Elas por Elas

Terapia do abraço

3 de abril de 2014

por Observadora

Essa poderia ser a história de uma criança que precisou aprender sobre abandono cedo demais. Poderia ser também a história de um orfanato no subúrbio de Cape Town, cidade que fica lá na pontinha do continente africano. Poderia ser sobre uma pessoa que largou tudo para tentar se salvar dos seus traumas. Ou quem sabe poderia ser a história de um punhado de amor que não precisou estar nos quadrinhos infantis para mudar uma vida… Mas não é nada disso e tudo daquilo. Essa é só mais uma história entre tantas outras, entre tantos encontros e desencontros, tantos erros e acertos, tantos medos e desejos. Essa é só uma história.

“Não é preciso muito tempo para perceber que as crianças já sabem todas as regras daqui. Enquanto os menores deitam no chão quando avistam as mamadeiras, os maiores abrem o sorrisão quando ouvem o sininho e correm para o refeitório. Depois de comer, estendem as mãozinhas para limpar e sobem as escadas em direção aos quartos. Até a hora de tirar os sapatos está cronometrada em suas cabecinhas.

Achava isso ruim. Eu, que tinha acabado de chegar e não sabia nada sobre a vida num orfanato, achava que as crianças eram tratadas como ratos de laboratórios. Pensava assim até o dia em que chegou um garotinho novo… Nunca rezei tanto para alguém entrar na linha. Só assim seus olhinhos teriam uma chance de brilhar um pouco.
Ele foi levado pela mãe e pela Assistente Social. A coitada que o colocou no mundo só chorava e não conseguia entregar a criança. O pequeno, por sua vez, não entendia nada. Ficou assustado, acanhado. Ele chegou bem na hora do almoço e enfrentou logo de cara a soneca da tarde. Sim, ele tinha que dormir naquela hora. É a regra da casa. Primeiro escândalo.

Hora de brincar no pátio. A criançada solta, correndo de um lado para o outro e ele parado feito estátua num canto. Ele não queria brincar, mas tinha que brincar. Segundo escândalo.

Hora de tomar banho. Não, ele não queria ficar pelado na frente de estranhas, não queria que uma desconhecida trocasse suas fraldas e muito menos entendia que precisava dividir atenção com mais nove crianças no mesmo banheiro. Terceiro escândalo.

Não dá pra narrar todas as crises da primeira semana, mas foi de revirar o estômago acompanhar esse processo de adaptação. Não foi só choro nem pirraça. Foi sofrimento no olhar, dor nas lágrimas, vazio, solidão, abandono, saudade. Foi tanta dor que nem sei explicar.

Como você explica para uma criança que, de uma para outra, ela precisa dividir tudo, absolutamente tudo, com outras dezenas? Como você explica que a mãe foi embora, a sorte tirou férias e a dor só está começando? Não dá. Simplesmente não dá. E foi aí que acabei vivendo essa viagem da forma mais intensa e sublime até agora. É pura terapia do abraço. Chorou? Dá um abraço. Caiu? Dá um abraço. Brigou? Dá um abraço. Bateu? Dá um abraço também. Distribui abraços. É de graça, não dói. Não dá pra fazer mais nada, a não ser mostrar que no meio do caos ainda existe amor.

E funcionou. Não que eu duvidasse da minha mais nova elaboradíssima técnica de acalmar criança, mas confesso que foi mais desespero do que uma crença propriamente dita. Duas semanas depois o mesmo menino assustado, arredio e chorão estava abraçando o coleguinha. Achou legal sentar no meu colo e dividir a atenção com os outros. No mesmo dia ele conseguiu completar sozinho um jogo de encaixe. O que ele ganhou? Ganha um abraço quem adivinhar.

 

   Naiara Sobral é jornalista e autora do blog Cores da África

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Imagens: arquivo pessoal

 

 

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