Elas por Elas

Retrato

20 de outubro de 2017

por Observadora

Minha tia me mostrou uma foto do meu aniversário de dez anos.
Eu não me lembro deste dia.
Nenhum flash, nenhum momento.
Nada.
Na imagem, entre várias pessoas, ali, totalmente sem foco, num flagrante de perfil, eu vi uma menininha feia de doer.
Ela era um futuro em branco ainda.
E se ela não tivesse usado aparelho nos dentes?
E se não tivesse operado os olhos?
E se tivesse escolhido outra carreira?
Fiquei olhando aquela garotinha, tão feinha, tadinha, que nem percebi que eu a conhecia.
Foi minha irmã quem me disse que aquela era eu.
Eu?
Eu.
Tive que aceitar, para doer menos.
Uma vez, em uma das milhões de diferentes terapias que já fiz, o especialista me indicou um exercício que consistia em um encontro entre a garotinha feinha e minha versão adulta.
Foi um encontro interessante.
Achei, a princípio, que a minha versão adulta colocaria a versão criança no colo, lhe daria uns conselhos, e diria a ela que não se preocupasse, que ela não ficaria feia para sempre.
Mas o que aconteceu foi justamente o oposto.
A menina consolou a adulta.
E lhe disse, com palavras tranquilas, que não se preocupasse, pois ela faria coisas nunca antes imaginadas, viajaria por mil lugares, teria amigos e amores incríveis.
E que não fosse tão séria e principalmente que não se preocupasse tanto com tanta coisa.
Que não se cobrasse mais que deveria.
Porque a vida flui.
E as coisas vão acontecendo, e a gente vai vivendo e dando um jeito em tudo.
Porque se a gente nadar a favor da maré, tudo fica melhor.
Saí do meu encontro imaginário agradecida por tudo aquilo.
E me lembrei disso tudo, quando vi aquela foto, daquele momento perdido no tempo.
Um segundo captado, no meio de uma celebração, numa fotografia desfocada.
O momento de uma foto.
O momento de uma vida.
Uma vida que passou assim, num piscar de olhos.
Uma vida que é minha.

Sabrina Sulam, escritora e roteirista, quarentona com cabeça de adolescente, solteira convicta e mulher mais que moderna.

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