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Pelo direito de parir: ‘O seu parto é seu, só seu e de mais ninguém’

13 de abril de 2014

por Observatório Feminino

“O parto é você, é o seu corpo em plena atividade, e você não deveria deixar esta parte de você ser subtraída por uma conveniência que vem de fora. Não é a mulher que precisa da anestesia, são os outros que precisam do conforto de uma mulher parindo quietinha. Precisamos desconstruir o conceito de parto doloroso, e compreender e desejar e conquistar o parto prazeroso, não importa quão trabalhoso ele possa ser. Não se deixem levar pela inércia do sistema obstétrico vigente, que inadvertidamente vampiriza a força, a beleza e a vida que mãe e bebê protagonizam no ato de parir e nascer”.

(Por Roselene Araujo para a Parto do Princípio)

O quarto e último relato da série Pelo direito de Parir, publicada no OF neste fim de semana, destaca, entre outras questões, o peso da dor na vilanização do parto normal – um parto cujas características de costumário, habitual e natural já explicam-se no próprio nome. Nossas avós, e as avós de nossas avós, sentiram essa mesma dor suportável e nem por isso deixaram de colocar algo de mágico em suas lancinantes lembranças. Dizem que esse é o torpor trazido pela maternidade.

Jamais alguém defenderá que é preciso sentir dor para saber o que é ser mãe. Mas também não devemos deixar que a sociedade moderna nos convença tão facilmente que não temos força e preparo para parir. A mesma natureza que nos ajuda a gerar e carregar uma criança por nove meses é aquela que nos ensina a colocá-la no mundo na hora certa. Não é uma questão de coragem, mas de instinto. É claro que em muitos casos uma cesárea eletiva é necessária, mas o importante é que o medo da dor não seja a única justificativa para escolhê-la.

“Assim que descobri que estava grávida, mergulhei nas leituras sobre gestação, parto e maternidade. Minha gravidez não foi planejada e o estudo foi uma forma de me acostumar com a perspectiva de que, dali a alguns meses, seria mãe e teria um serzinho indefeso que dependeria completamente de mim.

As primeiras consultas com obstetras do convênio foram experiências muito ruins. Me senti maltratada e julgada de forma moralista, e a resistência das médicas em conversar sobre o parto, ora sob a justificativa de que era ‘muito cedo pra isso’, ora porque a decisão era ‘do médico e não da mulher’ me deixaram extremamente insegura.

Conforme fui me aprofundando nas leituras, percebi que a realidade da atenção ao parto em nosso país é profundamente pautada pela violência obstétrica, contaminada por uma mentalidade segundo a qual a paciente deve obediência ao médico. Ao mesmo tempo, percebi que a forma com que eu queria que minha filha viesse ao mundo era completamente diferente dessa realidade e que, por causa disso, eu teria que lutar pelo meu parto. É isso que nós, ativistas pelo parto humanizado, chamamos de empoderamento. Começa com aquele ‘click’, aquele momento em que você percebe que o seu parto é seu, só seu e de mais ninguém, que você é sim capaz de parir.

Como toda luta contra o status quo, o processo de empoderamento para o parto também enfrenta seu backlash. Até hoje, quando converso com as pessoas sobre minhas escolhas sobre meu parto, muita gente tem reações do tipo ‘nossa, mas você não tem medo?’, ‘corajosa, hein?’, ‘eu não aguentaria a dor, mas se você acha que consegue, então tá bom’, ‘por mim eu tomava uma anestesia geral e só acordava depois de tirarem o bebê’. Até entendo que as pessoas não façam isso por mal, que elas estão inconscientemente reproduzindo toda uma construção social machista que retrata o parto como um suplício, algo assustador e insuportavelmente doloroso, que vai destruir a vagina da mulher e depois nenhum homem vai querer ela. Passamos a vida inteira vendo essa ‘versão’ do parto ser retratada na mídia e o ‘senso comum obstétrico’ colabora bastante pra desempoderar as grávidas e minar sua autoconfiança. Não é à toa que os índices de cesárea no Brasil estão do jeito que estão, existe toda uma cultura que busca nos fazer crer que nossos corpos não são capazes de parir sem a interferência heróica da medicina.

Com o caso da Adelir, gestante que foi submetida a uma cesárea forçada mediante uma ordem judicial, esse backlash contra o empoderamento das mulheres e a luta pela humanização do parto tomou uma nova dimensão, muito mais assustadora. Agora, além de termos que nadar contra a corrente da opinião majoritária da medicina obstétrica, nós mulheres que lutamos pelo protagonismo em nossos partos, pelo direito de escolher de forma livre, consciente e informada como, onde, quando e com quem queremos parir, ainda precisamos lidar com o perigo de o Estado usar da força para nos constranger a não exercer esse direito.

Não escolhi parir naturalmente por um capricho, por vaidade ou qualque outra frivolidade. Escolhi que não quero me submeter a intervenções desnecessárias em um ambiente hostil como é o hospitalar porque acredito que isso é o melhor para mim E para minha filha. Minha escolha sobre o parto não se contrapõe ao bem estar do meu bebê que ainda não nasceu, eles caminham justos de mãos dadas.

 

Sou Maira Pinheiro, estudante de Direito, de São Paulo, tenho 23 anos, e estou grávida de sete meses da Betânia”.

 

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Imagem: arquivo pessoal

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