Elas por Elas

Sou mulher, moro em Recife e estou com medo de sair de casa

27 de setembro de 2016

por Talita Corrêa

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Prazer. Tenho 30 anos, sou jornalista, e moro em Recife. Cidade descolada, do manguebeat, dos filmes do Kleber Mendonça, point do alternativo nacional. Capital de Pernambuco,  Estado sede do machismo cultural nordestino,  território ingrato dos altos números de feminicídio.

Há dois meses, toda vez que meu celular exibe uma notificação para grupos de Whatsapp, eu suo frio. A ferramenta do “bom dia” repetitivo virou, agora, uma espécie de plantão policial ao pior estilo Cardinot:

Amiga de uma amiga minha  acaba de ser estuprada na Madalena“. “Meninas, fiquem em alerta. Mais um caso de estupro na Zona Norte”. “Estudante de medicina é violentada no Parnamirim“. “Mulher é abordada por estuprador na Rua Amélia“. “É registrado estupro coletivo em Paulista“. “Evitem passar de carro sozinhas pela Agamenon”. “Aluna é assaltada e ameaçada de estupro dentro da Faculdade de Direito de Recife“. “Mulher sofre abuso no metrô“. “Homem está abordando mulheres na Imbiribeira para apalpar seus seios e genitálias“. “Motorista se desespera ao ter carro abordado por rapaz em estacionamento de shopping da Zona Sul”.

Cuidado. Alerta. Evite. Não faça. Não saia. Sem saia. Não seja. Não.

Criaram, sem saber, um mapa do terror na região metropolitana da tragédia. Formaram, sem querer, uma rádio patrulha do crime sexual. Instauraram um inevitável pânico. Mergulharam-nos num livro pesado do Sidney Sheldon. Estamos em cenário de calamidade. Reféns em condições de nós mesmas. Sujeitas a essa e outras Recifes, já perigosas para todos os gêneros, e de tantas absurdas formas. Somos vítimas. Antes e depois da onda monotemática do noticiário.

Andamos com receio de ir  trabalhar. Entramos no carro cantando os pneus e desprezando os dois segundos guardados para colocar o cinto. Olhamos para todos os lados. Multiplicamos ansiedade. Não damos informação a desconhecidos.

Seguimos no meio da rua porque preferimos o risco do atropelamento à ameaça da solitária calçada. Nos aproximamos de mulheres que nunca vimos para tentar andar em grupo. Desconfiamos de tudo. Dobramos o tempo do percurso para tornar o caminho mais seguro. Procuramos luzes e postes. Evitamos sair quando já é escuro.

Trememos na espera da parada de ônibus. Rezamos para ser “apenas” assaltadas. Sofremos ao passar entre terrenos baldios e túneis sem movimentação. Não paramos em sinal vermelho. Compramos spray de pimenta. Estamos fazendo aula gratuita de defesa pessoal. Pedimos táxi e Uber dirigidos por outras mulheres. Buzinamos, fazemos protesto e levantamos faixas. Avisamos, aliviadas, quando chegamos em casa. Brigamos com a nossa sombra. Seguimos de cara fechada.

Usamos boné no trânsito e prendemos o cabelo. Temos sintomas de síndrome do pânico e pesadelos.  Caminhamos com um molho de chaves cravado entre os dedos. Guardamos a legging na bolsa. Temos taquicardia quando ouvimos ”psiu”. Puxamos a nossa NÃO culpada saia.

O Whatsapp e a internet viraram nosso relatório de desgraça. Ganhamos nosso próprio GPS de “não faça”. Atravessar, seguir, andar, existir e todo verbo infinitivo virou um desafio sem fim.

Ser mulher é uma barra.

Acabou o prazer. Tenho 30 anos, sou jornalista, e moro em Recife. Também sou uma protagonista infeliz dessa história de começo, medo e, sim, estou absolutamente aterrorizada.

 

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