Elas por Elas

Pelo direito de parir: ‘Tive a experiência maravilhosa do parto natural e em casa’

13 de abril de 2014

por Observatório Feminino

“Deixe-me à natureza, por favor!
Não me rasgue, não me deite, não me injete! Não me obrigue a ver um médico. Quero parir como uma loba, uma índia da mata. Deixe-me de quatro, deixe-me de cócoras.
 
Por favor!Eu quero gritar, gemer, me contorcer! Deixe-me parir em paz. Liberte-me para a espontaneidade de trazer meu filho ao mundo. Deixe-me dar o exemplo de luta, fé, instinto, naturalidade! Deixe-me ser primitiva, me agarrar à terra, enraizar.

Deixe-me aceitar e compreender a dor, vivenciá-la como um processo de amadurecimento. Deixe-me lidar com a minha sombra.

Não extraia o fruto meu! Não o arranque de mim à força! Não me corte em sete camadas para que meu filho veja a luz! Não me apresente alternativas ao medo, não me anestesie a vida!

Eu quero meu filho massageado pelas minhas entranhas, quero sentir sua passagem, o peso de seu corpo, o círculo de fogo!

Deixe meu espírito dançar.

Sou capaz de secretar meus próprios hormônios, sou capaz de transcender a dor, ser involuntária e fisiológica!

Sou capaz de parir! Sou capaz de ser mulher!”.

 (Por Camila Chaguri)

Quase toda polêmica se atrolepa na confusão dos extremos.  Quando um assunto começa a gerar debate, costuma trazer junto argumentos perdidos nos exageros, nos casos raros ou nas generalizações gratuitas para lançar ao público conclusões preguiçosas e taxativas. Tem sido mais ou menos assim desde o dia 1º de abril, quando Adelir Goes, uma grávida do Rio Grande do Sul, foi obrigada pela Justiça a fazer um parto através de cesárea, e reacendeu a discussão sobre o parto humanizado no Brasil. No calor das altercações entre mães, ativistas e leigos, as investigações e reflexões ponderadas têm ficado de lado.

Cesáreas podem salvar vidas de mães e bebês em situações ou gestações especiais. Ponto. O procedimento, portanto, não é vilão e nem mocinho. Ponto. Sim, a recuperação da mãe, nesse caso, é mais lenta e envolve cerca de quatro vezes mais risco de infecção pós-parto, e três vezes mais risco de mortalidade e morbidade materna. Ponto. Outras verdades: o Brasil é um dos países que mais fazem partos cesáreos no mundo, sobretudo no sistema de saúde particular. Isso envolve duas questões. Partos normais são bem mais imprevisíveis, emocionalmente tensos, demandadores, longos e incontornáveis. Para médicos que precisam administrar algumas dezenas de pacientes por dia e visitar outras dezenas de hospitais em rotinas, convenhamos, nada fáceis, é tentador sugerir a uma mãe que ela programe de maneira “confortável” e “‘tranquila” a data de nascimento de seu bebê. No mais, a mulher moderna tem ouvido muito por aí que sentir dor é primitivo, e que não há nada mais primitivo e selvagem que o parto normal. Eis mais uma mentira que só convence aquelas que não se informam como deveriam. Até mesmo o parto normal pode contar com anestesia e ser programado para envolver o máximo de comodidade e aconhecho na hora que acontecer.

É tudo isso uma questão de pesos e medidas, de conflagração do excesso, de falta de conhecimento, necessidade de troca de experiências, pesquisa, conversa. A mulher é dona de seu próprio corpo e todas suas vontades devem ser respeitadas. Só é importante se perguntar se a sociedade também não incute medos e desejos equivocados em mulheres que desconhecem suas próprias forças. É sempre válido reunir e entender os porquês de cada nova mãe. Desde que sejam todos eles incansavelmente dissecados e explicados como devem ser, toda escolha será apoiada e defendida. É com esse escopo que, neste fim de semana, o OF está publicando a série Pelo direito de parir.

Minha estória não é diferente de tantas outras estórias de mulheres enganadas para fazer parto cesário.

Na minha primeira gravidez fiz cesária porque nao busquei informação e confiei no médico, que acabou me convencedo que ela era necessária. No início do pré-natal do meu segundo filho, já falei logo: ‘Dr., nessa gravidez quero parto normal’ e ele falou ‘tudo bem’, só que com 30 semanas o discurso mudou e ele começou a falar que teria que avaliar direitinho e tal… Vi logo que se continuasse com ele, sofreria uma cesária desnecessária. Foi aí que resolvi mudar de médico e aceitei a indicação de uma amiga  sobre uma médica extremamente a favor do parto normal. E foi assim que tive a experiência maravilhosa do parto natural e em casa.

E digo que parto natural é muito melhor do que um parto cesário em todos os aspectos, pois vivi as duas situações. É maravilhosa a sensação de parir seu filho! Isso é inexplicável… Sentí-lo saindo de você!

Por ter sentido tanta emoção de conseguir realizar meu parto que me choco com a situação da Adelir, uma mulher coagida pelo simples fato de querer um parto normal, natural e respeitoso. Isso mostra como nós somos reféns de médicos que conseguem fazer prevalecer sua vontade, custe o que custar.

Muitos especialitas já se pronuciaram dizendo que, no caso dela, a cesárea não era uma indicacão real. De qualquer forma, fico muito assustada por perceber que a mulher não é dona nem do próprio corpo. Isso mostra como é triste a rotina de violência obstétricas que sofremos, pois esse é só um caso dentre vários não divulgados.

Nós, mães, sofremos violências obstétricas tanto físicas quanto mentais, pois muitos médicos já nos induzem a achar, logo no início da gravidez, que não somos capazes de parir. Mas vejo que hoje as mulheres estão começando a se libertar desse sistema cesarista, lutando por meio de movimentos, fazendo documentários contra a violência obstétrica, defendendo o direito de lutar pelo seu parto. Acredito que aos poucos mudaremos esse cenário com muita informação e manifestações de âmbito e destaques nacionais.

Meu nome é Alessandra Cristina L.Felix de Lima , tenho 31 anos, tenho dois filhos e estou grávida do terceiro. Sou analista de sistemas, empregada pública e moro em Brasília“.

Observe mais:  Pelo direito de parir: ‘No final das contas, somos todas Adelir’

                               Pelo direito de parir: ‘Não foi como eu esperava, mas foi o melhor pra ela’

Imagem: arquivo pessoal

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