Elas por Elas

‘Me transformei numa ex-ativista contra o aborto e me sinto em dívida com as pessoas que já julguei’

12 de abril de 2016

por Observadora

mulherFui  batizada, fiz primeira comunhão e crisma. Frequentei as missas de domingo até meus 16 anos.

Morei até os 22 com meus avós, católicos tradicionais, desses que têm foto do papa no porta-retratos  da sala.

Quando terminei a faculdade, fui aprovada para um mestrado e ganhei uma bolsa de R$ 1.500. Nessa época, eu era apaixonada por um menino da mesma universidade, um pouco mais novo e sem interesse em compromisso.

A gente ficava juntos duas, três semanas e ele sumia. Numa dessas, resolvi me afastar de vez. Passamos três meses sem nos ver e eu aproveitei para parar de tomar anticoncepcional, já que minha  avó teve uma trombose e eu fiquei assustada com a possibilidade de a pílula realmente aumentar as chances da doença para quem já tem uma predisposição genética.

No meu aniversário, esse rapaz voltou a me procurar. Dessa vez com um discurso mais comprometido e uma promessa de começar uma história mais séria. Nesse dia, dormi na casa dele. Na parte das pazes, perguntei se ele tinha camisinha, e ele respondeu que não comprava desde que havíamos nos afastado. Não sei que efeito romântico essa frase teve na minha cabeça, mas naquela hora não liguei pra mais nada e aceitei o velho método do ‘’gozar fora’’.

Quando acordei,  ainda pensei em tomar pílula do dia seguinte, mas como andava assustada com e esses bombardeamentos hormonais, deixei pra lá. Já tinha ouvido muita gente falar que essas coisas engordam, mudam o fluxo da menstruação pra sempre e outros absurdos.

Uma semana depois o cara sumiu de novo, e eu descobri, quase sem querer,  que ele tinha uma noiva na cidade dos pais. E mantinha, inclusive, um Facebook para cada vida social que levava. A de solteiro convicto e a de noivo apaixonado. Meu chão caiu. Eu, que me achava tão madura e inteligente, havia sido feita realmente de idiota.

Fiquei tão devastada que emagreci três quilos, mesmo já pesando 49kg. Quando a menstruação do mês seguinte atrasou, preferi acreditar que se tratava de estresse emocional. Mas não. Era mesmo uma gravidez de pouco tempo.

Na hora que peguei o exame laboratorial – nem cheguei a fazer teste de farmácia -, não tive nenhuma reação emocional, só prática. Meu primeiro pensamento foi : “como posso fazer um aborto de forma segura?”.

Eu nunca pensei na vida que teria esse desejo um dia. Já me envolvi em discussões homéricas sobre o tema, defendendo o direito à vida, falando em como a mulher não poderia ser tão egoísta,   e dizendo que uma gravidez indesejada precisava ser uma (ir)responsabilidade assumida. Aqui, no próprio Observatório Feminino, já li textos sobre o assunto que me incomodaram profundamente. Textos sobre como somente a mulher pode ter direito sobre o seu corpo e consciência da sua própria maternidade. Tentava me colocar no lugar da autora do artigo e dizia mentalmente “se eu engravidasse sem querer, daria o bebê para a adoção”.  Sempre achei que jamais teria coragem de abortar, já que minha culpa cristã e convicção religiosa falariam mais alto.

Mas na hora que o problema aconteceu comigo, elas não falaram. E me mostraram como eu era hipócrita sem nem saber. Como sou humana e individualista, como qualquer outra pessoa. Na hora que uma realidade como aquela caiu no meu colo, eu só quis ser resolutiva. Pensei que eu precisaria deixar o mestrado para procurar um emprego que pagasse melhor que a bolsa. Pensei na dor de cabeça que daria aos meus avós, já idosos. Pensei no problema que teria em ser eternamente ligada a um rapaz que não era futuro para mim. Pensei na criança que teria uma vida tão bagunçada quanto a minha foi. Claro que eu a amaria quando ela tivesse um rosto, um nome. Claro que eu seria uma mãe amorosa. Mas eu tinha a chance de não deixar essa história começar.

Procurei saber no Google qual o tamanho do embrião naquela altura do meu campeonato. Descobri que era menor que uma pílula anticoncepcional. E fiquei pensando em como duas coisas tão pequenas podem ser ao mesmo tempo tão grandiosas.

Minha decisão foi tomada ali. Pesquisei maneiras de fazer o aborto sem correr riscos graves. Procurei saber se aquele embrião já poderia sentir dor ou sofrimento. Quando tive as respostas positivas que queria, contei com a ajuda de um primo homossexual para me acompanhar em todo o processo. Consegui o remédio com uma professora ativista, que sabia onde encontrá-lo. A noite da expulsão não foi fácil, mas posso dizer que passei por ela fria, segura e certa do que estava fazendo.

Oito meses se passaram. E hoje aceitei o convite de Talita (do OF) para falar sobre isso porque é libertador entender que somos essa constante transformação. Me transformei numa ex-ativista contra o aborto e me sinto em dívida com as pessoas que já julguei. Não sou também ativista pró- aborto. Acho que a discussão é séria, profunda, e envolve muitas questões particulares e também sociais e de saúde pública. Mas não é nada para ser discutido com o dedo apontado na face do outro e baseado em argumentos superficiais.

Às vezes eu fico me perguntando se aquele embrião já tinha alma. Às vezes penso no que minha família pensaria de mim se descobrisse o que fiz. Às vezes penso que eu estaria quase dando à luz nesse momento, com a vida bagunçada e o coração também. Às vezes penso que poderia ter tido uma complicação naquela noite do aborto.  Penso que posso ter dificuldades para ter filho. Mas ao mesmo tempo sinto alívio ao ver que conheci outra pessoa, estou namorando, feliz com o meu mestrado e seguindo minha vida da forma como planejei. Entrei para as estatísticas de mulheres que já abortaram e desde então nunca mais julguei as pessoas por nada que elas fazem de suas histórias. Descobri que a gente só sabe do calo que aperta no nosso pé.

 

Observe mais: Aborto. O que você pensa a esse respeito?

 

Imagens: Reprodução/Instagram

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