Elas por Elas

Pelo direito de parir: ‘Não foi como eu esperava, mas foi o melhor pra ela, e isso me basta’

12 de abril de 2014

por Observatório Feminino

“A violência obstétrica pode se manifestar no impedimento de ter um acompanhante no parto, na falta de liberdade para escolher onde e como parir, na privação de água e alimentação, na falta de um carinho no momento da dor, no protagonismo que não foi permitido. Muitas mulheres sofrem caladas essas e outras violências vividas no corpo e na alma em um momento de suas vidas em que deveriam se sentir plenas, respeitadas e renascendo junto a seus filhos. Mulheres rompem o silêncio e têm suas histórias retratadas em partes de seus corpos, em uma linguagem que as trata de forma serializada, anônima e sem considerar sua individualidade, assim como fazem os protocolos médicos nas maternidades públicas e privadas brasileiras”.

(Carla Raiter e Caro Ferreira, autoras do projeto  Retratos da violência obstétrica)

Uma em cada quatro mulheres brasileiras que deram à luz em hospitais públicos ou privados relatam algum tipo de agressão durante o parto. Esse dado assustador – que apareceu na pesquisa de Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado, feita pela Fundação Perseu Abramo em parceria com o SESC, em 2011 -, foi um dos motes do projeto 1:4 – Retratos da violência obstétrica, criado recentemente pela fotógrafa Carla Raiter e pela produtora cultural Caroline Ferreira. O projeto busca justamente chamar atenção para a desumanização dos partos no sistema de saúde do Brasil, questão discutida de maneira quase minguada até então.

No último 1º de abril, quando o caso de Adelir Lemos Goes – a mãe obrigada pela Justiça a fazer uma cesariana – tornou-se público, a discussão sobre uma suposta obstetrícia brasileira negligente foi fortalecida. Os questionamentos acerca das atuais cesáreas em massa foram reacesos, assim como resgatados alguns mitos em torno do parto normal. Com a série Pelo direito de parir, que segue em destaque no OF ao longo do fim de semana, vamos reunir as impressões de mães que viveram experiências positivas ou negativas, em partos humanizados ou não, mas que compartilham de histórias com amores e forças iguais.

Eu me considero uma pessoa de sorte. Apesar dos problemas que tive no início da gravidez (descolamento de placenta no primeiro mês, três meses de repouso absoluto para não perder o bebê), apesar de não formar uma “família tradicional” (não casei, não tinha emprego, ainda estudante, no primeiro período do curso de medicina), apesar de tantos outros “apesares”, tive a oportunidade de conduzir minha gravidez da forma que achei melhor.

Tive um bom acompanhamento pré-natal com um médico excelente, fiz todos os exames, li todos os livros e vi todos os programas, principalmente sobre a escolha do parto. Depois de mudar de ideia um milhão de vezes, me decidi pelo parto normal. Quando chegou a hora, entrei em trabalho de parto, fui para o hospital. Depois de muita espera e nenhuma dilatação, EU optei pela cesárea. Meu médico disse que esperaria o quanto eu quisesse, que a decisão era minha. E foi. E assim Sofia nasceu: linda, careca e toda enrolada no cordão umbilical. Provavelmente teria dificuldades em um parto normal, mesmo com toda a dilatação do mundo. Não foi como eu esperava, mas foi o melhor pra ela, e isso me basta.

Sim, eu sei que a realidade de muitas mulheres é outra. Sei que ainda existem casos e mais casos de mulheres que são coagidas a passar por uma cesárea sem que seja dada qualquer justificativa ou sequer uma explicação sobre o procedimento. Já vi profissionais da área de saúde que não levam em consideração a escolha da mãe nesse momento. Acredito, sim, que toda mulher tem o direito de decidir qual a melhor forma para seu filho sair do seu corpo. Concordo que o parto em casa pode ser menos traumático para a mãe e para o bebê, e sou totalmente a favor da humanização do parto. Dito isso, acho que cada caso deve ser pensado com cuidado. Se foi identificado sofrimento fetal, se fica claro que a tentativa de um parto normal apresenta um grande risco para mãe e para o bebê, não seria omissão simplesmente permitir que isso aconteça? É uma situação difícil e que, muitas vezes, acaba gerando respostas extremas.

No que diz respeito ao mais recente caso de parto cesárea forçado (da Adelir), acredito que os médicos fizeram o que acreditavam ser o melhor, de acordo com os princípios éticos que devem ser seguidos. Espero que fique claro que não estou aqui tentando minimizar os sentimentos de quem passou por uma experiência diferente da minha. Cada um sabe a profundidade da própria ferida. Gostaria apenas de expressar minha opinião como mulher, mãe e futura médica.

Sou Mariana Sousa, de Recife, mãe de Sofia, de 1 ano e 5 meses, e tenho 27 anos“.

 

Observe mais:  Pelo direito de parir: ‘No final das contas, somos todas Adelir’

Imagem: arquivo pessoal

Siga @ObsFeminino  no Twitter e curta a fanpage do Observatório Feminino no Facebook

 

 

Leia também:

A Nova Valsa dos Noivos
Observatório Feminino levanta discussão sobre o poder da mídia
Eu faria uma tatuagem pra você!

Pesquisar

Perfil

  • Ana Karla Gomes

    Editora Chefe

  • Rose Blanc

    Relações Públicas

  • Talita Corrêa

    Editora-Assistente

  • Estevão Soares

    Colunista

Arquivo

Assine nossa news e receba tudo em primeira mão

Observatório Feminino