sim, que tava tudo ótimo. Pouco depois chegou Diana, e Arthur saiu para correr. Ela me deu um abraço bem forte quando abri a porta. Todos estávamos um pouco emocionados, um pouco ansiosos, felizes mesmo. Di fez um suco. Tomei e fiquei relaxando no sofá, tentando medir o tempo entre as contrações, mas às vezes eram tão fraquinhas que eu ficava em dúvida. Pouco depois Arthur voltou, tranquilo e relaxado de ter corrido. Disse que a cabeça estava a mil enquanto ele corria. Pensando na gente. Mais tarde chegou Drica. Novamente, nenhum sobressalto, nenhuma correria, só a empolgação de estar prestes a conhecer Pedrinho.

Liguei para a obstetra “reserva” – recomendadíssima pelo meu obstetra, que estava viajando. Confio tanto nele que, por tabela, nem estava preocupada. Mas quando falei com ela, às nove, ela disse: “ainda vai demorar um pouco para começar a fase da dilatação mesmo. Descansa, relaxa, come, junta forças. Doutor Renato está chegando daqui a duas horas. Com certeza dá tempo de ele fazer o seu parto. Mas qualquer coisa fora do previsto nesse meio tempo pode me ligar”. É… Pedrinho parece que foi cronometrado. Em diversos aspectos.

Eu estava muito calma mesmo. Tinha lido, tinha me preparado mentalmente e até fisicamente. Até a semana anterior eu andava duas ou três vezes por semana na jaqueira. Fiquei em casa enquanto as contrações iam ganhando intensidade e seu intervalo diminuía. Arthur fez comida para todo mundo. Drica fez massagem nos meus pés. Diana conversava comigo, todo mundo tão carinhoso que era impossível eu me sentir angustiada ou algo do tipo. As horas passavam. Eu ouvia música, conversava, comia mais um pouquinho, a gente brincava de comparar as contrações às dores do cálculo renal… até então não tinham ultrapassado.

Quando as contrações estavam bem mais fortes, com espaçamento de dois a três minutos, eu já tinha perdido um pouquinho de sangue também… fomos para a maternidade. No caminho, senti algumas dores bem fortes. Comentei: “cálculo e parto, agora empatados”. Quando chegamos, Doutor Renato veio nos receber na porta. Deu um beijo em Arthur, falou com minha barriga, me pegou pela mão e me conduziu até o quarto onde faríamos o parto. Ele já tinha ligado para o meu celular, pedido o número da minha carteira do plano e providenciado tudo. Sim, o meu médico fez isso.
Entramos no quarto e fui direto para o chuveiro quente, para aliviar as contrações. Melhoravam, mas a dor já estava muito intensa. Doutor Renato me examinou – a única vez que achou necessário – e disse: já está com nove centímetros de dilatação. Drica olhou pra mim e disse: “mas tu é forte mesmo! Passasse essa dilatação todinha e ainda está assim!”. Eu ri, mas de leve. Cada vez prestava menos atenção ao que acontecia ao meu redor e mais atenção ao que acontecia com meu corpo.

Percebi que foi uma correria para encher a piscina de ar e depois de água quente. Arthur, Diana, Drica e Doutor Renato trabalhando para isso. Entrei quando ainda estava meio rasa. Nesse ponto, eu não reagia mais tão bem aos estímulos externos, estava muito concentrada no fato de que Pedrinho fazia muita pressão e eu já tinha vontade de empurrar. Era O momento. A fase chamada de expulsiva durou cerca de duas horas. Não sei quantas contrações senti. Não sei exatamente o que falei. Até hoje minha memória de alguns momentos do parto se compõe de flashes.

Arthur, que antes dizia não ter coragem sequer de estar presente no quarto, esteve comigo e disse coisas que eu queria e precisava ouvir. Como se alguém o estivesse orientando, guiando para fazer tudo o que era certo naquela hora. Que orgulho dele, lembro de ter pensado. Doutor Renato, Diana e Drica ficaram observando e incentivando. O trabalho era meu, e de Arthur. Era o nosso filho vindo ao mundo. Arthur disse, depois, que sentia angústia pelas minhas dores, mas estava tranquilo. Diana disse que dava vontade de pedir um pouquinho da dor para ela, dividir. Mas tudo foi escolhido. Eu queria a dor, pelo total controle do meu corpo. Pela ausência de drogas no meu organismo para receber o meu filho com o máximo de naturalidade e conforto para ele. A dor, por sinal, é forte e assim fica na sua memória por algum tempo, mas a cada dia ela me parece mais fraca. Hoje, quando eu vejo Pedrinho forte e saudável, a dor do parto vai ficando mais e mais insignificante. Diria Manoel de Barros: como um lápis numa península.

E no final foi assim: Arthur entrou na água comigo, dando apoio físico e psicológico para Pedrinho nascer. Acho que era só isso que faltava. Depois que ele entrou não demorou muito. Eu senti as maiores contrações e Pedrinho saiu. Saiu “empelicado”, ou seja, ainda envolto na bolsa, que havia apenas fissurado, não rompido completamente. Isso acontece em 1 de 80.000 partos. Só para confirmar o quanto foi especial. Doutor Renato ainda disse: “deixa ele um pouquinho na água”. Arthur não aguentou. Tirou e colocou nos meus braços. Arthur gargalhava. Eu chorava. A gente se abraçou. E eu coloquei Pedrinho no colo e cantei pra ele. Todo mundo ficou só olhando. Eu não consegui olhar pra ninguém mais. Só Pedrinho. Nada poderia fazer com que me sentisse mais parte dele e de Arthur. Se eu tivesse pedido por aquele parto, não saberia encomendar os detalhes especiais e a intensidade de sentimentos que afloraram naquela noite. Se alguém me pergunta “como foi o parto?”, meus olhos enchem de lágrimas. Eu tentei relatar aqui, mas na verdade, na verdade, o melhor está guardado dentro de mim. Não sei como decodificar e nem sei se devo…

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Andrea Nobre é professora e, com o nascimento de Pedro, descobriu o maior e melhor dos motivos do existir

Imagens: reprodução e arquivo pessoal

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