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Sobre um relacionamento abusivo: “era muito dependente emocionalmente dele”

16 de outubro de 2015

por Observadora

abuso
Tudo começou em 2006, eu ainda era uma menina de 16 anos, cheia de vida, sonhos, nunca tinha namorado sério antes, já trabalhava, pois sempre fui muito independente, e foi quando o encontrei. Falo que o encontrei, pois eu já o conhecia há algum tempo, frequentávamos a mesma igreja há alguns anos anteriores, depois ele foi passar uma temporada fora do Brasil e nunca mais o vi, e agora tinha acabado de retornar.

Cinco anos mais velho, loiro, olhos verdes, experiente, já havia até morado fora do Brasil, e estava interessado em mim, me apaixonei fácil fácil. Eu era amiga da irmã dele, e então em um dia combinamos de sair todos juntos, não deu outra, depois de um beijo roubado, começamos a sair, e em pouco tempo já estávamos namorando.
Como todo começo, tudo era perfeito, ele era romântico e carinhoso, fazia eu me sentir especial. Depois de algum tempo (menos de 2 meses), ele começou a insistir na questão sexo, eu era virgem ainda e ficava meio assustada com isso, não tinha certeza se queria, mesmo assim acabou acontecendo um dia na casa dele.

Depois disso, começamos ter uma vida sexual bem ativa, e quando eu não queria tinha sempre que aguentar reclamações dele. Nosso namoro seguiu e, com o tempo, ele foi mudando comigo, percebia que ele já não era mais tão educado e carinhoso, não gostava do jeito que ele tratava a irmã e a mãe dele, era agressivo com ela, xingava, gritava, mas ele sempre colocava a culpa nelas para o jeito como ele as tratava, e eu tonta, tentava me convencer q ele estava certo.

Com o tempo ele começou a fazer isso comigo, gritava por tudo, me induzia (obrigava) a fazer coisas que eu não queria, e passou a demonstrar um ciúme de tudo e todos, com isso me afastei drasticamente da minha família, meus tios, primos, não podia nem cumprimentar eles, pois isso já era motivo de muita briga, fora os absurdos que eu tinha que ouvir, do tipo: você deve ta dando pro seu tio pra ele gostar tanto de você, entre outras coisas.

O ciúme dele era tão absurdo que até conversar com o meu patrão, q era um senhor de mais de 65 anos era errado pra ele, as vezes ele ia me buscar ou levar no serviço, e meu patrão que era muito simpático vinha logo conversar comigo, isso já era motivo para ele falar besteiras do tipo: que eu só estava trabalhando ali porque dava para meu patrão.

Mesmo com tudo isso acontecendo, eu ainda continuava com ele, era muito dependente emocionalmente dele, morria de medo de perdê-lo e ficar sozinha, e com isso os abusos foram piorando cada vez mais, chegou ao ponto de eu não poder mais falar com amigos, família, ele ditava as pessoas que eu podia ou não falar.

Uma vez ele foi me buscar na escola, e ao invés de me esperar no portão, ele entrou e foi logo na minha sala, chegando lá, eu estava conversando com um amigo (gay) distraidamente, ele entrou dentro da sala, chamou o garoto pra fora, e queria bater nele, só não chegou a esse ponto porque o professor que estava na sala entrou no meio da confusão, depois disso fui xingada, humilhada, e acabei parando de estudar no 2º ano do ensino médio.

Em um ano de namoro, vi minha vida mudar drasticamente, mas não tinhas forças suficientes para me livrar daquela situação, eu me imaginava terminando com ele, mas na vida real nunca conseguia, para piorar tudo, acabei ficando grávida, e decidimos ir morar juntos. Minhas tias até organizaram um chá de cozinha para mim, em consideração a mim, porque ninguém da minha família estava feliz com o meu relacionamento, e nesse mesmo dia aconteceu a primeira agressão.

Nem me lembro qual foi o motivo da briga, eram tantas, só me lembro que estávamos discutindo, ele me jogou na cama com força, se abaixou pegou um chinelo e tacou no meu rosto, acertando bem o meu olho, na hora começou a sangrar, e ele já veio pedindo desculpas e falando q foi eu quem tinha provocado aquilo, fui para o meu chá de cozinha com o olho roxo e inventei uma história bem mal contada, mas aquela altura do campeonato ninguém acreditou.

Fomos morar juntos, e acabei saindo do emprego, eu fiquei muito infeliz por conta disso, mas ele vibrou de alegria, e na primeira semana juntos aconteceu mais uma agressão. A partir daí, tudo era motivo pra ele me bater, mesmo grávida, perdi as contas de quantas vezes apanhei por causa do volume da televisão, ou porque não tinha feito a comida que ele queria, coisas ridículas que tenho ate vergonha de mim mesma, uma vez encontrei uma amiga na igreja e conversamos por um tempo, não comentei nada com ele, depois em outro dia, eu e ele fomos na casa da minha mãe, e minha irmã acabou comentando: nossa amiga disse que encontrou com você né, que vocês conversaram… Só de ouvir isso, ele já se levantou e tivemos que ir embora, cheguei em casa debaixo de chutes e pontapés, e levei uma surra nesse dia de ficar de cama.

Depois disso, o que já era meio proibido ficou ainda pior, a ponto de eu não poder nem ir na casa da minha mãe, ele saía cedo para trabalhar, e trancava o portão do lado de fora, de modo que eu não conseguia sair, e eu ficava trancada o dia todo, sozinha, até ele voltar.

Mesmo com tudo isso acontecendo, eu tinha vergonha de contar para as pessoas, até dos meus pais eu escondia, achava que a culpa era minha e que eu tinha que aguentar tudo sozinha. Ele me ameaçava de morte se um dia eu tentasse largar dele, e com o nascimento de nosso filho chegando, ele começou a ameaçar ele também, dizia que se eu terminasse dele ele matava eu e o bebe, que se eu pedisse ajuda pra alguém ou fizesse alguma coisa contra ele, ele matava o bebe, me matava e depois iria se matar, o terror psicológico era demais.

Todo esse terror em que eu estava vivendo me fez abrir os olhos para o meu filho, eu podia suportar tudo aquilo mas não queria que ele nascesse naquele ambiente horrível, sofrendo ameaça de morte, e com isso juntei minhas forças e com 39 semanas de gravidez sai da minha casa somente com a roupa do corpo, nem a malinha da maternidade eu pude trazer comigo.

Meu filho nasceu e fomos morar na casa da minha mãe, passei o primeiro ano sofrendo ameaças, perseguições, fui agredida porque ele invadiu a minha casa, fiz vários boletins contra ele, entrei com medida protetiva, e ele foi proibido de ver nosso filho. Ele fez várias denúncias no conselho tutelar da minha cidade, falando que eu não cuidava do nosso filho, entrou com pedido de guarda dele, tudo que ele pôde fazer para infernizar a minha vida ele fez, mas perdeu em todos os processos.

Até que um dia ele cansou e parou, eu voltei a trabalhar, estudar, e hoje quase 7 anos depois, sou livre, tenho minha independência física, financeira e emocional, ainda não encontrei o grande amor da minha vida, depois que se passa por uma situação dessas a gente fica com medo de amar novamente, mas ainda tenho esperanças que nesse mundo em que vivemos deve haver pelo menos uma pessoa certa pra mim, não tenho pressa.

A todas mulheres que estão passando por isso, tenham forças, peçam ajuda, porque há vida após um relacionamento destrutivo, pode parecer que não, mas depois de se libertar você conseguirá ver tudo que estava perdendo deixando que outra pessoa mandasse em sua vida.

——

Adriana* viveu um relacionamento abusivo e conseguiu livrar-se dele. Ela contou sua história no Moça, seu relacionamento é abusivo, página no Facebook, administrada pela jornalista Eutalita Bezerra, onde diversas mulheres compartilham situações vividas em namoros e casamentos, dando força a outras mulheres a saírem desse tipo de relação.

*nome fictício

Imagem: reprodução

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