Elas por Elas

Pra lá de Bagdá

11 de outubro de 2012

por Rose Blanc

Após inúmeras mudanças pelo Brasil afora para acompanhar o meu marido, engenheiro civil, daquela vez estávamos partindo com nossos três filhos pequenos para morar do outro lado do mundo. Nosso destino era o Iraque, mais precisamente, o acampamento da Rodovia Expressway da Construtora Mendes Júnior, localizado a uns 180 km…pra lá de Bagdá!

Era década de oitenta e além do choque cultural e climático que já esperávamos, nos deparamos no antigo berço da civilização. É claro que isso merecia bem mais do que vou relatar aqui, entretanto, aí vão algumas curiosidades.

Quando partimos eu estava em êxtase, aventureira que sou, sabia que não poderia estar vivendo algo melhor naquela época! Até hoje, cenas pitorescas passeiam por minha memória.

O meu primeiro passeio de camelo e as idas ao “souk”, mercado de Bagdá – onde negociar significa barganhar exaustivamente – são algumas das incríveis lembranças que vou levar para o resto da vida.  Pelo menos uma vez a cada dois meses lá estava eu no souk. Essas idas ao mercado sempre incluía uma parada num vendedor de “doner kebab” (espécie de wrap de carne de cordeiro, assada num espeto vertical giratório), uma delícia! Esquecia do tempo fazendo compras em meio a tapetes persas, tecidos, metais de decoração e quinquilharias, caminhando curiosa por entre os becos tortuosos e barulhentos, sob o forte cheiro do fumo “naguilé”, da mistura de chás, frutas exóticas, temperos e especiarias. Era como se estivesse dentro do filme de Ali Babá.

A vida no acampamento proporcionava uma estreita convivência social com pessoas de culturas diferentes. Era uma comunidade mista, com mais de trinta nacionalidades. O ambiente de colaboração e a troca constante de experiências nos impelia a enxergar o outro sem preconceito de raça, religião ou costumes. A relação era tão intensa que chegamos a criar uma nova linguagem por lá, o “mendês”, mistura de idiomas desenvolvida para facilitar a nossa comunicação. Planejávamos e construíamos coletivamente o nosso dia-a-dia. Nossos filhos, por sua vez, cresciam aprendendo, com naturalidade, a respeitar as diferenças. Entendo que isso provocou profundas alterações no nosso caráter.

No Iraque, o clima é árido, praticamente desértico. Só existem duas estações no ano: inverno e verão. No verão, as temperaturas são muito altas durante o dia, chegando aos 55º C, suportáveis apenas por causa da falta de umidade do ar. As roupas recém-lavadas secavam em apenas 30 minutos. Em contrapartida, no inverno tudo congela, as temperaturas ficam na média de 6ºC, durante o dia, podendo ser negativas à noite. Várias vezes, o meu tanque, que ficava fora de casa, entupia por causa da formação de estalactites.

Na transição entre as duas estações ocorre um fenômeno, que fascina e amedronta ao mesmo tempo. É a tempestade de vento e areia do deserto chamada, em mendês, de “Mohamed” (assista ao vídeo!)  Essas tempestades estão entre os fenômenos mais violentos e imprevisíveis da natureza. Ventos altos levantam as partículas de areia no ar, criando uma nuvem de grãos sufocante, reduzindo a visibilidade a zero, em questão de segundos. Um paredão de areia alaranjado desloca-se com ventos de até 100 km/h, num barulho surdo e contínuo de trovão. Como no deserto a geologia é plana, tem-se um espetáculo descomunal, num campo de visão de 360º.

Com o passar do tempo, comecei a pressentir a chegada do “Mohamed”. Assim que identificava os sinais, rapidamente, localizava meus filhos, trazendo-os para perto de mim. Recolhia tudo que estava na área externa da casa que pudesse voar. Por fim, trancava todas as portas e janelas para aguardar o dia virar noite – era o que literalmente acontecia. Essa tempestade de areia pode durar horas ou, até mesmo, dias… Quilos de areia fina entram por todas as frestas da casa e pelos orifícios do nosso corpo. Passávamos dias tentando limpar toda aquela terra, que entrava até nas caixas de sapato fechadas dentro dos armários.

O rastro que o “Mohamed” deixa é aterrorizante, principalmente, a destruição nos vilarejos pobres daquela região. Falta energia, os animais morrem… Felizmente, nosso acampamento era construído com o intuito de resistir a esse fenômeno.  Lembro-me de que somente uma vez a tempestade desfolhou algumas casas próximas a nossa, fazendo voar telhados e objetos. Nossas casas eram do tipo conteiner, cobertas nas laterais com revestimento plástico. Graças a Deus ninguém no acampamento se feriu.

Um dia soube que voltaríamos para o Brasil e à medida que a data de nossa partida se aproximava eu me dava conta de que  estava perdendo algo. Tinha consciência de que estava morando onde a humanidade iniciou sua marcha rumo à civilização. Gostaria de ter ficado mais naquela terra para tentar desvendar melhor seus mistérios, conhecer mais, viajar mais…

Escrevi este “post” motivada pela experiência pessoal vivida no Iraque, país que para nós, ocidentais, parece estar perdido no tempo. Lá, ainda hoje, encontram-se tendas de grupos nômades beduínos. País onde a mulher é desprezada e vive escondida embaixo da abaya e do hijab, sem direito a caminhar ao lado de seu marido.  Mas apesar das dificuldades de adaptação naquele país de extremos, posso dizer que minha experiência foi enriquecedora e que cada dia vivido no Iraque valeu a pena!

Leia também:

Quando nossos pais envelhecem
'Quando ele morreu, passei algum tempo fora de mim, como se estivesse morta também'
Saudades do tempo em que meu tempo nem era meu #diadasmãesOF

Pesquisar

Perfil

  • Ana Karla Gomes

    Editora Chefe

  • Rose Blanc

    Relações Públicas

  • Talita Corrêa

    Editora-Assistente

  • Estevão Soares

    Colunista

Arquivo

Assine nossa news e receba tudo em primeira mão

Observatório Feminino