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Pelo direito de parir: ‘No final das contas, somos todas Adelir’

12 de abril de 2014

por Observatório Feminino

“A dor – tão desprestigiada nos tempos modernos – é necessária ao recolhimento. A dor permite que nos desliguemos do mundo pensante, percamos o controle e esqueçamos as condutas corretas. A dor é nossa amiga. Para entrar no túnel de desprendimento do bebê, é indispensável abandonar mentalmente o mundo concreto. Parir é passar de um estágio a outro. É uma ruptura espiritual. E,como qualquer ruptura, dói. O parto não é uma doença a ser curada. É uma passagem para outra dimensão. Por mais que não gostemos da palavra ‘dor’, é pertinente dizer que a dor do parto é suportável, desde que este não seja induzido, não tenham ministrado oxitocina sintética para acelerar as concentrações e estejamos acompanhadas e cuidadas. No entanto, não é possível suportar o sofrimento. É importante esclarecer que as mulheres não sofrem por causa das contrações. Sofrem quando ficam sozinhas, humilhadas, maltratadas, ameaçadas ou atemorizadas. E ninguém merece passar por isso”.

(LAURA GUTMAN, “Mulheres visíveis, mães invisíveis”)

Um medida extrema, polêmica e sem prováveis precedentes na Justiça do país obrigou uma grávida do Rio Grande do Sul a dar à luz através de uma cesariana contra sua vontade. O caso aconteceu na madrugada do dia 1º de abril na cidade de Torres e gerou comoção em todo Brasil.

Com 42 semanas de gestação, Adelir Carmem Lemos, de 29 anos, procurou um hospital ao sentir dores lombares. Uma médica a examinou e determinou que ela fosse submetida a uma cesárea, pois o bebê estava supostamente sentado e podia ser asfixiado durante um parto normal. A médica também justificou que Adelir já havia feito duas cesarianas e, por isso, corria o risco de ter o útero rompido num parto vaginal.

Decidida a dar à luz através de parto normal, a gestante assinou um termo de responsabilidade e deixou o hospital. A médica procurou o Ministério Público, que acionou a Justiça. A Justiça, por sua vez, acatou as justificativas médicas e, considerando risco de morte da mãe e da criança, determinou que Adelir fosse encaminhada de volta ao hospital, com apoio policial, caso necessário. O marido de Adelir, Emerson Guimarães, de 41 anos, contou à imprensa que sua mulher estava em início de trabalho de parto quando um oficial de Justiça, dois policiais e uma ambulância apareceram na porta de sua casa por volta das 2h da madrugada e  os levaram de volta ao hospital. Emerson também contou que os médicos não mostraram aos pais os exames nos quais o bebê – uma menina – teoricamente aparecia sentando.

A história foi fortemente divulgada nos últimos dias e dividiu opiniões. De um lado, gente tentanto analisar as supostas irresponsabilidade e inconsequência desses pais. Do outro, pessoas que os inserem nas assustadoras estatísticas de cesarianas em massa que o sistema de saúde sugere (processo mais prático, mais confortável, mais rápido, mais contornável).

Na sexta-feira, 11, em solidariedade ao caso de Adelir, mulheres de todo Brasil organizaram atos contra violência obstétrica. Com protestos, exibições de vídeos, debates e outras manifestações, organizações que defendem o parto humanizado empunharam “o parto roubado de RS” como bandeira para chamar a atenção para o tema. Em respeito à mulher, ao corpo da mulher, e à necessidade de séria discussão sobre os dramas da mulher,  durante todo o fim de semana o OF vai apresentar a série Pelo direito de parir, com relatos, experiências, opiniões, desabafos e súplicas de mães-leoas de diferentes partes do país.


Quem teve uma gravidez tentando pular os obstáculos diversos para ter um parto normal (e mais humanizado possível) e conseguiu, sabe – ou imagina bem – como é a sensação de morrer na praia. Eu enfrentei cada pedra que me jogaram pelo caminho: fugi da minha obstetra que marcou uma cesariana para o dia 8 de março (minha filha veio ao mundo através do parto normal e humanizado no dia 15), optei por parir em hospital público mesmo tendo plano de saúde (porque eles respeitaram a minha escolha), e ainda tive que lidar com a frustração de ver a minha mãe achando que eu estava cometendo um assassinato. Laura nasceu linda e saudável. Eu realizei um sonho e respeitei o tempo dela. Caso raro, uma vez que a cultura brasileira embute em nós, desde a mais tenra idade, que o corpo da mulher não pertence realmente a ela. Ora ela não pode usar a roupa que deseja e sim a mais “adequada”, ora não pode amamentar em público; quiçá decidir de que maneira seu filho virá ao mundo… A decisão, nos impõe o patriarcal sistema machista, está exclusivamente nas mãos dos endeusadas sabedores de tudo: os médicos.

E assim vemos as montanhas de corpos cortados e mutilados pelo país afora, com seus números assustadores de cesarianas: a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda que apenas 15% dos partos são os que necessitam de uma intervenção cirúrgica e no Brasil o índice de cesarianas feitas chega a 90% em hospitais particulares. Os números praticados por aqui não podem ser aceitos como algo normal! Vemos rotineiramente mãezinhas e paizinhos enganados por histórias escabrosas, tais como “cordão umbilical assassino”, “tempo limite do feto na barriga”, “vaginas esmagadoras de bebês” para justificar cesarianas desnecessárias!

Por ignorância, por medo de descer do seu pedestal ou por não querer confessar que não saberia acompanhar um parto normal com características fora-do-comum, a obstetra da cidade de Torres (no Rio Grande do Sul) preparou um laudo técnico e encaminhou aos órgãos competentes – colocando o direito da mãe no banco dos réus sem a devida e minuciosa avaliação do caso. A Justiça entrou na questão e quer nos convencer de que é normal ser cortada e invadida em prol do salvamento de… De quem mesmo? Se por todas as evidências apresentadas ninguém corria risco de vida? Ah! É mesmo… Em prol do salvamento da cultura de invasão do corpo da mulher… Assim foi o caso da Adelir.

Diante da quantidade de pessoas que avaliaram positivamente em relação à mulher ter culpa num caso de estupro, divulgada erroneamente em recente pesquisa feita pelo IPEA, o caso de Adelir pode até surpreender menos. Afinal, seguindo a mesma lógica, parece que muita gente acredita que essa mãe (e tantas outras!) é culpada pela violência obstetrícia sofrida. A mulher que deseja e espera pelo parto normal tem culpa de que? Por que quem deseja um parto natural e humanizado precisa carregar o peso da culpa também? Não compreendo as pessoas quem colocam no Facebook fotinhos e hashtags #naomereçoserestuprada e criticam, julgam e culpam Adelir por ter feito a sua escolha.

A meu ver é uma dor saber que alguém como Adelir teve que pagar com um parto perdido – sendo que este é o dia mais sagrado, importante, sonhado e único para as mães e pais – para que a população acordasse, enxergasse e se mobilizasse frente aos desmandos que acontecem em relação à escolha da gestante em como parir a sua criança. Muitos começaram a perceber que alguma coisa anda cheirando muito mal na obstetrícia brasileira – e não é de hoje!

Agora, meu desejo é que as pessoas olhem para si e a para a história de como trouxeram seus filhos ao mundo e se questionem se a cesárea que fizeram foi mesmo necessária… E que pensem se aquela feita por suas mães também foi necessária e a de todas as mulheres ao seu redor é mesmo uma opção natural ou fruto do convencimento e pressões alheias. E caso tenham conseguido o parto normal, peço que se perguntem se a fala daquele médico foi indispensável, se aqueles toques foram necessários e se aquele corte era realmente fundamental… Ao invés de defender com unhas e dentes a falácia do ‘meu médico estudou mil anos para isso’ ou ‘ele era tão fofo e gentil’ , porque a pior dor do parto é a dor da violência. Todos juntos devemos repensar a estrutura da medicina atual e perceber que no final das contas somos todas Adelir.

 

Sou Aline Shirazi Conte, de São Paulo, mãe de Laura, de 2 anos, tenho 25 anos e sou estudante de gestao ambiental” .

 

Imagem: Buno Wilk – Motion PV

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