Elas por Elas

Porque decidimos não dar chupeta ou mamadeira

22 de julho de 2015

por Observadora

chupeta (506x336)“Ser carregadas, embaladas, acariciadas, tocadas, massageadas, cada uma dessas coisas é alimento para as crianças pequenas. Tão indispensáveis, se não mais, que vitaminas, sais minerais e proteínas. Quando são privadas de tudo isso e do cheiro e do calor e da voz que tão bem conhecem, as crianças, ainda que estejam fartas de leite, se deixam morrer de fome” – Fréderique Leboyer, Shantala.

Bastou ler um pouco para que eu e o Teixeira optássemos por não dar chupeta ou qualquer bico artificial para Chico. Óbvio que ouvimos todo tipo de coisa, principalmente, que não aguentaríamos. Claro que sabíamos que não seria fácil, só não fazíamos ideia de quanto!

Eu idealizei a amamentação (assim como muitas outras coisas). Acreditei que, por ter me preparado e informado ao longo da gestação, não teria grandes dificuldades para amamentar. Confiei tanto na teoria que me frustrei quando, na prática, não se mostrou tão simples.

Chico e eu levamos cerca de um mês para nos entendermos. E, quando a amamentação finalmente fluiu, a livre demanda chegou de verdade. O cansaço, a privação de sono, as manhãs e tardes com a cria no colo, mamando, chupetando. Quantas vezes chorei dizendo que não aguentava mais? Quantas vezes disse que não queria mais amamentar? Quantas vezes quis desistir da livre demanda? Quantas vezes implorei para Teixeira comprar mamadeiras e chupetas?

Inúmeras! Foram inúmeras as noites, manhãs e tardes cheias de lágrimas e incertezas. E foram inúmeras as vezes que respirei fundo e continuei firme. Da mesma forma em que a dúvida e a incerteza chegavam, a calma e a certeza de que eu estava no caminho certo apareciam para me fazer continuar.

Abaixo, listo alguns dos motivos que me fizeram insistir na amamentação livre demanda e na decisão de manter a chupeta longe de casa:
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1) Era difícil mas não era impossível
Talvez o motivo mais importante… Eu sabia o que tinha me levado a optar pela amamentação em livre demanda, sem o uso de bicos artificiais. Eu e meu companheiro estudamos, conversamos e pensamos muito sobre as consequências da introdução de bicos artificiais. Eu sabia que era o melhor para nós dois, para nosso desenvolvimento e crescimento. Por mais que fosse difícil e, muitas vezes, desesperador, quando ele acertava a pega a sensação era deliciosa. A troca de olhares, o carinho… fazia valer a pena.

É tudo um aprendizado. Uma caminhada de pequenos passos. Um percurso cheio de descobertas e conquistas prazerosas. Mas é preciso ter paciência e calma. É preciso conversar, explicar, cantar e respirar. Dá vontade de desistir, comprar mamadeira, chupeta. Aí ele pega o peito e mama olhando pra você. Pronto. Um pouquinho mais de força para prosseguir. O caminho não é fácil, mas se você tiver certeza de que a escolha foi a certa, você vai tirar forças de algum lugar e insistir. Entre trancos e barrancos, um vínculo mágico vai se formando. E, por mais difícil que tenha sido a mamada, o momento em que ele se aconchega no seu peito e dorme é sublime.

2) Eu ainda não tinha chegado no meu limite
Por mais cansada que eu estivesse, por mais desesperada que eu parecesse, por mais que eu falasse que não aguentava mais, eu sabia que aguentava! Eu respirava fundo, lembrava de tudo o que tinha lido, lembrava do motivo que me levou a tomar essa decisão e o mais importante: eu escutava o meu corpo. E meu corpo, essa massa cheia de vida e poderosa, me dizia que tinha muito mais para dar. Meu corpo me dizia que daríamos conta. Então confiei!

3) Eu não estava sozinha
Tinha uma rede solidária me ajudando nessa caminhada. Teixeira, um pai participativo desde o inicio, acordou muitas madrugadas para amamentar comigo, segurando minha mão, ajudando a colocar Chico no peito, levando suco e frutas, secando minhas lágrimas, cantando comigo e me lembrando que eu era capaz. Ele confiava no meu corpo por nós dois.

Tinha minha mãe ajudando com a casa e possibilitando que eu me dedicasse a Chico, a conhecê-lo e aprender com ele. Tinha uma equipe linda e que continuou a se fazer presente mesmo após ao parto. Visitas, mensagens, telefonemas… Sempre ensinando, motivando, acalmando, acreditando. Tiveram, também, as conversas através das redes sociais com outras mulheres que tiveram dificuldades para amamentar e lidaram com o cansaço da livre demanda. Em especial, a Cintia, uma amiga que a maternidade me permitiu reencontrar, e a Rakuel, uma amiga que a maternidade me fez encontrar. A elas, toda a gratidão. Essa rede solidária sempre fazendo a diferença.

4) Peito é MUITO MAIS do que alimento
O que isso significa? Significa que peito é aconchego, proteção, carinho, cuidado. Peito é amor! Quando, no nosso colo, a criança se sente acolhida da mesma forma que se sentia no útero. No peito, a criança sente o cheiro da mãe, escuta as batidas do coração (aquele mesmo som que escutou por cerca de 40 semanas), percebe a respiração da mãe… Criança pede peito por fome, por medo, por solidão, por sono, por amor! E eu não podia negar tudo isso. Eu não podia trocar o meu calor pela mamadeira ou pela chupeta.

De acordo com a fonaudióloga Rebeca Leão, para o bebê, o ato de sugar significa satisfação nutricional e psicoemocional, além dos efeitos positivos na saúde fonoaudiológica, uma vez que está relacionado ao crescimento e desenvolvimento craniofacial e motor-oral do recém-nascido.

Laura Gutman e o pediatra Dr. Carlos González falam muito sobre a importância emocional da amamentação. São boas leituras para auxiliar e acalmar nesse momento tão intenso. Se recordarmos que o leite materno não é apenas alimento, mas, sobretudo, amor, comunicação, apoio, presença, abrigo, calor, palavra, sentido, acharemos um absurdo negar peito porque “não precisa”, “já comeu” ou “é manha”.

“Quando o bebê nasce, o reflexo de sucção é muito intenso. Como as palavras indicam, ele age sob o reflexo de procurar, encontrar o peito materno. Para isso, só é preciso que o bebê fique perto do peito. Muito tempo. Todo o tempo. Porque o estímulo é o corpo da mãe, o cheiro, o tom, o ritmo cardíaco, o calor, a voz, enfim, tudo que ele conhece” – Laura Gutman, “A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra”.

5) Chupetas e mamadeiras são prejudiciais à saúde de bebês e crianças
Por último, eu não dei chupeta ou mamadeira por saber que a saúde do meu filho seria prejudicada. O uso de bicos artificiais prejudica a formação da arcada dentária, o desenvolvimento da musculatura facial, aumenta a chance de problemas respiratórios e influencia negativamente o sistema imunológico dele. A sucção no seio materno “estimula o desenvolvimento ósseo e muscular, pois promove o desenvolvimento adequado da musculatura dos órgãos fonoarticulatórios (lábios, língua, bochechas…) quanto à mobilidade, força, postura, e o desenvolvimento das funções de respiração, mastigação, deglutição e articulação dos sons da fala. Desta forma, reduz a presença de maus hábitos orais (chupeta, mamadeira e sucção digital) e previne o surgimento de várias alterações.”, como explica a fonoaudióloga Rebeca Leão.

Também é sabido que a introdução de bicos artificiais pode causar confusão de bicos atrapalhando e prejudicando a amamentação e o desmame precoce. Sobre isso, não faltam estudos que indiquem os malefícios dos bicos artificiais. Um texto que achei muito completo, bem escrito e fácil de entender foi o “Chupeta: O que Toda Mãe (e Pai) Deveria Saber Antes de Oferecer Uma Para o seu Bebê”. Este artigo foi decisivo em nossa tomada de decisão.
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Não dar chupeta nos fez diminuir o ritmo. Sem chupeta tivemos que reaprender a enxergar. Tivemos que aprender (e ainda aprendemos) a observar Chico e entender o que ele quer. Quando ele chora a gente canta, pega no colo, nina, dá o peito, brinca, anda pela casa… Sem a chupeta, nós criamos uma conexão que talvez tivesse se perdido naquele pedaço de plástico. A ausência de chupeta nos tornou mais criativos, inventivos, instintivos!

Amamentar respeitando a necessidade do seu bebê é extremamente gratificante, mas como nem tudo são rosas, é extremamente cansativo, principalmente, no começo, quando seu corpo ainda está se adaptando à nova rotina (e a rotina de bebês mudam muito rápido!). Se eu tivesse chupeta (ou mamadeira) em casa, com certeza teria dado! Na hora do cansaço intenso é difícil resistir a tentação. Então, se me permitem dar um conselho: não tenham chupetas em casa se pretendem praticar a livre demanda.

E é exatamente por saber que a livre demanda é exaustiva que eu também digo: respeite seus limites, escute o seu corpo. Fazer uso de algum tipo de bico artificial não te fará menos mãe. O momento da amamentação deve ser gratificante e prazeroso tanto para a mãe quanto para o bebê. Este é um momento de troca de carinhos e que deve ser leve.

Passei e ainda passo muitos dias e noites com Chico pendurado no meu peito… mamando, chupetando… amando! Muitas vezes esses momentos são exaustivos, cansativos e até mesmo claustrofóbicos. Mas, na maior parte das vezes, estes momentos são leves, cheios de amor e de troca, carinhos e sensibilidade. E são estes dias que me fazem continuar!
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Na hora do desespero, o que me ajudou?

1) A tranquilidade do meu quarto
Quando Chico estava muito agitado e eu muito cansada e nervosa, eu me recolhia com ele pro meu quarto, onde me sentia mais confortável. Ficávamos no escuro, quietos, sozinhos… Era mais fácil para nos entendermos.

2) Presença, apoio, compreensão e respeito de Teixeira
Ter ele ali, segurando minha mão, muitas vezes, me deu a força que eu precisava pra continuar.

3) Rede Solidária
Mulheres que passaram e estavam passando pelo mesmo desafio; grupos virtuais; troca de experiências.

4) Essências Aromáticas
Usei e abusei da essência de Lavanda (dica de Mariana Portella)

5) Música
Muita música pra relaxar.. Indo desde sons da natureza até a lista de parto.

6) Livros
Aproveitava as horas intermináveis que Chico pedia peito para ler. Li sobre tudo… Parto, amamentação, puerpério, biografias, ficção…

7) TV
Muitos filmes e seriados. Até mesmo novelas, por que não?

8) Amamentar deitada
Amamentar deitada é muito amor! As mamadas noturnas deixaram de ser tão cansativas a partir do momento em que eu e Chico nos entendemos deitados. Ele mama, eu durmo, fica todo mundo feliz! É uma boa também para os dias que a cria mama muito (eu ficava e ainda fico com os braços cansados e doloridos!) Amamentar deitada revolucionou a minha vida!

9) Chorar e desabafar
Ficar guardando não faz bem. Bota pra fora, se desespere. A gente fica mais leve depois de uma boa crise de choro!

10) Escrever
Comprei um caderno onde eu escrevia as angústias e delícias do puerpério e da amamentação.

11) Respirar
Para parir, a gente aprende a respirar. E eu descobri que essa forma nova de respirar, uma forma mais consciente, onde a gente percebe o movimento, ajuda a acalmar em muitos outros momentos!

12) Rescue (Floral de Bach)
Antes de dormir, todo dia. Porque nem sempre respirar vai ajudar!
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Com paciência, a amamentação fluiu. Meu corpo entendeu o ritmo de Chico. Meu coração acalmou. A gente se entendeu. Hoje, a gente percebe no Chico uma confiança e segurança que a gente sabe que são frutos de uma criação que segue ao máximo as demandas de Chico. Eu acho que vale a pena insistir. O resultado é recompensador, mas reforço que é necessário entender seu corpo e respeitar seu limite. Nada de cobranças. Elas só colaboram para dificultar o que já está difícil (mas isso é assunto para outro texto).

Camila Apocalipse é uma mãe que AMAmenta e autora da página Devaneios maternos, um espaço destinado ao compartilhamento de experiências e ideias, a maioria relacionada à gestação e maternidade. Mas, como ser mulher vai além de ser mãe, uma reflexão sobre nosso papel na sociedade. Um diário sobre a caminhada de uma mulher que quer encontrar seu lugar como mãe e mulher.

mamadeira-chupeta (570x342)Imagens: reprodução

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Lugar de amamentar é onde o bebê tiver fome. Famosas endossam campanha pelo direito de amamentar em público

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