Elas por Elas

Uma solução prática para lidar com a raiva no ambiente familiar

16 de agosto de 2017

por Talita Corrêa

– Miguel, tô ficando nervosa. Vou pro quarto. Quando você quiser conversar comigo, me fale. Não vou ser tratada com grosseria.

Levantei e saí. Ele estava contrariado por uma negativa minha e se pôs a me chamar de boba e falar em um tom grosseiro. Dormi mal, sabia que a minha tolerância estava bem baixa. Nesses dias o meu foco é me manter consciente e não me perder nas histórias que conto em minha cabeça. “Em caso de despressurização, primeiro coloque a sua máscara, depois ajude a quem precisa…”

Me fechei no quarto enquanto ele batia na porta, ainda nervoso. Ao notar que eu não ia abrir, me chamou com um tom mais calmo.

– Mãe, abre… Eu quero conversar com você. Por favor.
– Diga, filho…
– Eu tava bravo. Você não deixou tirar foto no celular.
– Foi, e te expliquei o motivo. Tudo bem ficar com raiva filho, o problema é o que a gente faz com ela. Eu estava com raiva e dei um tempo. Quando a gente tá muito bravo não consegue pensar direito, e fala coisas que machucam. É importante se acalmar pra pensar nas soluções. É difícil encontrar solução com muita raiva.

– Eu sei, mãe. É que eu esqueço, sabe? Eu sei que é pra afastar, pra respirar. Mas na hora eu não consigo lembrar o que fazer, aí fico brigando com você.
– E como você acha que a mamãe pode te ajudar?
– Eu queria algo pra eu lembrar…
– Vamos fazer o nosso cantinho da calma? Que tal? Você e sua irmã escolhem um lugar e a gente coloca lá só coisas que acalmam e ajudam. E todo mundo da família pode ir quando estiver bravo, pra recuperar a paz pra conversar. Quer?
– Vamos, mãe! Eu quero!

Escolheram um cantinho no meu quarto, onde eles tem livre acesso. Colocaram os livros “Eu te amo” e “O mundo inteiro”, porque, segundo Miguel, quando o coração enche de amor a raiva escorre e vai embora. Colocamos almofadas, bichinhos de pelúcia, um caderninho e lápis. Na parede colamos desenhos que nos acalmam. O pai desenhou uma praia, Miguel um coração com a casa e a família dentro, eu uma frase, e a Helena uma vaca.

Foto: Elisama Santos

– Mãe, como escreve respira?

Soletramos juntos, e no desenho, ao lado do coração, ele escreveu um “respira.”

– Pra lembrar de respirar em vez de brigar, né, mãe? Assim eu não esqueço. Esse cantinho vai encher o coração de amor e alegria!

A caçula me disse que quando ficar nervosa quer que eu a abrace e cante a música do “baby”. Sim, bater e gritar poderia reprimir o comportamento, mas esse aprendizado sobre eles mesmos, sobre seus sentimentos, sobre cuidar do próprio sentir, sobre cuidar dos relacionamentos…ah, esse só se aprende assim, na conversa e na troca. O nosso cantinho da calma é pequeno, simples…mas tem tanto cuidado, carinho e amor em cada detalhe que é, sem dúvidas, o lugar perfeito pra “raiva escorrer e ir embora.”

Me perguntam como é possível educar sem palmadas. Esses momentos… são esses momentos que me fazem ter certeza que esse é o meu caminho. E entre uns tapas e gritos e o cantinho da calma, não tenho dúvidas de qual desenvolve mais habilidades e consciência. Também não tenho dúvidas de qual enche o coração de amor e alegria.

Entre a punição e as soluções, ficamos com as segundas.

Texto originalmente publicado pela escritora Elisama Santos em sua página do Facebook Tudo Eu por Elisama Santos

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