Elas por Elas

Tenho certeza que vocês iam adorar meu Tio João

1 de julho de 2016

por Talita Corrêa

Eu escrevo porque queria que vocês conhecessem meu Tio Joca. Ganhassem um abraço demorado dele agora, ouvissem dois ou três elogios gratuitos, depois adicionassem ele no Facebook, onde nunca mais deixariam de receber mensagens carinhosas e frases motivacionais. Que percebessem seu olhar meio traquino, ouvissem suas respostas sempre sagazes e avaliassem o bigode fora de moda que parecia com o antigo bigode do meu pai.

Talvez ele convidasse vocês para conhecer Concórdia no frio e fizesse um quizz relâmpago de perguntas curiosas cujas respostas só ele sabia. Talvez ele falasse qualquer coisinha em francês, comentasse sobre política, ensaiasse uma oração bonita, dividisse um cafezinho quente e oferecesse ajuda. Talvez ele aconselhasse vocês a casar um dia, “porque casamento é um negócio legal”. Talvez, só talvez, vocês então entendessem porque ele era um cara tão absurdamente amado por todos nós.

Tio Joca sempre morou longe, ensinando lições como a desimportância da distância. Mostrando que nós só transbordamos o que temos dentro, e que de dentro só podemos transbordar amor. Seu enterro tinha tanta gente que parecia festa no meio da tarde. Tanto beijo na testa, tanta gratidão… O amigo da loja, o vizinho de porta, o antigo colega de trabalho… Eles também queriam que vocês conhecem meu Tio João.

Mas essa doença chata que é o câncer às vezes leva. As vezes toma conta. As vezes pesa. E Tio Joca, sem querer que a gente se preocupasse com ele, foi ficando magrinho, ficando calado, ficando rodeado de cuidado, ficando protegido de afeto, ficando até não poder mais ficar.

Ontem, eu sonhei com ele. Sorrindo, com aqueles óculos de lentes fotossensíveis na mão. Acordei preocupada com a santinha e a cartinha que eu ainda não havia enviado. Mostrei pro meu marido o presentinho embrulhado, confirmei com minha tia querida o endereço. E antes que lesse a resposta, Tio Joca já tinha partido. Chorei de raiva de mim, e dessa cabeça tão cheia de trabalho que faz a gente esquecer o que realmente nos preenche. Depois chorei lembrando da generosidade de Tio que me diria “deixa isso pra lá, princesinha. Você sabe que a gente se entende”.

Era assim que ele tratava a gente. “Meu amor mais lindo”. “Minha boneca perfeita”. “Minha luz”. “Carinho de Deus”. É assim que ele trataria vocês.

Eu realmente queria que vocês tivessem conhecido Tio Joca. E queria conhecer todas pessoas para as quais vocês adiaram o envio daquela santinha, daquele “obrigado”, daquele “eu te amo”, daquele perdão, daquele abraço. Assim, a gente junto enganaria o tempo, driblaria os Correios, a correria, a falta de hora e esse mundo doido. Ficaríamos unidos por uma espécie de força-tarefa de urgente amor.

Tenho certeza que vocês iam adorar meu Tio João.

 

 

 

 

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