Elas por Elas

Sobre ver uma amiga morrer por causa de uma depressão pós-parto

24 de agosto de 2015

por Observadora

Escrevi semana passada sobre a morte de uma amiga, ao que tudo indica ela morreu de depressão pós-parto. De toda dor por uma morte prematura, a dor da partida de uma mãe de uma menina de 4 anos e uma bebê de 5 meses. Parei agora para escrever esse texto que segue abaixo. Que possa servir de alerta para quem está sofrendo, se culpando, se afastando das pessoas. Peçam ajuda! Procurem um profissional!
Se você ainda pudesse me ouvir, eu diria para você relaxar. Se você ainda pudesse me ouvir eu pediria para você falar, para se abrir, para dividir. Eu diria que filho é a coisa mais linda do mundo, mas que suga sim. Eu diria que mãe é ser humano e não é perfeita, nunca foi e nem deve ser. Diria para você se cobrar menos e se perdoar mais. Diria para você tomar um banho bem demorado e cantar muito, mais alto possível para fingir que não ouve aquele: mãeeeeeeeeeee… Juntamente quando a gente não pode atender. Eu diria para você assistir um filme, algo que não fosse da Disney e bem longe do Discovery kids. Se você ainda pudesse me ouvir eu te recomendaria uns CDs antigos, trilhas sonoras de filmes, coisas que me remetem à minha adolescência… Darting Dance, Footloose, Flashdance… Mas que faz um bem enorme ouvir.

Eu poderia te indicar uns livros de auto ajuda que ninguém assume que gosta, mas batem recordes de vendas. Para você eu confessaria que gosto! Se você pudesse me ouvir eu te diria que minhas louças se acumulam na pia e que não sinto nenhum remorso com isso! Que não passo uma vassoura na casa, que às vezes embolo minhas roupas e passo só na hora de usar. Contaria que às vezes congelo a comida dos meninos para ficar mais prático, raramente consigo fazer jantar, quando não faço comemos sanduíche ou pedimos fora. Caio comeu muita papinha da Nestlé e nunca teve problemas alimentares… Não descuidamos das vacinas, mas tenho protelado o pediatra de rotina que já deixou de ser rotina. Eu te falaria minha amiga, que cada uma faz o melhor que pode e que nunca vai estar bom o suficiente, mas isso não quer dizer que é ruim… Isso é o real, o possível.

O ideal é trocar a criança assim que evacua, fazer a papinha fresca e nutritiva, banho, sem chupeta, amamentar o máximo possível, parto de preferência humanizado, roupinhas de algodão cru, produtos hipoalérgicos sem teste em animais! Dormir no próprio quarto, na hora certa, estipular uma rotina, dedicação total… Oi??? Menos pressão por favor! Eu te diria minha amiga, só o que você consegue fazer! Do tamanho do seu ombro, porque a cruz quem carrega é cada uma. Se você ainda pudesse me ouvir, eu diria que um dia sem banho não mata ninguém, que quando é necessário, chupeta pode ser a melhor coisa do mundo, eu chupei até 7 anos e nunca tive problema na arcada dentária, podia ser diferente… Podia… Mas comigo não foi. Mandaria você usar as roupinhas que tivesse, dar a papinha que você conseguisse preparar, se não conseguisse usar a mais prática, a mais rápida. Diria que você poderia dormir com o bebê e colocar no berço ou cama quando quiser, quando achasse que estava na hora…diria para você: seja autônoma! Aproprie da sua maternidade! Quanto mais leve ficar menos dolorido se torna.

Dói ser mãe, dói ver sua vida modificada, seus interesses estagnados, seus sonhos atravessados, seu cabelo para cima, sua unha sem fazer, seu sono atrasado, sua barriga modificada, seu casamento em segundo plano, você com fome, sem poder comer na hora, você comendo sempre depois e muitas vezes frio, e daí por diante. Não é bom? É! Mas eu te diria minha amiga: se cuide também, se aceite também, exista também. Filho também tem que esperar, filho aprende se ensinar. Filho fica menos dependente com o tempo e tudo muda. Se você ainda pudesse me ouvir eu diria para você se livrar de tudo que não usa em casa, doa, joga fora. Se comprar uma coisa nova se livra da outra, acumula menos, mais espaço, menos coisa para limpar. Mandaria você comprar outro aparelho de jantar para quando sujasse um você usaria o outro, se a pia acumular, diria para você dividir com o tanque, ou comprar bastante descartável. Era só fingir que não assistiu as aulas de Educação Ambiental.

Se você ainda pudesse me ouvir eu te diria: SIMPLIFIQUE. Te diria: PACIÊNCIA. Se você ainda pudesse me ouvir eu diria VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA, é você, sou eu e milhares de outras mães, que sentem o mesmo, que vivem o mesmo. Mas você não pode mais me ouvir e isso me dói muito. Nada poderia ser pior que não ter você. Todas as suas faltas poderiam ser perdoadas, todos os erros desculpados, desde que com a sua presença. Mas você não pode nem mais errar…Eu diria para você minha amiga Rose: você é importante, você fará falta… Você já faz falta!

Imagens: reprodução

Luciana Diniz mora em Minas Gerais e é mãe de dois meninos.

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