Elas por Elas

Ser mãe não é profissão

14 de julho de 2017

por Observadora

Foto: Alê Rocha (projeto “Mãe, mulher e”)

Depois de 10 anos do primogênito, um outro [teste] positivo. Eu não fazia ideia de como aquelas duas listrinhas iriam mudar completamente a minha vida. Eu já tinha um filho de 10 anos, independente, grande e eu já tinha quase esquecido como era ter um bebê nos braços. Medo foi o que senti. Junto com o positivo, a notícia de que eu tinha passado para o Mestrado.Aquele processo seletivo doloroso tinha valido a pena. E agora? Um bebê e uma dissertação. Não, eu não consegui. Um ano de curso e desisti. Abandonei um sonho que estava atrasado há tempos. Não consegui conciliar noites sem dormir e leituras densas. Um bebê lindo e saudável, mas uma perda também muito grande: meu sonho de seguir carreira acadêmica. Dizem que a cada escolha, uma renúncia. Não foi o caso. Eu não tive como escolher.

Achei que, pelo menos, eu iria conseguir conciliar meus trabalhos já que são flexíveis. Aos quatro meses de gestação, fui convocada para um concurso que tinha feito dois anos antes de engravidar. Assumi. Lá ia eu com uma barriga enorme pra um lugar distante enfrentando meios de transporte extremamente ineficientes. Eram três horas para ir e três horas para voltar. Ao fim da licença-maternidade, eu não tive coragem de enfrentar todo aquele tempo longe do meu filho, que, naquela época, só queria saber de peito e nada de alimentos complementares. Seriam seis horas só no trânsito mais o tempo de trabalho e como era difícil ordenhar e deixar leite pra ele! Cansativo, nem sempre dava certo. Leite que ele não queria. Menino esperto, queria o leite direto da fonte. Novamente, uma não-escolha: um concurso ou um bebê com fome em casa longe de mim? O bebê, claro. Pedi exoneração com o coração partido e a cabeça confusa. Não é todo dia que a gente passa em concurso.

Trabalhando desde dezesseis anos, eu não consegui ficar sem meu trabalho. Tá certo que mantive um outro emprego em que também sou concursada. Esse, perto de casa. Mas eu queria mais. Foi então que resolvi empreender. Abri uma loja online de itens infantis que tinham a ver com os meus ideais. Foi um sucesso! Achei que não fosse vender nada e, quando vi, era tanta encomenda que eu nem acreditava. Seguia eu para os Correios com caixas e mais caixas e uma criança no carrinho. Uma criança que não aguentava muito tempo na fila, que não se contentava em ficar ali parada. Um estabelecimento sem rampa. Eu com carrinho de bebê, criança, caixas e escada pra subir. Em alguns dias, havia quem me ajudasse. Em outros, eu desistia e voltava pra casa. Foi quando eu senti na pele que esse mundo não acolhe mães e bebês. Mas, segundo o mundo todo, com uma criança feliz e gordinha, eu deveria ser só felicidade. Loja fechada. Decidi esperar mais um pouco.

Agora, com ele na escola, seria mais fácil trabalhar. Duas entrevistas. Segunda de manhã? Puxa, infelizmente, não dá. Estou sozinha com meu mais novo em casa. Todos os dias às 11h? Gostaria muito, mas é nesse horário que estou arrumando o pequeno pra escola e aguardando meu filho mais velho pra almoçar. E foi assim que duas oportunidades se esvaíram. Saí de cabeça baixa e lamentando pelos horários incompatíveis.

Até que, há umas duas semanas, apareceu na minha vida um aluno particular! Olhos brilhando. Adoro dar aula. E seria perfeito: ele poderia vir à minha casa em um horário em que estou em casa. Tentei a primeira semana. Busquei o menor na escola, dei banho, comida, contei historinha e, com muito custo, consegui fazê-lo dormir antes que a aula começasse. Tudo certo. O aluno veio, casa em silêncio, a aula rolou. Ontem, já foi diferente. Tentei o mesmo esquema, mas criança é imprevisível. Minha criança tagarela que puxa assunto com todo mundo não dormiu e seria impossível dar aula com ele acordado querendo mostrar todos os brinquedos e como ele sabe dar cambalhota. Aula cancelada. Sensação de impotência.

Dizem que tudo isso foi escolha minha.
Dizem que tenho que estar feliz por ter filhos saudáveis.
Dizem que não tenho do quê reclamar.
Dizem que reclamo de barriga cheia.

É dessa forma que silenciam mães. Porque mãe não precisa ter outros quereres, outros sonhos, outras invenções. Mãe, nesta sociedade, tem que se bastar como mãe. Ou você entra na fila da creche pública, que nem sempre tem vaga e nem sempre é tão boa ou perto da sua casa, ou você despeja seu salário em uma creche particular. Ou você trabalha o dia todo e mal vê a cria ou você abandona sua carreira. Não há meio-termo. Antes de ser mãe, você concorda que “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”, mas depois da cria parida, você descobre que, na verdade, nossa sociedade está mais para “quem pariu Mateus que o embale”. Para conseguir seguir sendo uma mulher profissional, eu precisaria explorar a minha mãe (mantê-la na minha casa cuidando dos filhos todos os dias) ou explorar uma outra mulher (que ganharia um salário muito inferior ao merecido). Note: eu só falei de mulheres. Por quê? Porque homens nunca terão esse problema. Homens jamais precisarão pensar com quem os filhos vão ficar ao aceitar um emprego e jamais responderão, em entrevistas, se têm filhos. O cuidar do outro não é uma questão para o homem. O cuidar do outro é uma questão que existe apenas no mundo das mulheres.

Pra mudar, vai ser preciso muita luta. Luta por políticas públicas voltadas para as mulheres. Luta por divisão do trabalho doméstico e cuidado com as crianças. Luta por creche pública de qualidade para todos. Luta por poder trabalhar meio período ou “home office”. Luta por igualdade de salários entre gêneros. Luta por uma sociedade que acolhe mães e crianças. Afinal, eu não me chamo mãe.

Texto originalmente publicado no blog Não Me Chamo Mãe por Dany Santos, professora e colunista do Huffpost Brasil

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