Elas por Elas

Seu belo mandou dizer…

23 de janeiro de 2015

por Talita Corrêa

Quando eu tinha uns 11 anos, ouvi minha tia dizer que meu cabelo era trabalhoso e problemático, com volume na parte de cima e cachos na parte de baixo. Aos 16 comprei uma chapinha e nunca mais me arrumei em cinco minutos. Fui morar em Londres e cismei que o frio tinha confundido a consciência do bulbo capilar. Na volta ao Brasil, criei coragem e dei uma bela de uma escova japonesa na juba. Saí do salão soluçando de tanto chorar. Havia virado um Cocker Spaniel tratado com creme rinse.

Minha chefe, daquelas com uma intimidade desnecessária, me disse que eu ia ficar careca. Coloquei um aplique temporário para estimular o crescimento dos fios. Faltou amiga pra dizer “Mas que merda é essa?”.

Quando eu tinha uns 20 anos, as calças número 38 começaram a ficar apertadas. Uma atendente de loja me disse que eu era fofinha e eu passei sete dias só comendo espinafre. Tive um minidesmaio na porta da faculdade e nunca mais comi uma lasanha com a mesma felicidade.

Quando eu tinha uns 25, fiz o truque do duplo espelho para avaliar a bunda e finalmente descobri o que era celulite. Uma prima me disse que eu precisava usar um creme milagroso naquele mamão de feira. Milagre: em somente um dia fiquei 150 reais mais pobre e tive a maior alergia de toda minha vida.

Ontem, quando eu tinha uns 28 anos, uma esteticista me disse que meus cílios eram ralos, curtos e sem graça. Me sugeriu um alongamento que me impedia de esfregar os olhos ao acordar. Uma semana depois eu só tinha dois fiozinhos restantes em cima dos olhos e meu namorado perguntou porque aquilo estava parecendo duas patas de barata.

Quem disse que se amar é fácil? Muita gente fala na ditadura da beleza de hoje, mas minha mãe já reclamava do seu quadril largo e rostinho cheio na década de 70. A diferença é que quanto mais nossos vestidos puderam encurtar, nosso corpo ficou mais à mostra, e a patrulha – de nós com nós mesmas – aumentou. É a mesma lógica que leva mulheres a lotarem academias e fazer promessas pros santos do emagrecimento às vésperas do verão.

Eu tenho absoluta consciência que isso nunca vai mudar. Que minha filha reclamará das mãos curtas que deve herdar de mim. Que minha neta pode lamentar a baixa estatura que a família dos avós lhes deu. Elas serão consigo tão exigentes quanto as índias que se enfeitam de tintas coloridas e as japonesas que usam saltos de madeira gigantescos. A vaidade e autoestima estão mais ligadas à nossa natureza instintiva reprodutora do que nosso desapego pode calcular.

Acontece que, vez outra, a sociedade entra em pane e esquece de nos contar o quão mutáveis são todas referências de beleza. Ela dá à imagem um peso equivocado, desvalorizando todo resto. Ela marginaliza quem não se submete às suas regras pontuais e, cruel, faz de mulheres – e também homens – vítimas frágeis. Ela fica com tudo fora do lugar. Cobra além. Procura para achar.

Eu tenho, no entanto, uma grande esperança de que isso mude. Como a bolha imobiliária que estoura depois de não ter para onde crescer (então os preços dos imóveis caem vertiginosamente). Como a resiginificação da moda do luxo, que transformou o excesso de bolsas Chanel e relógios Rolex em coisa cafona (então as celebridades passaram a fazer propaganda de lojas de departamento, repetir roupas e virar fãs dos brechós). Nesse efeito marcha ré obrigatória, Giseles Bündchen e Angelinas Jolie vão virar exemplo de ostentação dispensável. Vão poder sair nas ruas de cara lavada e cabelo oleoso para não pecar por excesso.

As pessoas vão entender que a beleza perfeita não é gratuita, e que o preço que se paga por ela é ingrato, inalcançável. Que a beleza que vemos nas revistas, nas TVs e nos catálogos são belezas profissionais, e que todo resto do mundo pode ser apenas um belo aspirante, técnico do bonito não especializado.

Há uma semana sentei na cadeira do dentista já me desculpando pelos dentes tortos de quem não quis usar aparelho por mais de seis meses. O ouvi dizer que tinha dentes perfeitos, naturais, e que as curvinhas que eles faziam na arcada inferior contavam um pouco de mim, de quem eu era.

Também não tem muito tempo que uma dermatologista me aconselhou a jamais usar ácido para diminuir as sardas do rosto. “São charmosas, discretas e sua marca registrada”.

Nessa mesma maré de sorte, recebi da academia minha avaliação física por email. O avaliador destacava que meu percentual de gordura era aceitável e minhas medidas estavam de acordo com a estrutura do meu corpo. Eu não precisava emagrecer, mas aumentar a resistência.

Os que eles me disseram é o que eu digo mentalmente para minha mãe toda vez que a vejo: não seja algoz de você mesma. Aos 58 anos, sem nunca ter feito uma plástica ou investir em procedimentos rejuvenescedores, ela tem um corpo incrível, um jeito de menina que mais ninguém tem. As rugas, uma por uma, parecem justamente gritar: “Olha como minha beleza é madura. É só minha”.

Eu hoje sei. Sou mais bonita do que era há dez anos. Ela também.

Tem dias que esse quadril de filha da Família Dinossauro me tira do sério. Tem dias que boto um salto – coisa rara – e ele me faz sentir um mulherão. Tem dias que minhas bochechas parecem exageradas para uma mulher na minha idade. Então eu disfarço com um pó escuro na linha lateral do rosto e saio por aí. Tem dias que eu queria ter cinco quilos a menos. Mas fiz uma escolha. Só vou perder dois e meio e , em troca, não preciso me mudar pra cima da esteira.

Eu só tenho 1m63cm de altura (na hora de medir, faço um rabo de cavalo e digo que é 1m64cm), mas caibo direitinho no colo de quem eu amo. Adoro meus olhos pequenos, mas eles somem se eu dormir demais. Minhas amigas acham que estou doida, mas tenho certeza que meu peitos já começaram a cair. Minha boca é gordinha como a de um peixe. Me fez chorar rios na adolescência e hoje me faz sentir uma mulher privilegiada. Não sou bonita como a Alessandra Ambrosio desfilando na passarela do Victoria’s Secret e nem entro numa calcinha 36. Mas quando faço minhas palhaçadas na sala de casa e conto minhas piadas improvisadas, meu namorido me olha como se eu fosse e a rainha da primavera de Beagá.

Então eu me acho do jeito que tenho que achar.

Se tudo tem limite, o belo também. Quando ele reluz a ponto de doer nos olhos e adoecer a cabeça, está fora de aceitação. Quando ele busca defeito numa jornalista esportiva grávida que vai à praia com o marido (foto), quando ele ridiculariza uma correspondente internacional cujo enquadramento da câmara esconde seu corpo, quando ele queima em praça pública as celulites de uma musa fitness, quando ele investiga com obsessão nossas assimetrias, nossas pontas duplas, nossas estrias e veias aparentes na batata da perna… Quando ele determina o tom do branco ideal dos nossos dentes, nos compara como se fôssemos resto de charque no mercado, e nos diz sobre nossas características como se elas fossem defeitos (ou como se fossem nossos defeitos o maior sinônimo do nosso eu inteiro)… Está tudo feio, está tudo disforme, está tudo errado.

 

fernanda gentil

Fernanda Gentil, jornalista

 

Observe mais:

E o belo é relativo: Scarlett Johansson e Lupita Nyong’o estão aí para provar

 

 

Imagens: Reprodução

Siga o OF no Twitter e no Instagram e curta a nossa página no Facebook 

Leia também:

Por que não Feliz Dia das Namoradas?!
Fios de Cabelo
Solitude é povoar a sua própria solidão

Pesquisar

Perfil

  • Ana Karla Gomes

    Editora Chefe

  • Rose Blanc

    Relações Públicas

  • Talita Corrêa

    Editora-Assistente

  • Estevão Soares

    Colunista

Arquivo

Assine nossa news e receba tudo em primeira mão

Observatório Feminino